A subida da inflação está a levar as famílias portuguesas a adotarem "novas e diferentes estratégias" para fazer face ao aumento dos preços. Um estudo divulgado esta quarta-feira pela Kantar e pela Centromarca - Associação Portuguesa de Empresas de Produtos de Marca mostra que 60% dos portugueses faz uma lista de compras antes de sair de casa, valor quatro pontos percentuais acima do período homólogo. Uma forma de "controlar os gastos e diminuir as compras por impulso".
O mercado dos bens de grande consumo enfrenta um consumidor "cada vez mais cauteloso e seletivo", pelo que o estudo 'Uma viagem pelo retalho' procura identificar os "três momentos cruciais que se revelam decisivos para o sucesso das insígnias num contexto de crise económica": o antes, o durante e o depois da ida às compras.
No antes, destaque para o número crescente de consumidores que vão às compras já preparados para o que o querem trazer e para o facto de quase 7 em cada 10 portugueses (69% mais especificamente) indicar que prefere fazer as suas compras para o lar em lojas de proximidade, seja de casa ou do local de trabalho.
Mas é durante a visita à loja que ocorre, de facto, a tomada de decisão sobre o que levar e a análise da Kantar mostra, sem surpresa, que as famílias estão a fazer mais visitas às lojas e a trazer menos compras de cada vez, pelo que os hipermercados e as lojas de maior dimensão são os mais penalizados, já que são preferencialmente usados para grandes volumes de compra.
Globalmente, os dados mostram que os portugueses a ida às compras aumentou 6% em Portugal, mas o volume dos artigos comprados caiu 7%. Se analisado por tipo de loja, o aumento das idas aos hipers e supermercados é de apenas 2%, com uma quebra de 9% no volume de artigos, enquanto que os espaços de proximidade registam um crescimento de 16% no números de visitas de cada família e uma quebra de apenas 3% na quantidade de artigos comprados.
Assim, em média, os consumidores distribuem as suas compas por cinco cadeias retalhistas distintas, uma a mais do que em 2019, antes da pandemia, numa tentativa de encontrar os melhores preços e promoções em cada um deles. Metade das vezes em que entra num supermercado, o cliente traz só produtos de necessidade imediata, ou seja, até 3 categorias de produtos. E gasta em média 9,40 euros nessa compra.
As cestas de grande volume, para abastecer a despesa, com a aquisição de 15 ou mais categorias, representa apenas 7% das ocasiões de compra, com um gasto médio de 81,86 euros. Já as compras de proximidade representam 31% das ocasiões de compra, com quatro a oito categorias de produtos na cesta, e um talão médio de 20,13 euros.
Significativo é o facto dos consumidores fiéis à mesma loja de sempre ter baixado 7 pontos percentuais em relação a 2019.
"O consumidor, empurrado pelas dificuldades financeiras que enfrenta, voltou a repartir as suas compras por um número mais elevado de lojas e de insígnias, sempre em busca das melhores oportunidades que permitam manter um perfil de consumo tão próximo quanto possível do habitual, mas limitado pelo impacto da inflação na sua carteira", refere, citada no comunicado, indica Marta Santos, Clients and Analytics Director da Kantar em Portugal.
Com a perda de poder de compra, as famílias procuram crescentemente artigos mais em conta, e, por isso, o consumo de marcas de distribuição tem estado a disparar. E o estudo da Kantar mostra que "56% dos portugueses considera que as marcas de distribuição uma qualidade similar à dos produtos das marcas de fabricante". Os produtos de marca das insígnias de hipermercados contribuíram com mais de 50% para o crescimento das compras das chamadas 'marcas brancas' desde 2019.
"A quebra do rendimento disponível das famílias está a gerar um triplo efeito negativo sobre o mercado: uma quebras das quantidades compradas, uma degradação de valor e qualidade dos produtos comprados e uma transferência muito acentuada da compra dos produtos de marca de fabricante para os das marcas próprias dos distribuidores e todos estes fenómenos estão em forte aceleração", refere, por seu turno, o Diretor Geral da Centromarca. Pedro Pimentel alerta que é "necessário ler com atenção os dados de mercado, quando os valores de vendas são fortemente impulsionados pela inflação, que gera, nos observadores mais desatentos, uma falsa sensação de crescimento".