"Portugal tem nível de um Napa Valley." Bacalhôa sustentável para atrair mais turismo de qualidade

Com objetivos ambientais e de digitalização bem definidos, o grupo está em plena transformação, prevendo passar os 90% de autogeração energética para alimentar produção vinícola e enoturismo em 2025. Quer ajudar a profissionalizar o setor e está otimista quanto à recuperação. Mas identifica desafios no futuro, com crises e falta de escala no país.
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Cem anos depois da fundação, a Bacalhôa Vinhos de Portugal está a fazer uma verdadeira revolução com a sustentabilidade a ocupar o papel principal numa transformação que inevitavelmente passará pela robotização, rumo à maior profissionalização possível. "Queremos chegar a 2025 com mais de 90% da energia que consumimos produzida em casa", assumem Renato Berardo e Eduardo Medeiro. Os homens que lideram o grupo sabem que a ambição é grande, mas já têm passos firmados nesse caminho e acreditam que a multiplicação dos atuais 22% de autogeração baseada no fotovoltaico pode acontecer num par de anos com a evolução da indústria das baterias.

"É uma mudança que leva tempo, mas é o objetivo que traçámos. Uma empresa como a Bacalhôa, que consome 6 milhões de KW/h por ano, tem de procurar mais eficiência nos equipamentos, na rega, no enoturismo, na produção, em tudo. Isso vai levar a uma mudança brutal, porque tudo o que é viável ser feito de noite poderá sê-lo. O que é fundamental sobretudo pela vantagem sustentável."

O investimento feito até agora para garantir os 22% de autogeração ascendeu a 500 mil euros. O que preveem aplicar nos próximos quatro anos para quadruplicar a capacidade energética com baterias eficientes fará ascender o total a 2 milhões. Nada que os faça vacilar: "É preciso avançar, não só pelo fator económico, mas pela sustentabilidade; se no fim do dia conseguimos fazer melhor e poupar, estamos à espera de quê? É uma decisão fácil. O trator pode ser fotovoltaico, pode trabalhar 24 horas por dia, ter capacidade para correr o dobro da área e com menor impacto no terreno... Estamos a ver um futuro fabuloso."

Não é ficção científica. Para o grupo, a robotização já é uma área de trabalho séria, com projetos em andamento que aliam digitalização e foco ambiental, como o que a Bacalhôa tem em curso com a Universidade de Évora para desenvolver na Quinta do Carmo o Plano de Sustentabilidade Vinhos do Alentejo. Ou outro que junta este e outros grupos como Symington e Esporão à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, integrado e multidimensional, que visa soluções para modernizar o setor, com a contribuição também de grupos "que estão no frontline da tecnologia tech e sustainability driven, como Sony e Toyota".

Com presença em sete regiões vitícolas portuguesas, num total de 1200 hectares (ha) de vinha espalhados por 40 quintas, representando 40 castas e adegas no Douro, Dão, Bairrada, Península de Setúbal (Azeitão), Lisboa e Alentejo - agrupados em Aliança, Quinta do Carmo e Quinta dos Loridos -, o grupo tem crescido desde que passou, em 1998, a ser controlado por Joe Berardo. Não apenas nos vinhos, onde conta com uma capacidade total de 20 milhões de litros e 15 000 barricas de carvalho, como no enoturismo, que asseguram ser negócio prioritário. E sem perder o foco da sustentabilidade, conforme explicam Renato Berardo e Eduardo Medeiro, presidente e vice-presidente da Bacalhôa, em conversa com o Dinheiro Vivo.

"Temos em Portugal uma qualidade que não fica em nada atrás de Napa Valley e temos de trabalhar, quer na vinha quer no enoturismo, essa vertente sustentável para melhorar e atrair cada vez mais pessoas, turismo de qualidade. Esses são os passos que traçamos, sustentabilidade e robotização. São investimentos que levam tempo, são dois ou três anos de trabalho duro, mas há que fazê-lo e com regras, que seja bem documentado e rastreável, para que não se perca o fator confiança." Nesta viagem, o selo de sustentabilidade que o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV) vai criar em 2022 será fundamental, dizem.

Os gestores revelam ter direcionado metade dos 90 milhões de euros investidos na última década para a área do enoturismo, tendo entre os melhores clientes brasileiros, americanos e europeus, mas também chineses. Uma área que congelou durante a pandemia, mas que está a renascer, fazendo prever, com algum otimismo, que os valores de 2019 já sejam ultrapassados no próximo ano. "Em tempos normais, somos os maiores atores no enoturismo no país, com meio milhão de pessoas a passar todos os anos pelos espaços turísticos e culturais que construímos, do Buddah Éden ao B-Mad, da Aliança ao Underground Museum. Fizemos uma aposta total no enoturismo, abrimos dois museus em plena pandemia - em abril, o B-Mad em Alcântara, e em 2020, o Museu Berardo Azulejo em Estremoz - e aqui vai abrir em breve o novo BBC - Bacalhôa Berardo Collection, porque acreditamos que essa ligação que oferecemos é única e fundamental para o desenvolvimento do grupo, com experiências diversificadas que ajudam a qualificar o vinho."

Neste que é, ainda assim, o foco do grupo, as vendas sofreram também com a pandemia. No último ano sem soluços, a empresa vendeu, só em vinhos tranquilos, 280 mil litros, dos quais 190 mil na grande distribuição e 90 mil na restauração. Números que se reduziram e alteraram em pandemia: se nos supermercados até subiram para 210 mil litros, o peso dos restaurantes, que se traduz em margens bem superiores, caiu para um terço. Neste momento, ainda que o primeiro semestre tivesse sido para esquecer, já se sente a recuperação: "Entre julho e setembro o mercado interno funcionou bem e estamos agora a 7 pontos de atingir os valores de 2019", concretizam.

E há grandes expectativas para a reta final do ano, em que os produtos vínicos têm mais procura. "Com a quebra que houve na produção, os champanhes estão esgotados", exemplificam os responsáveis, que exportam mais de metade da produção de vinho para 60 países, com particular peso de Brasil, Canadá, Suíça e EUA. "Este fim de ano vai ser uma loucura."

O otimismo não é, porém, isento de preocupação. O mercado está a sentir problemas de fornecimento a vários níveis - "na Argentina não há garrafas, por todo o mundo há escassez de matérias-primas, os preços estão a aumentar também com a crise energética e da logística", apontam. "Enviar um contentor para o Brasil custa hoje o dobro ou o triplo; para os EUA são quatro vezes mais. E mesmo assim é difícil conseguir contentores."

O maior entrave está porém na falta de mão-de-obra, garantem os gestores de um grupo que emprega diretamente 350 pessoas. "Tirando Setúbal, o grosso da Bacalhôa está espalhado pelo interior e não há ninguém para trabalhar; os programas de fixação de população não fixaram ninguém." A robotização pode ajudar a resolver parte da equação, mas é preciso atrair pessoas que fiquem, em vez de virem fazer uma campanha e saírem, sem aprendizagem ou mais-valia. "E há que dar melhores rendimentos aos jovens - não podemos andar sempre a discutir o salário mínimo, temos de puxar pelo que garante a sofisticação. No grupo não temos ninguém no SMN, complementamos a remuneração com seguro, carro, casa, o que for."

Também para o setor em geral apontam desafios. Que passam pela necessidade de ganhar escala e ter empresas fortes, com dimensão e capacidade. "Nós temos uma pessoa nos EUA e Canadá, mas gostávamos de ter 30 a acompanhar a operação, porque exportar e internacionalizar são conceitos muito diferentes. Precisamos de ter em Portugal empresas maiores, mais modernas, eventualmente até cotadas em bolsa. A chilena Concha y Toro tem 150 pessoas no marketing em Manchester e uma dimensão que lhe permitiu estar nas camisolas do Man United e levar o clube a fazer a pre-season na China quando ali lançou o seu vinho."

Ao lado das grandes, acreditam que há lugar e interesse para os pequenos produtores "que fazem o vinho romântico, mais pessoal. Só com todos esses elementos profissionalizados se consegue vencer."

Nesse caminho de futuro, Renato e Eduardo consideram fundamentais as fusões - difíceis de acontecer num setor marcadamente tradicional e familiar: "Ninguém quer perder ou partilhar o legado; a dinâmica da economia familiar é muito difícil de penetrar." Os projetos em curso com as grandes associações do setor, Acibev, IVV, Viniportugal, têm por isso de ter essa ambição que permita aproveitar todo o potencial. "Precisamos de todos para puxar Portugal para a frente. E isso também passa por termos cada vez mais e maiores grupos."

No que respeita à Bacalhôa, que fez a última grande aquisição em 2007 (Aliança), a vontade permanece. "Queremos fazer parte de um grupo ainda maior."

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