O aumento da inflação e consequente aumento de preços está a preocupar os líderes das empresas do setor alimentar e também os consumidores. A conclusão é do relatório "Navigating the Market Headwinds - The State of Grocery Retail 2022", divulgado esta quinta-feira pela consultora McKinsey & Company e pelo EuroCommerce, a principal organização europeia que representa o setor retalhista e grossista. O documento analisa entrevistas que foram levadas a cabo a 60 CEO europeus do setor alimentar e também o resultados de um questionário, ao qual responderam mais de 12 mil consumidores em nove países europeus.
De acordo com o documento, citado em comunicado, as vendas do retalho do setor alimentar europeu, em 2021, diminuíram 0,6% em comparação com o ano anterior, nível ainda quase 10% superior ao de 2019. Os volumes diminuíram 2,1%, decréscimo que foi parcialmente compensado por um aumento de 0,2% no comércio e uma inflação significativa dos preços dos alimentos de 1,3%. Apesar da queda das vendas nas lojas físicas, os retalhistas continuaram a expandir as suas redes de lojas, com o espaço de vendas disponível a aumentar 2,4%. As discounters aumentaram ligeiramente as suas vendas (0,3%), enquanto os supermercados perderam 1,2% e os hipermercados 2,6% em receitas.
Já no online, os retalhistas e discounters que operam neste segmento viram as suas receitas aumentar 8,8% em toda a Europa, em comparação com 2020.
Os resultados dos mercado português, no ano passado, são explicado por Ana Paula Guimarães, sócia da McKinsey & Company, em Lisboa. Assim, houve um ligeiro declínio nas vendas globais, apesar de continuarem a ser 13,2% superiores aos níveis de 2019. Relativamente a 2020, as receitas das lojas com preços mais baixos cresceram 1,1% em 2021. Já os supermercados viram as suas vendas diminuir em 0,1% e nos retalhistas online em 8,7%. Os serviços de alimentação recuperaram 10,9% em relação ao ano anterior, embora estejam ainda 26,8% abaixo dos níveis pré-pandemia.
Inflação aumenta preços
O relatório indica que o setor alimentar europeu já esperava que este ano as condições do mercado piorassem, "considerando a queda das vendas após o recuo dos efeitos da pandemia e a pressão nos preços e na concorrência", explicam os responsáveis em comunicado. A estas razões adiciona-se ainda o mercado online, que cada vez mais ocupa lugar junto dos consumidores. E, se a inflação estava já a ser encarada como um dificuldade pelos retalhistas europeus, com a guerra na Ucrânia são os consumidores que ficam igualmente preocupados com os aumentos dos preços dos alimentos.
Se por um lado estão os consumidores que são cada vez mais exigentes, no outro lado estão os retalhistas que têm de satisfazer quem compra, ao mesmo tempo que lidam com a pressão sobre a sua margem e com "a crescente pressão sobre os preços (e COGS), e a esperada complexidade multicanal", refere o mesmo comunicado.
De acordo com o "Navigating the Market Headwinds - The State of Grocery Retail 2022", são cinco as tendências que irão moldar o setor alimentar nos próximos anos. A primeira é a forte pressão sobre as margens, já que a inflação vai aumentar os custos para os retalhistas e, como consequência, vai ter impacto no poder de compra dos consumidores. Quem compra - em especial quem tem menos rendimentos - vai optar por produtos mais baratos e estar mais atento às promoções. O que poderá vir a ser uma mais-valia para quem pratica preços mais competitivos, uma vez que poderão vir a ganhar quota de mercado.
A segunda tendência é uma procura mais polarizada. Ou seja, as famílias mais numerosas, os consumidores mais novos e quem tem maior poder de compra irá procurar "mais produtos saudáveis, sustentáveis e premium", explica o documento. Já os consumidores com menos poder de compra, vão recorrer aos produtos mais baratos.
O crescimento online mais lento e com ofertas mais diferenciadas é a terceira tendência. Segundo o relatório, os consumidores vão dividir-se cada vez mais pelas lojas online, uma vez que estas se diferenciam pelas propostas emergentes o que torna este mercado fragmentado.
A quarta tendência é a procura por novas fontes de lucro, por parte dos retalhistas. Uma vez que os seus negócios se encontram sob pressão, os retalhistas irão procurar obter novas receitas "através de advanced analytics e inteligência artificial, ou através da entrada em novos fluxos de receitas (por exemplo, utilizando os dados fornecidos pelos cartões de fidelização para vender espaço publicitário).
A última tendência é o desafio da atração de talento. Este é um desafio apontado por 39% dos CEO do setor alimentar. Ao mesmo tempo que os trabalhadores do setor a nível mundial revelam um grande desgaste em 2021, também a procura de novas competências cresceu "impulsionada principalmente pela automatização, analytics e comércio eletrónico".
Para Ana Paula Guimarães, este ano vai ser difícil para os retalhistas europeus. "A pressão da inflação, sensibilidade ao preço e aumento da concorrência estão prestes a reverter muitas das tendências positivas que experienciaram", frisa, explicando que, no entanto, os responsáveis das empresas têm agora oportunidades para escolher novos caminhos e tomar medidas ousadas, continuando a investir "numa grande oferta de marcas privadas, no online, em novas fontes de lucro, em produtos saudáveis e sustentáveis, e também nas suas pessoas (e que skills vão ser prioritárias)".