Novo brilharete orçamental. Excedente final de 2024 deve ser o dobro do estimado pelo governo

Primeiro, foi Centeno em 2019. Depois, Medina em 2023. Agora, Miranda Sarmento. Poupança brutal no investimento público, onde ficaram por gastar 3,4 mil milhões de euros, pode levar a excedente próximo de 1%, o segundo maior da História de Portugal democrático, em mais de 50 anos.
Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças. AR, novembro de 2024.
Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças. AR, novembro de 2024.Gerardo Santos
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Mais um ano, mais um brilharete nas contas públicas portuguesas.

De acordo com os últimos valores e cálculos feitos para 2024, o excedente orçamental final medido em contabilidade nacional, a que importa para a avaliação da Comissão Europeia e de outras entidades internacionais, deverá ascender a 1% do Produto Interno Bruto (PIB), mais do dobro face aos 0,4% do PIB que o governo e o Ministério das Finanças continuam a inscrever nas suas metas oficiais.

Em 2019, Mário Centeno, o ministro das Finanças da altura, foi o protagonista do primeiro brilharete orçamental do país, que nesse ano alcançou o primeiro excedente orçamental da sua História democrática: 0,1% do PIB.

Mais tarde, já em 2023, haveria de ser o seu correligionário do PS, Fernando Medina, a acumular folgas suficientes para atingir um excedente ainda maior, de 1,2% do PIB, um recorde. Medina dizia na altura que o ano iria fechar com um saldo positivo de 0,8%. Foi um grande brilharete, portanto.

Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças. AR, novembro de 2024.
Governo acaba 2024 com excedente orçamental de 354 milhões

Agora, é Joaquim Miranda Sarmento, o sucessor do PSD nas Finanças, que pode colher louros. Se entregar um excedente público (contas nacionais) de 1%, este será o segundo maior dos últimos 50 anos e, se quiser, usá-lo como um ponto de partida mais favorável para o Orçamento do Estado de 2025, atualmente em execução.

Ao dia de hoje, o ministro do PSD diz que continua firmemente agarrado a um "excedente de 0,4% do PIB" no ano passado.

A execução orçamental excedentária beneficiou de várias folgas e poupanças importantes, designadamente, de um comportamento muito melhor nos impostos cobrados face ao que estava previsto no OE 2024 - Orçamento do Estado para 2024 (mais 580 milhões de euros, segundo contas do DN).

Teve ainda o impulso de uma poupança muito expressiva nas compras de bens e serviços por parte do Estado e outras entidades, que gastaram menos 500 milhões de euros face ao que estava orçamentando, sendo ainda de destacar uma poupança com juros da dívida anuais superior a 380 milhões, segundo os nossos cálculos a partir do boletim da Direção-Geral do Orçamento (DGO), tutela direta do Ministério das Finanças.

Corte de 30% no investimento público previsto

Mas, no lado da despesa, a grande folga/poupança que ajudou a conter a despesa veio mesmo do investimento público; ou da falta dele.

Uma vez mais, o governo (como os que o precederam) não executou o que prometeu na importante rubrica do investimento público: a ideia era chegar a 11,2 mil milhões de euros em projetos de investimento no ano passado, mas só injetou 7,7 mil milhões de euros.

Isto representa um corte de 30% face à meta proposta no OE2024, uma poupança ou folga no lado da despesa que ascende a uns impressionantes 3,4 mil milhões de euros, segundo contas do DN com base nos dados oficiais da execução orçamental anual divulgada na sexta-feira passada, pela DGO.

Como no passado recente, a lentidão no investimento continua a estar ligada à dificuldade em erguer e aprovar projetos, muitos deles integrados no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a bazuca de fundos europeus de 22 mil milhões de euros, que continua muito atrasada e, em parte, sob a ameaça de vir a ser desaproveitada.

Este envelope especial desenhado em 2021/2022 para relançar a recuperação do investimento pós-pandemia tem de ser executado, sem falta, até final de 2026. A regra é para todos os países da União Europeia.

Entretanto, perante a acumulação de alguns atrasos críticos, o governo anunciou na semana passada que vai pedir à Comissão Europeia uma segunda reprogramação do PRR para evitar que o pior aconteça: perder definitivamente as verbas prometidas a Portugal.

Tal como os antecessores, o ministro Miranda Sarmento rejeita a ideia de que haja folgas ou margem de manobra na condução do Orçamento.

Tudo o que se ganhar, é para pagar mais depressa aos credores e abater à dívida, que continua a ser uma das maiores do euro e que está muito acima do limite de 60% imposto pelo Pacto de Estabilidade.

"Temos de manter excedentes para garantir que continuamos a reduzir a dívida pública", rácio que fechará 2024 "entre 96% e 97% do PIB", disse Sarmento, na sexta-feira.

Despesa total de 2024 ficou 3,5 mil milhões de euros abaixo

Vânia Duarte, economista do departamento de estudos do BPI, refere que a despesa pública "aumentou 9,2% em 2024 (+10,114 milhões de euros), mas, ainda assim, é inferior em 3,550 milhões de euros face à estimativa do Governo".

"Neste caso, a sub-execução resultou de praticamente todas as rubricas, com exceção das despesas com pessoal e transferências correntes", sendo que "a rubrica que ficou mais aquém da estimativa de execução foi o investimento".

No entanto, segundo a analista, estes novos dados das Finanças "apontam para uma evolução favorável nas contas públicas em 2024".

"A execução em contabilidade pública permite tirar algumas conclusões sobre como terá ficado o saldo orçamental em contabilidade nacional (valores oficiais)" e, apesar da "elevada incerteza" que ainda existe, o saldo orçamental na ótica oficial (contabilidade nacional) pode ter "ficado em torno de 1% do PIB, ou seja, 0,6 pontos percentuais acima da estimativa do Governo".

"Esta passagem de contabilidade pública para nacional é impactada por diversos fatores (por exemplo, a diferente contabilização das injeções de capital e empréstimos ou dos fundos europeus)", explica a economista numa nota de research sobre este tema concreto.

Se entregar um excedente de 1% do PIB em 2024, Portugal reforça o terceiro lugar dos maiores saldos orçamentais da Zona Euro, a seguir a Irlanda (4,4%) e Chipre (3,5%).

O valor oficial para o saldo orçamental de 2024 será apurado e divulgado pelo INE no próximo dia 26 de março, no reporte dos défices, semestralmente enviado a Bruxelas.

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