Grandes fortunas e número de milionários caem pela primeira vez em dez anos

Pessoas mais ricas do mundo perderam três biliões de dólares no ano passado. Património global recuou para 83 biliões.
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Os efeitos da guerra na Ucrânia e a incerteza macroeconómica gerada com o escalar do conflito já se fizeram sentir nos bolsos dos que mais têm. Em 2022, pela primeira vez em dez anos, o número global de milionários caiu 3,3% para 21,7 milhões e as respetivas fortunas recuaram 3,6%, à boleia da desvalorização das ações nas bolsas de todo o mundo, totalizando 83 biliões de dólares (aproximadamente 77,8 mil milhões de euros, à taxa de câmbio atual) no final do ano passado, segundo o World Wealth Report 2023, da Capgemini, que inquiriu 3171 indivíduos de alta riqueza em 23 grandes mercados.

Embora continue a ser a geografia onde a riqueza mais se concentra, com uma fatia atual de 25,6 biliões de dólares, a América do Norte foi a região que sofreu a maior queda (-7,4%). No mesmo sentido, também a Europa conheceu um decréscimo de 3,2%, para 24,7 biliões de dólares, e na região Ásia-Pacífico as perdas chegaram aos 2,7%, cifrando-se o património deste território em 18,2 biliões.

Do lado oposto, África, América Latina e Médio Oriente mostraram-se mais resilientes em 2022, registando taxas de crescimento, "em resultado do forte desempenho registado no setor do petróleo e gás", aponta o relatório. A América Latina foi a que mais cresceu (2,1% para 9,2 biliões de dólares), seguindo-se África (1,6% para 1,9 biliões de dólares) e Médio Oriente (1,5% para 3,4 biliões).

Ainda que apenas 23% dos milionários tenha obtido ganhos com os ativos relacionados com governança ambiental, social e corporativa (ESG) em 2022, o interesse neste tipo de produto parece manter-se. Do total de inquiridos no World Wealth Report deste ano, 41% referiu que o impacto do rating dos investimentos sustentáveis é uma das suas principais prioridades e 63% revelou ter pedido classificações ESG para os seus ativos.

Porém, o estudo concluiu que "são poucas as empresas de gestão de fortunas que consideram como principais prioridades a análise deste tipo de dados (52%) e a rastreabilidade (31%)". Os próprios gestores, inclusive, sublinharam a necessidade de mais dados para entender qual o impacto desta abordagem, com quase um em cada dois a dizer que precisa de mais informação sobre o assunto para poder tratá-lo de forma eficaz com os clientes.

"A falta de ferramentas digitais que se faz sentir atualmente impede os gestores de fornecerem aconselhamento financeiro adequado e de oferecerem uma experiência de valor acrescentado ao cliente", alerta a Capgemini, acrescentando que os resultados dos investidores estão a ser afetados.

A consultora inquiriu sobre o tema e apenas um em cada três dos responsáveis classificou a maturidade digital ponta a ponta da sua empresa como alta. Além disso, constatou-se que as ineficiências verificadas na cadeia de valor estão também a aumentar o custo por gestor de cliente e que o tempo gasto por estes profissionais em atividades não essenciais está a retirar tempo de interação com os clientes. Como consequência, 31% dos clientes revelaram que provavelmente mudarão de gestor de fortunas nos próximos 12 meses.

Nilesh Vaidya, global head of banking and capital markets da Capgemini, afirma que "para se manter relevante, o setor precisa de fortalecer o seu valor, de capacitar os gestores de cliente e de desbloquear novas oportunidades de crescimento".

Expandir o grupo de potenciais clientes na área da gestão de património é imperativo para o setor poder crescer a longo prazo - e os abastados (pessoas com património de ativos investidos tipicamente entre 250 mil dólares e 1 milhão de dólares), que continuam a crescer, deverão ser a aposta, indica o relatório.

É na América do Norte (46%) e na Ásia-Pacífico (32%) onde existem mais abastados, quer em valor de riqueza, quer em número de pessoas. Ao todo, este grupo detém 27 biliões de dólares em ativos (quase 32% da riqueza total dos milionários), mas, segundo a Capgemini, 34% das empresas de gestão de património não explora este segmento.

Mais de 70% dos abastados inquiridos revelaram estar maioritariamente interessados em procurar serviços de consultoria de gestão do património junto dos seus bancos nos próximos 12 meses.

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