Marc Roche: "António Borges será muito bom a privatizar"

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O Goldman Sachs (GS) continua a ser dos bancos mais poderosos na finança e na política global, mas faz para o merecer. Quem o diz é Marc Roche, investigador e jornalista do Le Monde, que está numa situação privilegiada.Correspondente em Londres do conceituado jornal francês há mais 20 anos, Roche não tem dúvidas: as pessoas do GS são as melhores entre as melhores. Conheceu muita gente do banco - a firma como lhe gosta de chamar - e acabou por escrever um livro sobre isso.Roche chegou ontem a Lisboa para apresentar a obra: "O Banco. Como o Goldman Sachs dirige o mundo". O Goldman Sachs "está por detrás da atual crise financeira", mas porque os políticos são fracos e deixam, acusa.O jornalista confessa ainda que conhece mal a realidade portuguesa. A meio desta conversa até tirou notas: ficou surpreendido ao saber que Carlos Moedas também passou pelo grande banco norte-americano.Quanto a António Borges, é lapidar: tal como todos os que passaram pelo Goldman Sachs, "será muito bom a privatizar".O Goldman Sachs (GS) é visto por muitos como um agente demoníaco a nível global. É mesmo assim?As pessoas que vêem o Goldman Sachs assim estão erradas. É um banco como muitos outros, mas com algo concreto que o diferencia uma cultura muito específica. São muito bons. Em primeiro lugar, contratam os melhores quadros através de um processo demorado, de 20 a 30 entrevistas, que provêm das melhores universidades do mundo. Há uma segunda característica. Normalmente, no mundo da banca e, em especial na banca de investimento reina o individualismo extremo. Bom, no Goldman Sachs não é bem assim. Funciona através de trabalho de equipa. Não podemos dizer que existam prima donas ou grandes estrelas como noutras instituições. Estes banqueiros partilham muita informação, know how e os bónus. Nesse sentido, é um caso quase único na banca. E em todas as divisões há sempre dois líderes, para enfatizar que não há apenas um chefe. Mas há um terceiro traço que os distingue: têm uma rede política internacional. Não perdem tempo como outros bancos a recrutar consultores que foram diplomatas ou ex-políticos de segunda linha. Vão às pessoas que interessam: antigos banqueiros centrais e antigos comissários europeus, por exemplo. Estas pessoas estão lá porque têm uma rede de contactos muito valiosa e, através dela, "vender" o Goldman Sachs e obter mais informações para o banco. Têm essa dupla função. Dou-lhe um exemplo: Mario Monti, que hoje é o líder do Governo italiano. Portanto, estamos a falar de um banco que é melhor que todos os outros a fazer isto.Esse processo e perfil de recrutamento remete, no caso de Portugal, para António Borges. Porque razão não explora o caso no livro?Porque não era assim tão importante. Na altura, não estava realmente no centro dos negócios mais valiosos do banco. Não sei, aliás, o que ele está a fazer agora...É administrador não executivo de um grupo retalhista nacional e chefia a comissão que acompanha as privatizações em nome do Governo. Já foi vice governador do Banco de Portugal.Não sabia. Encaixa no perfil. Tem esse tipo de currículo, foi recrutado pelo Goldman Sachs e daí transitou para diretor do Fundo Monetário Internacional...Mas já não está no FMI. Esteve pouco tempo, aliás.Para mim, foi despedido. Mas isso agora não importa. Vai ser muito interessante ver que bancos ficarão com as privatizações portuguesas. Perceber se o Goldman terá alguma ligação a elas, ou não. Mas, como lhe disse, coloco Borges num nível diferente de Monti, Draghi, Papademos ou mesmo Peter Sutherland [ex-comissário europeu] e Issing [ex-BCE]. Borges está num nível mais baixo, é de um país não muito relevante para o Goldman Sachs. Para eles Portugal é periferia. Nunca foram muito ativos aqui.Que mercados importam ao GS?Bruxelas e a União Europeia como um todo. Em termos de países, é a Alemanha, a Itália e a Grã-Bretanha.França, não?Nunca conseguiram entrar em França porque os banqueiros de topo franceses não querem trabalhar com o Goldman Sachs. A cultura bancária francesa é individualista, burocrática e não está muito virada para a internacionalização. Não são muito conhecidos. Apesar de terem feito alguns negócios de privatizações e de fusões e aquisições, como a Arcelor Mittal [conglomerado do aço], o establishment francês continua a ser muito fechado no sector financeiro. Os bancos estrangeiros nunca foram muito bem sucedidos em França. Até o Barclays está a sair. Há vários ex-quadros do GS no atual Governo. Como lê isso?Ah, sim? Quem?Carlos Moedas, secretário de Estado responsável pelo acompanhamento do programa de ajustamento, é um deles.Isso é muito interessante. Pode escrever aqui o nome? [entrega um bloco] É interessante porque nos países problemáticos o Goldman está a ficar mais presente. Estive na Grécia há cerca de duas semanas. O presidente da agência de crédito público grega é um ex-GS, em Espanha, onde nunca estiveram, entraram agora em força como conselheiros do Governo para a crise bancária. E, portanto, António Borges está com as privatizações... [tira apontamentos]. Mas porquê este interesse na periferia? Os outros mercados estão a cair? Estão a diversificar?As pessoas pensam que o Goldman tem um plano para dominar o mundo, mas não é bem assim. Como disse, é um banco, vai onde houver lucro.A Portugal?Se há privatizações para fazer, por que não? E para mais, ser consultor em privatizações é, justamente, uma área que o GS domina muito bem.Como é estruturado o negócio do GS?Uma das suas forças é que cobre todos os segmentos, como se fosse uma linha de produção. Fazem M&A [fusões e aquisições] e, normalmente, banca de investimento, pondo empresas a falar com empresas, unindo-as - um pouco o que fazem os bancos Lazard e Rothchild. Fazem trading, provavelmente a atividade mais importante para eles, porque tem dado imensos lucros. Estou a falar de negociação de títulos relativos a matérias primas, taxas de juro. Fazem ainda gestão de fortunas, têm hedge funds [fundos de alto risco] e fazem private equity [investimento e montagem de novos negócios].Portanto, estão em todos os negócios possíveis?Exatamente. E estes negócios que estão todos integrados e são vendidos em pacote. Portanto, os governos procuram o GS porque já sabem que a oferta deles é completa. Ou então o GS oferece este pacote aos governos.Quem procura quem?Normalmente, é o banco. Mas todos os bancos fazem isso. Vão à procura das oportunidades de negócio. Mas o que distingue o GS é que tem um leque de atividades incrível, que está à venda por um preço único. E ainda por cima os banqueiros do GS são os melhores. Mas, o que os governos não sabem é que não estão preparados para lidar com um animal como o Goldman.Pode dar um exemplo?Quando o GS vendeu o Abacus [um CDO - collateralised debt obligation - produto financeiro estruturado e muito complexo ligado a valores hipotecários de baixa qualidade ou lixo] sabia que era um produto perigoso, tóxico. E venderam a quem? A um banco regional alemão, baseado em Dusseldorf, ao Deutsche Bank, ao ABN AMRO. Tomemos o exemplo do banco alemão. Imagine. O presidente de um pequeno banco regional que recebe o pessoal do GS, banqueiros de Nova Iorque. Deve ter ficado tão impressionado... Banqueiros com um ar fresco, educados, a falar bem, com imensos documentos - o pessoal do GS tem esse perfil, anda sempre com pilhas de documentação. Deve ter ficado tão impressionado que aceitou comprar o Abacus sem saber realmente do que se tratava.O GS sabia do poder destrutivo do Abacus quando fez isso?Sabia. Nas costas dos clientes, o banco já estava a especular contra o Abacus. Isso, aliás, ficou provado e motivou um processo que resultou numa multa da SEC [o regulador dos EUA multou o GS em 550 milhões de dólares].Também houve problemas na Grécia, não foi?Foi com um swap de dívida [que permitiu a Atenas mascarar as contas públicas]. Chegaram à Grécia, em 2001. Imagine: uma pequeno país, uma agência de crédito público pequena, mal preparada, e venderam-lhes um produto em que confiaram, mas completamente inacessível nos custos a suportar.O GS fazia negócio, mas a Grécia também quis, não?Os gregos estavam desejosos de trabalhar com o GS. Estavam orgulhosos por isso. Uma vez mais, o que o Governo não sabia é que o Goldman é uma instituição ingerível. Um lado da empresa vende um produto financeiro aparentemente bom ou faz a fusão de duas companhias, algo que aliás eles sabem fazer bastante bem e com sucesso. Mas se virem uma oportunidade de lucro, existe uma outra área de negócio que rapidamente aposta contra o seu próprio produto ou fazem trading que pode levar à destruição da fusão.São processos que seguem uma lógica de curto prazo. Não têm de estar sempre a surgir novos negócios para alimentar isso? Como é que nunca foram detetados?Estamos a falar de produtos altamente técnicos. De produtos financeiros complexos, que eles próprios inventam ou reinventam, fazendo novas embalagens, e que voltam a vender e aos quais se perde o rasto. E eles têm os melhores quadros, as pessoas que inventaram tudo isso que levou à crise financeira. Os governos jamais entenderão. Por isso as relações que estabelecem com o GS serão sempre desiguais, com demasiado risco para o sector público. Na Europa, à exceção da Alemanha, todos os governos são demasiados fracos para poderem tratar com o Goldman.A banca como nós a conhecemos está no fim de uma era. Tal como muitos outros bancos que sucumbiram ou que tiveram de baixar expectativas de negócio, conseguirá o GS reinventar-se?Penso que o Goldman Sachs tenderá a perder algum poder e influência daqui para a frente porque a regulação está a ganhar força, finalmente. Os Estados Unidos estão a debater uma proposta em torno da regra de Volcker [atualmente em debate, foi submetida por Paul Volcker, antigo presidente da Reserva Federal]. A proposta diz, basicamente, que os bancos ficam proibidos de fazer trading com produtos em relação aos quais tenham alguma ligação ou que tenham inventado. Esta regra cortará um dos veios de transmissão que permitiu ao GS ser o que é hoje. Penso que o GS se tornará, gradualmente, num banco mais parecido com os outros. Até porque o trading tornou-se a forma mais inaceitável do capitalismo.E a rede de contactos políticos de que falava há pouco, não fará uma diferença?Quanto ao futuro, não sabemos. Sabemos que o GS não está em declínio. Tem uma boa estrutura de capital e continuam muito ativos. O exemplo do sul da Europa é emblemático. Tem pessoas em Portugal, já estão em Espanha, a tratar do saneamento do sector bancário. O que acho espantoso é que seria de esperar, depois do que aconteceu na Grécia, que os Governo fossem mais prudentes. Mas não.A regra de Volcker irá ter reflexos na Europa?Aplicar-se-á a todos os bancos norte-americanos, às operações internas e internacionais. E penso que quando a lei for revista e aprovada, até mesmo a Europa se sentirá obrigada em espírito a alinhar com essas regras. A Europa já tem, aliás, o Basileia III. E mais regulamentação virá.Como é que um banco como o GS não reage a isso? Mas está a reagir. Se não podem continuar tão fortes no trading, então estão a olhar para os hedge funds. Estão a comprar hedge funds. Até agora o GS tem sido controlado pelos traders. Lloyd Blankfein [o presidente executivo] e os dois abaixo dele na hierarquia são traders. Mas esta era está a acabar. Eles devem sair brevemente e os seus lugares deverão ser ocupados por banqueiros mais tradicionais. Pessoas dos M&A, por exemplo. Vão sair porquê, se o banco continua forte?Esta direção está muito envolvida em escândalos, muito desgastada desde que rebentou a crise do subprime. Antagonizaram a administração Obama, a Comissão Europeia. Blankfein deverá sair muito brevemente. Precisam mesmo de novas caras. Vão querer ser mais como o Lazard e o Rothchild. Mais clássicos, mais limpos, por assim dizer.O que fazem estas pessoas depois de sair do banco?Normalmente, abrem hedge funds para poderem negociar títulos à vontade sem prestar contas a acionistas - é uma instituição privada, apenas têm de responder a clientes -, criam empresas para investir noutras empresas e, normalmente, mantém o contacto com o GS. Muitos vão para a política.O GS é uma família?De certa maneira, quem passa pelo Goldman Sachs acaba por ficar com os amigos e conhecidos do trabalho na vida. É um ambiente tão duro e exigente que não têm tempo para mais nada. A vida pessoal dificilmente existe. E quando se entra no grupo, dificilmente se sai dele. Não é que seja uma seita, é apenas uma firma que é o que é porque as pessoas vivem lá dia e noite. Estamos a falar de pessoas que sacrificam tudo por dez anos ou mais, que não existem como indivíduos durante todo esse tempo, mas que depois ficam muito ricas. É por isso que os ex-banqueiros se dedicam à filantropia e assim. Para compensar esse vazio, para voltarem a existir.O GS ajudou-o no livro?Conheci muita gente que por lá passou ou que ainda lá trabalha. O próprio GS ajudou-me, sim. A nossa relação tem tido fases (risos). Ajudaram-me no livro e nos artigos que escrevi. Mas não me ajudaram no filme (sobre o livro). A ajuda que tive foi relutante. Em relação a mim, a postura deles foi "é melhor o diabo que conhecemos do que aquele que ignoramos". Por isso tentaram sempre manter contacto.Atualmente também?De momento não nos falamos porque escrevi uma peça desagradável sobre eles no Le Monde.Conheceu pessoalmente os líderes do GS?Nunca.Tentou?Claro! Enviei até hoje 150 perguntas ao Blankfein. Nunca respondeu. Mas conheci muitos quadros da Europa, as pessoas que são a cara "aceitável" do GS: os economistas, os analistas... Pessoas brilhantes. Os traders, os gestores dos hedge funds, nunca conheci. Mas sei quem são porque vivo em Londres há 20 anos. Para mais, Blankfein raramente dá entrevistas. E as que deu foram um desastre. Aquela do "Eu faço o trabalho de Deus"... Um desastre.O GS está a tentar fazer reformas internas?Diria que sim. Estão a sair pessoas. Não há nada de sinistro nisso, eles querem realmente renovar quadros. O Goldman é dos poucos bancos do género despede altos quadros. Estamos a falar de 40 ou mais pessoas. Em França, Portugal ou Espanha, esse tipo de funcionários ficam até aos 65 anos. No GS ninguém fica até tão tarde. Quem não sai no âmbito de uma reestruturação, sai por esgotamento nervoso.Na sequência do caso do Abacus houve apuramento de responsabilidades pessoais?Só uma pessoa. O bode expiatório foi Fabrice Tourre [tal como Borges, foi um dos muitos vice-presidentes da instituição]. Havia dez pessoas acima dele... Ele foi apanhado porque sabia do Abacus e porque escreveu emails sobre isso. Deixou vestígios e o FBI apanhou-o.O know how do GS pode ser favorável ao sucesso do programa de privatizações de Portugal? Isto é, António Borges não poderá ser útil aos objetivos do Governo?Borges deve ter uma grande noção do que pode ser feito em termos de engenharia financeira, algo que é essencial nos programas de privatizações. Acredito, que, como todos os outros do banco, ele será muito bom a privatizar. O GS já conduziu ou esteve envolvido em muitas privatizações em todo o mundo. Não são os únicos bons nisso, mas são mesmo muito bons a privatizar e a montar as operações. O segundo aspeto é que as privatizações são um processo político, especialmente na situação em que Portugal está, financeiramente dependente do FMI e da UE. Isso requer uma grande destreza a lidar com instituições políticas, algo que os ex-quadros do Goldman são realmente bons a fazer. Isto é tanto mais verdade quando se pensa na União Europeia. Têm de saber conjugar muitas coisas: respeitar regras da concorrência, por exemplo. Borges terá sempre esse backup da grande máquina que é o GS. Documentação, advogados, contabilistas.Como assim?O GS terá sempre a resposta para todos os problemas que possam surgir. Eles são bons em tudo. Mas o importante aqui é que quem passou por lá, sabe perfeitamente como é que estas pessoas pensam. Tendo essa cultura, Borges saberá evitar uma série de problemas.Isso é bom ou mau para o interesse público no programa das privatizações?Vamos ver. Isso não depende só de Borges, nem da GS, se vier a estar envolvida. São precisos dois para dançar o tango. Os políticos têm um papel determinante a cumprir. Não se pode por todo o ónus no Goldman e nas suas pessoas. Se Portugal quiser que o programa seja feito de forma ética - não como na Rússia, mas mais como na Alemanha ou França - os políticos precisam de controlar os bancos. E isso só é possível com regulação e com respeito estrito pelas regras existentes. Caso contrário haverá pagamentos indevidos, conflitos de interesse. Mas como disse, em países como Portugal e Espanha, os políticos são muito fracos, não têm dinheiro, não têm bons quadros nas equipas, os que lá estão carecem de competências técnicas, compreendem mal os mercados financeiros.O problema está então mais nos políticos do que no GS, é isso?De certo modo, sim... É preciso mais nível e qualidade nos políticos. O GS apenas faz o que tem de ser feito e é bom nisso.

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