A última vaca do meu avô chamava-se Estrela. Era uma holstein-frísia, de cornos modestos, e tinha um sinal na testa - uma estrela.
Levámo-la daqui gorda, certa manhã, em direcção aos pastos das Veredas. Atravessámos o portão e um vizinho (não me lembro qual) brincou:
- Ó ti Guilherme, não quer quinze contos por essa bezerra?
- Quinze contos?! - indignou-se o meu avô. - Vem-me com oitenta, a ver se eu ta vendo...
Era um homem fácil de provocar. Mas o facto é que aquela vaca tinha dado trabalho. Estava gorda e bonita, embora não tão bonita como a Bem Feita.
A Bem Feita foi a grande vaca da nossa infância. Andou aí anos. Deu criação. Tinha o pêlo vermelho, fruto de algum cruzamento que não cheguei a averiguar, e pastava em silêncio.
Eu erguia-lhe o braço e ela obedecia. Parecia em paz quando nos via subir os pastos, a mim e ao meu avô, e ao chegar a hora dela apoderou-se de nós - do meu avô também, que eu sei - a mesma sensação de perda que nos deixa um animal de estimação.
Mas nenhuma outra das bezerras que passaram aqui por casa me causou tão forte impressão como a Estrela, aquele bicho indolente que se limitou a engordar até cumprir o seu destino de gado de corte. Foi a última, e havia um tom na voz do meu avô quando, na véspera, me mandou chamar:
- Amanhã tens tempo para me ajudar a levar a Estrela às Veredas?
Saímos de manhãzinha, cada um com o seu bordão. Percorremos a Fonte Faneca, a Matela e a Mata do Estado. Quando começamos a descer, abriu-se à nossa direita um portão de quinta, sumptuoso. O meu avô empurrou-o, deixou a bezerra entrar e disse:
- Adeus, Estrela.
Voltámos pelo mesmo caminho, cheirando as criptomérias e os eucaliptos - cada um com o seu bordão, em silêncio.
Parei em frente àquela quinta, um dia destes. Foi ali que acabou a minha infância.