Tinha terminado uma palestra numa importante empresa de tecnologia quando um engenheiro me abordou. "Apreciei as suas ideias sobre "branding pessoal" e percebo como funcionam", disse-me. "Porém, a maioria delas não são para mim, que sou um introvertido. Há alguma coisa que eu possa fazer?" O que ele não percebera é que eu (tal como entre um terço e metade da população), também sou introvertida.
Apesar do erro comum de perceção que nos leva a julgar que todos os introvertidos são tímidos, e vice-versa, trata-se de dois fenómenos muito diferentes. Susan Cain, escritora e especialista em introversão, define timidez como "o medo de um julgamento negativo", ao passo que a introversão é "uma preferência por ambientes sossegados, com um mínimo de estímulos". Eu gosto, realmente, de dar palestras a grandes grupos (nesse dia, eram 180 pessoas na sala e 325 a assistir online). Gosto de me misturar com as pessoas e de responder a perguntas depois. Mas, a certa altura, aprendi com a experiência que tenho de me afastar e ir para qualquer sítio sozinha.
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Os organizadores e assistentes convidam-nos frequentemente para jantar na véspera ou para tomar uma bebida depois da conferência. Racionalmente, é uma situação em que todos ganham: eles sentem que recebem mais valor porque interagem pessoalmente connosco e nós podemos fazer contactos de negócios interessantes e obter algumas informações acerca da assistência que nos permitirão personalizar a palestra. Por estas razões, normalmente aceito, mas tive de aprender os meus limites: se a viagem foi longa ou tive uma agenda frenética nesse dia, ou se as minhas capacidades sociais estiverem em baixo por falta de sono, é muito melhor recusar. Tal como um carro requer mudanças de óleo periódicas, eu preciso de recarregar baterias sozinha e em sossego.
É verdade que muitas das melhores maneiras de estabelecer uma marca no mundo profissional ainda beneficiam os extrovertidos: assumir posições de liderança em associações profissionais, dar início ao seu próprio grupo de conferências ou networking, ou mesmo falar em público (atividades que, todas elas, exigem normalmente amplos contactos sociais).
Ao longo do tempo aprendi quando dizer basta e a retirar-me graciosamente de cena. Mas, para muitos introvertidos, isso é um equilíbrio difícil. Uma executiva de uma grande empresa de consultoria perguntou-me uma vez como poderia ela ser verdadeiramente autêntica nas suas relações com os outros, dado que se sentia muito desconfortável a estabelecer contactos; preocupava-a ter de usar uma fachada sorridente, híper-social. Acredito, no entanto, que é possível ser verdadeiro na construção de ligações e no desenvolvimento da nossa marca pessoal, continuando a respeitar as nossas tendências naturais.
Em primeiro lugar, as redes sociais podem ser uma área em que os introvertidos, que se dão bem em situações de contemplação silenciosa, têm uma vantagem. Com um blogue, uma das melhores técnicas para demonstrar liderança de pensamento, pode levar o tempo que quiser, formular os seus pensamentos e envolver-se em diálogos verdadeiros com os outros. Na verdade, enquanto os extrovertidos, desesperados pelo seu próximo encontro, estão nas festas a trocar cartões-de-visita, você pode construir uma marca global pela força das suas ideias.
Em seguida, com um pouco de estratégia e esforço, pode conectar-se com uma pessoa de cada vez. Tenho uma amiga que trabalhou num grande hospital de investigação; era uma instituição imensa, com incontáveis divisões e iniciativas. Ela assumiu um compromisso simples: todas as semanas convidava uma pessoa de um departamento diferente para almoçar. Muitas vezes conhecera-os nas reuniões da empresa ou em projetos de trabalho; se a sugestão para almoçarem juntos não surgisse naturalmente, ela falava-lhes do seu projeto e eles ficavam quase sempre suficientemente intrigados para participarem.
Em poucos meses, construiu uma robusta rede de contactos dentro da organização - à sua maneira tranquila. A própria Susan Cain disse à HBR que devíamos "arranjar maneiras de as pessoas poderem, de certa forma, escolher os seus ambientes, sentindo-se assim no seu melhor". A "iniciativa do almoço" da minha amiga exemplifica a pesquisa de Ronald Burt, da Universidade de Chicago, que incentiva os trabalhadores a "criarem pontes sobre as lacunas estruturais" nas suas organizações. Por outras palavras, pode tornar-se profissionalmente indispensável se desenvolver conexões que lhe permitam quebrar barreiras e identificar e ultrapassar lacunas de conhecimento.
Os introvertidos também podem usar pistas subtis para estabelecer a sua marca pessoal. Como me disse o conhecido psicólogo Robert Cialdini durante uma entrevista para o meu livro "Reinventing You", o simples facto de colocar diplomas ou distinções nas paredes do seu gabinete pode ajudar a reforçar a sua perícia junto dos outros. Cialdini assistiu a este efeito poderoso num hospital do Arizona onde fez consultoria; o cumprimento dos exercícios aumentou 32% logo depois de a equipa de fisioterapia ter começado a expor as credenciais do pessoal.
Finalmente, use estrategicamente o seu tempo livre. É provável que precise de mais "tempo para pensar", como o introvertido e anterior CEO da Campbell Soup Company, Doug Conant, aconselhou num post na HBR. Assim, enquanto os extrovertidos estão a confraternizar com colegas depois do trabalho, pode preferir ser produtivo enquanto recarrega as baterias lendo jornais do setor ou pensando criativamente acerca da sua empresa e da sua carreira. (Os introvertidos, em geral, pensam melhor sozinhos, como sugere a professora da Harvard Business School, Francesca Gino, que no meio da confusão de uma sessão de brainstorming no escritório).
Na imaginação popular, o "branding pessoal" é muitas vezes equivalente a pessoas com talento para o espetáculo, com muitas octanas e muitos apertos de mão. Mas existem outras maneiras, por vezes melhores, para se definir a si e à sua reputação. Tirar tempo para refletir e ser cuidadoso com a maneira como gostaria de ser visto e então concretizá-la através da sua escrita e das suas relações interpessoais (e mesmo do seu ambiente) é uma maneira poderosa de assegurar que seja visto como o líder que é.
Dorie Clark é consultora de estratégia e responsável pelos discursos de empresas como a Google, a Universidade de Yale, a Microsoft e o World Bank. É a autora do livro Reinventing You: Define Your Brand, Imagine Your Future.