Horta-Osório: "Estou a chutar à baliza desde o primeiro dia que cheguei ao Lloyds"

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António Horta-Osório foi eleito na quinta-feira o Melhor

Banqueiro do Mundo pela revista Euromoney, uma das duas publicações

internacionais - a outra é a The Banker - que cobrem a atividade

financeira à escala global. Numa sala à pinha de banqueiros,

traders e demais fauna da City londrina, embora alguns de smoking

alugado, Horta-Osório ainda assim conseguia destacar-se dos outros

500 convidados da tribo do dinheiro. Porquê?

Primeiro, porque nessa noite seria dele o prémio mais desejado, o

último a ser entregue e, portanto, com mais repercussão. A banca é

um negócio de egos desmesurados, é essa a natureza do jogo. Ser

eleito banqueiro do ano é, por isso, o ambicionado selo jornalístico

que reconhece e situa o sobe e desce de meia dúzia de peixes graúdos

que disputam, trimestre a trimestre, ano a ano, estas águas

perigosas.

Segundo, porque há qualquer coisa no gestor português que já o

elevou ao cume financeiro mundial e o posiciona ao lado de outros

tenores como Lloyd Blankfein (Goldman Sachs), Jamie Dimon (JP Morgan

Chase) ou Bob Diamond, o antigo CEO do Barclays, caído em desgraça

há um ano por causa da manipulação das taxas Libor.

Se tenciona comparar-se com alguém deste cosmos financeiro, é

para este restrito grupo de predadores que Horta-Osório tem de

olhar. Claramente, ele já olha. O facto de liderar um banco, o

Lloyds Banking Group, mais pequeno do que esses concorrentes e com

uma pegada geográfica localizada no Reino Unido - ao contrário da

vocação planetária do Goldman ou do JP Morgan -, coloca-o no

entanto ainda alguns palmos abaixo.

O JP Morgan vale em bolsa 150 mil milhões de euros, apenas uns

cobres menos do que o PIB português inteiro. Ou seja, seria precisa

toda a riqueza criada em Portugal ao longo de um ano para o poder

controlar a 100%. Já a capitalização bolsista do Lloyds, embora

sem paralelo com qualquer empresa portuguesa, fica-se pelos 55 mil

milhões, um terço do JP Morgan, embora tenha dado um salto incrível

no último ano: subiu 117% e foi a ação que mais se valorizou em

toda a banca. Ainda assim, apesar destas diferenças que se refletem

também no salário e nos bónus anuais dos CEO, António

Horta-Osório já faz parte deste clube de tubarões. Não vive em

Nova Iorque, está em Londres, mas lidera o maior banco do Reino

Unido (30 mil empregados) e, por isso, talvez um dia se veja de

repente em rota para o campeonato americano, o mais feroz e o mais

bem pago de todos.

Esta promoção, talvez a última que lhe falta no currículo, não

seria surpreendente, apenas a confirmação do percurso feito até

aqui. CEO desde os 29 anos, hoje tem 49, geriu 12 bancos em três

países (Portugal, Brasil e Reino Unido) e, portanto, o caminho pode

um dia ser esse. Para já, no entanto, Horta-Osório, que em momento

algum fala desta possibilidade, está como peixe na água em Londres.

E apesar de fazer parte deste cardume financeiro, por alguma razão

já se distingue dele em qualquer coisa.

Por exemplo, na quinta-feira à noite, quando subiu ao palco na

capital britânica - apenas por ser quem é - deu ao apresentador a

oportunidade de fazer um comentário no qual é fácil reconhecer o

personagem. "Simplesmente - disse o apresentador -, simplesmente

adoro quando, além de serem banqueiros, eles se parecem mesmo com o

real deal.... Banqueiros-banqueiros, portanto. Senhoras e senhores,

António Horta Osório...!" Pode até ser uma coisa tão básica

como o cabelo com gel para trás, o poder, o dinheiro e, claro, a

atitude reverencial de muita gente, em especial da corte, que se

cruza com ele. Pode efetivamente ser isso. Mas a verdade é que

quando Horta-Osório passa, nota-se que passou.

E no entanto os últimos dois anos foram, para ele, quase sempre a

doer. O colapso físico e mental que sofreu de repente, o esgotamento

que enfrentou apenas oito meses depois de assumir a liderança do

Lloyds, quando ainda estava quase tudo por fazer no banco, parecia o

ponto final parágrafo desta subida meteórica.

"Não conseguia dormir", lembra. "Tinha cada vez mais

pressão. Havia muitas coisas em jogo, muitas decisões difíceis;

pessoas que tinha de mudar depressa, uma cultura de empresa para

inverter, outra para fundar e acima de tudo a pressão para devolver

o dinheiro ao Tesouro e aos contribuintes. O dinheiro que tinham

injetado no banco para o salvar."

Em 2008, depois de uma década a investir em produtos financeiros

cada vez mais complexos, o modelo de negócio do Lloyds, como de

tantos outros bancos internacionais, parecia-se cada vez mais com o

de um banco de investimento ou até de um hegde fund. Ou seja, com

excesso de agressividade e muito risco no balanço. Longe estavam os

tempos em que um banco de retalho - um simples banco comercial - se

preocupava em gerir o dinheiro dos seus depositantes com alguma

agressividade, sim, mas sempre com prudência.

Ao mergulhar de cabeça no subprime e noutros produtos sintéticos,

comprando-os mas também vendendo-os, embora com outro embrulho, ao

balcão das suas agências, o Lloyds estava simplesmente a jogar à

roleta com o dinheiro dos depositantes a ficar cada vez mais fora de

pé. As poupanças das famílias e das empresas estavam a ser jogadas

diariamente no casino financeiro, expondo-se a riscos que, como veio

a demonstrar-se mais tarde, colocaram o banco à beira do precipício.

"Eram riscos elevadíssimos que podiam atirar o banco ao tapete

a qualquer momento. Não conseguia dormir com este peso. Tinha de

resolver isto. Só pensava nisso e em mais nada." Como ultrapassar

esta montanha? Foram dois anos sempre no fio da navalha. Em vez de

deixar o lixo tóxico escondido debaixo do tapete, começou logo a

reconhecer os prejuízos e os problemas que ia encontrando. Às vezes

apareciam rombos monumentais que davam cabo das contas no trimestre;

rombos muitas vezes relacionados com a compra precipitada do HBOS, em

2008, um caldeirão de disparates herdado da gestão anterior. As

perdas no primeiro ano foram de 3,8 mil milhões de euros.

Durante este percurso, o Lloyds nunca parou de fazer provisões e

foi aumentando os rácios de capital (almofadas de segurança) para

ir reconquistando a confiança dos mercados e até da equipa. Outra

das decisões mais duras e contestadas do gestor foi o reconhecimento

de que um produto chamado PPI (payment protection insurance) que o

Lloyds vendera aos seus clientes, não era, afinal, o mais adequado

por ser demasiado complexo. Por causa deste problema, que punha em

causa a relação de confiança entre o banco e os clientes,

Horta-Osório decidiu assumir responsabilidades e compensar todos os

compradores. Uma opção de gestão sem paralelo. Milhões e milhões

de libras em jogo, perdas monumentais. O mercado estremeceu com a

ousadia.

Na verdade, o Lloyds foi o primeiro banco em Inglaterra a seguir

este caminho, mas os outros acabaram por adotar a mesma estratégia

quando perceberam que não fazia sentido empurrar com a barriga. O

governo e o regulador, pressionados pela opinião pública, tinham

atingido o limite da tolerância. As más práticas (os enganos, os

adiamentos) dos banqueiros ameaçavam levar a economia inglesa ao

chão. António Horta-Osório compreendeu o contexto político,

social e financeiro. E agiu. Tirou partido da fraqueza e do problema

para sair na frente dos concorrentes e reconstruir a depauperada

reputação do Lloyds.

Ultrapassado o colapso físico após uma pausa forçada de seis

semanas , Horta-Osório continuou a desfazer-se dos ativos non-core

do banco, outra decisão muita criticada. Só no ano passado o Lloyds

faturou mais de 50 mil milhões de euros com estas vendas. "A ideia

era simples: recentrar o banco no essencial, dar crédito às

famílias e às empresas, olhar para as grandes companhias, mas

também para as PME; no fundo estar ligado às comunidades locais,

estabelecer relações de confiança - é esta a cultura de negócio

do Lloyds. O caminho era e continua a ser por aqui, não há outro

para um banco comercial", diz.

Para concretizar esta viragem em apenas 18 meses, o banqueiro

terraplenou literalmente a anterior comissão executiva. Ficou apenas

um dos nove elementos que a compunha. Contratou também uma

consultora para avaliar ao detalhe os quadros mais importantes .

Estabeleceram-se critérios, metas e, no fim, Horta-Osório chamou a

si a decisão. Das 180 pessoas que faziam parte desse núcleo de

topo, apenas 35 têm hoje o mesmo lugar, 50 vieram de fora e outros

95 foram promovidos. A maior parte foi convidada a sair.

"Acredito que foi esta mudança que serviu de gatilho para que

fizéssemos um corte tão rápido com o passado. Gente nova, nova

estratégia, mas também a dose certa de experiência, pessoas que

conheciam bem o banco." Depois, sobre isto, capacidade de decisão.

"É mais fácil falhar em grupo do que acertar sozinho. Fui

escolhido para tomar decisões e foi isso que fiz em 18 meses. Em

Portugal, mas não só, às vezes finta-se, finta-se mas não se

chuta à baliza. Eu estou a chutar desde o primeiro dia que cheguei

ao Lloyds."

A boa notícia para o governo inglês é que os 39% de capital que

ainda tem no Lloyds já podem ser vendidos no mercado. O prémio do

Euromoney tem qualquer coisa a ver com isto. Atenção: vendidos com

lucro. O ministro das Finanças, George Osborne, já anunciou que a

nacionalização será revertida nos próximos meses, talvez até

antes de setembro. A ação já está nos 69 pence, a partir dos 61

já é bom negócio para o Estado. E pensar que a ação chegou a

cair para 25 pence. Trabalho concluído? "Não está, certamente,

mas em breve podemos começar outro capítulo no Lloyds", diz

Horta-Osório. Porquê essa certeza? "Porque nunca fui complacente.

A começar comigo."

*Em Londres

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