"Infelizmente não temos banca ativa e que perceba as necessidades das empresas"

Aon Portugal e Firma assinaram uma parceria para uma oferta global de serviços às empresas, num contexto económico difícil para o tecido económico. Nem a banca "nem fundos públicos" têm estado "ao serviço das empresas", defende Bernardo Theotónio-Pereira, <em>managing-partner </em>da Firma, para quem, "neste contexto, os empresários são verdadeiros heróis".
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A Aon e a Firma decidiram unir esforços numa parceria, complementando as respetivas ofertas. Ambas prestam serviços às empresas, a Aon nas áreas do risco, reforma, saúde e pessoas, e a Firma em negociação, estratégia e new funding. Miguel Oliveira, partner da Aon Portugal, e Bernardo Theotónio-Pereira, managing-partner da Firma, antecipam um ano difícil para as empresas. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, dizem que "a mudança de paradigma em relação à inflação e às taxas de juro serão fatores transformadores do atual modelo económico e da forma como os países e as empresas têm atuado. Acreditamos que teremos um ano desafiante".


Como surgiu esta parceria e quais são os termos da mesma?
Miguel Oliveira (MO): Esta parceria surgiu da necessidade de conjugar as soluções de Funding alternativo representadas pela FIRMA, com a necessidade de cobrir o risco transacional. Esta parceria consolida soluções de investimento e de financiamento com a soluções de cobertura de risco, que hoje pelas nossas mãos (Aon e FIRMA) caminham juntas. Hoje, juntos, respondemos às reais necessidades dos nossos clientes e do mercado, garantindo as melhores soluções de forma inovadora e rápida.

Quais as oportunidades que identificam no mercado neste momento?
MO: Começámos no final de 2021. Contudo, qualquer parceria e, em especial, uma parceria estratégica e intensa como a nossa, precisou de alinhamento entre as equipas e os sócios das empresas. Hoje, podemos dizer que estamos totalmente alinhados e preparados para responder às necessidades das empresas e dos empresários nacionais. Temos soluções de financiamento e conseguimos mitigar e resolver problemas de colaterais. Estamos focados em operações de financiamento e de investimento em que possamos incluir e mitigar risco. Podemos-lhe dar um exemplo: imagine uma empresa nacional que pretende ou procura uma reestruturação financeira, procurando um financiamento que exige colaterais de 50, mas só consegue cobrir 30 da operação. Nós (Aon e FIRMA) temos capacidade de, para além e estruturar o financiamento, através dos nossos parceiros, encontrar soluções que garantam os 20 que faltam para o colateral necessário.

Quando falam em "funding alternativo", referem-se a que tipo de fontes de financiamento?
Bernardo Theotónio-Pereira (BTP): Estamos a falar de working capital facilites, bridge loans, reestruturações, compra e/ou financiamento de recebíveis e outras estruturas de financiamento alternativas. Temos a capacidade de construir a solução à medida do cliente.

Também oferecem "soluções de tesouraria". Que tipo de soluções?
BTP: Estamos focados em garantir soluções para a tesouraria quer através da compra e/ou financiamento de recebíveis ou encomendas, financiamento contra ativos reais e/ou contratos de prestação de serviços, mas também a monetização de garantias e/ou outros instrumentos de colateral.

Qual o perfil das empresas que procuram?
BTP: Atuamos em situações especiais em empresas com boa saúde financeira que procuram soluções alternativas à banca quer no preço como na rapidez de execução e injeção, como nas empresas em dificuldade que possuem dificuldades no acesso ao financiamento.

Como avaliam a saúde financeira do tecido empresarial português nesta altura?
BTP: Importa realçar que mais de 98% do tecido empresarial português é composto por micro e peque nas empresas, e que vivemos dois anos muito exigentes, de forte impacto para os negócios. E, infelizmente, não temos nem uma banca ativa e que perceba as necessidades das empresas e dos empresários nem fundos públicos ao serviço das empresas, cenário que não tem contribuído favoravelmente para as dificuldades que as empresas enfrentaram a nível financeiro (e que algumas ainda enfrentam). Neste contexto, os empresários são verdadeiros heróis.

O que esperam este ano em termos de fusões, aquisições e reestruturações no mercado português?
MO: Esperamos mexidas e muita dinâmica. Tal como foi exigido pelo regulador europeu no setor bancário, mas também do setor automóvel com a junção do grupo PSA ao grupo FCA, julgamos que as empresas portuguesas seguirão o mesmo caminho. Precisamos de fomentar as fusões e as aquisições entre empresas nacionais para consolidarmos o mercado e evitarmos aquisições hostis de players internacionais.

Portugal é um destino atrativo para o investimento estrangeiro?
BTP: Portugal é um país atrativo. Exemplo disso são os investimentos no hidrogénio verde (muito significativos) e nos cabos transatlânticos de fibra ótica (como por exemplo os EllaLink - sendo que este último vai permitir Portugal albergar um dos data centers mais importantes a nível europeu). É certo que temos muito que trabalhar para atrair mais investimento, nomeadamente em termos de estabilidade fiscal e transparência dos processos e da tomada de decisões.

Como perspetivam a evolução da economia neste ano?
MO: Em face dos últimos dois anos vividos, teremos certamente crescimento económico. Contudo, as tensões políticas internacionais esperadas e a mudança de paradigma em relação à inflação e às taxas de juro serão fatores transformadores do atual modelo económico e da forma como os países e as empresas têm atuado. Acreditamos que teremos um ano desafiante.

Quais os riscos para as empresas?
MO: A possibilidade das subidas das taxas de juro pelo BCE, o crescimento galopante da inflação, abrandamento do consumo e investimento, aumento dos custos de várias matérias-primas e instabilidade dos mercados financeiros são alguns dos efeitos esperados no atual cenário de guerra, que estão ainda a ser agravados com as sanções económicas de larga escala, vão afetar o funding e o acesso a fontes de financiamento das empresas.