Há procura que chegue para transporte público no Ramal da Alfândega do Porto

Ligação entre o centro histórico e a estação de Campanhã pode atrair até 8,9 mil pessoas por dia se incluir estação nas Fontaínhas. Rui Moreira defende uso misto para percurso de 3,3 quilómetros.
Publicado a

Desativado desde 1989, o Ramal da Alfândega é um percurso de 3,3 quilómetros que liga o centro histórico do Porto à estação de comboios de Campanhã. Durante mais de 30 anos, esta infraestrutura esteve sem qualquer aproveitamento. Mas tudo mudou em 2020: em agosto, a câmara do Porto chegou a acordo com a Infraestruturas de Portugal para ficar com esta propriedade - sem custos acrescidos -, e avançar desde logo para a construção de uma ecopista, a título provisório.

Mas o município liderado por Rui Moreira procura uma solução definitiva e pediu um estudo à Faculdade de Engenharia da universidade local (FEUP) com dois cenários em cima da mesa.

No cenário um, a transformação deste percurso numa ciclovia, com a respetiva construção de acessos e eventual aproveitamento de dois locais para miradouros num espaço de 600 metros, além de uma possível ligação à desativada ponte ferroviária Dona Maria Pia, que se quer transformar numa ecopista.

No cenário dois, uma solução de transporte público pendular elétrica com ou sem carris, integrada no sistema de bilhética Andante, e com partidas de oito em oito minutos. Em apenas cinco minutos, será possível ligar o futuro terminal intermodal de Campanhã ao centro histórico do Porto, reduzindo o número de carros que entram neste local e permitindo a transformação de parte do parque de estacionamento da Alfândega numa alameda com mais espaço para os cidadãos.

Entretanto, a câmara do Porto já fez a desmatação, que "revelou algumas novidades indesejadas", segundo o vereador do Urbanismo. "Há vários locais que apresentam perigo de derrocada e que impõem um projeto específico de consolidação das escarpas e estabilização da plataforma", referiu Pedro Baganha. Estes trabalhos terão de ser executados mesmo antes de ser escolhida uma das opções.

O estudo da FEUP foi apresentado na quarta-feira na biblioteca Almeida Garrett e os resultados surpreenderam os próprios autores: o transporte público neste ramal pode atrair entre 7367 e 8817 utentes por dia, conforme os cenários. Ou seja, a procura pode ultrapassar os 3,2 milhões de passageiros por ano.

A procura é mais baixa no caso de uma ligação direta entre a Alfândega e Campanhã, sem estações intermédias e sem transbordos para outros meios de transporte.

A procura é 20% mais elevada se entre o centro histórico e Campanhã existir uma estação nas Fontaínhas - acessível através de meios mecânicos.

"Os valores de procura são muito significativos e encontram-se acima das expetativas. Justificam a introdução de um serviço de transporte público entre a Alfândega e Campanhã", reconheceu o professor Paulo Pinho, responsável pelo estudo. Ao Dinheiro Vivo, o especialista da FEUP assinalou que estes dados não incluem os movimentos de turistas mas "poderão irão acrescentar procura".

Os números devem-se a dois fatores: a zona da Alfândega é um local com concentração de emprego, o que gera tráfego e atrai população para o local; Campanhã é cada vez mais o grande centro de transportes do Porto, o que por si só permite captar passageiros.

Entre 1888 e 1989, o Ramal da Alfândega contou com uma ligação ferroviária de mercadorias e foi crucial para o crescimento do porto da cidade, então localizado na Ribeira. Os tempos mudaram e Leixões transformou-se no ponto de chegada das mercadorias da cidade. O futuro desta infraestrutura tem provocado várias divisões.

"O próprio executivo estava dividido - isto mostra que há pessoas a pensar de forma diferente", assumiu o presidente Rui Moreira durante esta sessão. O autarca entende que é possível conjugar o transporte público - através de uma solução de metrobus - com a ciclovia: "Não faria sentido um veículo a andar de segunda a sexta e depois encostarmos os veículos ao fim de semana para um parque urbano?", questionou

Mário Ferreira é defensor da ciclovia. "Sem isso, podemos perder a oportunidade de explorar os miradouros e há casas que podem ser reabilitadas", referiu o empresário durante o debate. Com 200 pessoas a cargo na zona da Alfândega, o líder da Douro Azul acrescentou que, através da ecopista, será possível "ir da Alfândega para a nova escarpa de Gaia".

O argumento de Mário Ferreira tem a oposição do movimento GARRA, que desde 2005 defende a reabilitação deste ramal. "O transporte público é a melhor solução. Com algum investimento na requalificação da marginal, poderemos ter na mesma a zona de usufruição de vistas, passar pela ponte Dona Maria e completar isto com um circuito sem perder a oportunidade da ciclovia", assinalou Pedro Pardinhas. Este movimento defende a colocação de transporte público mesmo ao fim de semana, sobretudo por causa dos turistas.

Depois da apresentação de quarta-feira, haverá novos debates para discutir o futuro do Ramal da Alfândega. A existência de um túnel de 1300 metros dificulta a opção pela ciclovia. Contudo, a largura de quatro metros ao longo do ramal impede que o transporte público funcione ao mesmo do que a ciclovia.

A opção por autocarros elétricos, com 30 lugares cada um, pode ser a solução mais prática para o arranque do transporte pública no ramal, sugeriu em dezembro o especialista em transportes José Manuel Viegas num debate organizado pelo movimento GARRA.

A câmara do Porto também vai ouvir os munícipes, tendo criado um micro-site dedicado ao Ramal da Alfândega.

Diário de Notícias
www.dn.pt