Kaique e Neymar

Ao perceber que o seu nível é superior ao dos demais compatriotas, emigram. O destino? Onde lhes pagarem mais.
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São na sua maioria jovens brasileiros de classes socio-económicas desfavorecidas – na casa dos 20 anos, às vezes teenagers.

Conquistam medalhas e honrarias, logo cedo. Na maior parte das vezes, ao perceber que o seu nível é superior ao dos demais compatriotas, emigram. O destino? Onde lhes pagarem mais. E às vezes, porque os adeptos lotam arenas e estádios para os ver, pagam-lhes tanto que ficam milionários do dia para a noite.

Há quem estrague o físico, o seu ganha pão, em noitadas mal dormidas ao mesmo tempo que perde os pecúlios acumulados com suor. As tentações, as fãs, os autógrafos, as entrevistas, as fotos e os patrocínios nalguns casos cegam.

Noutros casos são apenas o combustível para ganhar cada vez mais e mais títulos, mais e mais dinheiro.

Até voltarem ao Brasil para terminarem a carreira.

Os parágrafos de cima encaixariam, claro, em Romário, Adriano Imperador, Ronaldo Fenómeno, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Robinho, Neymar, Gabriel Jesus e tantos outros jogadores de futebol brasileiros que partiram, partem e partirão, quase sempre para a Europa, à conquista dos seus sonhos profissionais e dos seus sonhos de consumo.

A maioria dos emigrantes a que se refere o texto, no entanto, emigram para Nashville, Oklahoma City, Austin, El Paso, San Antonio, Salt Lake City, Tucson, Little Rock, Vancouver, Las Vegas, Sacramento, Denver, Reno, Santa Fe, Kansas City e outras cidades da América do Norte.

São peões de rodeio – cowboys, na terminologia americana e global – que como Neymar e companhia se destacaram no Brasil ao ponto de atrair a meca da especialidade, no caso não a Champions League, a Premier League ou a Liga Espanhola mas os campeonatos de rodeos americanos.

No ranking dos 50 melhores cowboys dos EUA estão sete brasileiros, entre eles o vice-campeão Kaique Pacheco, de 22 anos, menos dois do que Neymar. Kaique disse ao jornal Folha de S. Paulo que desde criança sonhava com os palcos que agora pisa, que ganha salários astronómicos e que o Brasil, por ora, só para férias e investimento – podia ser uma entrevista do craque do Barcelona.

A indústria dos rodeios, além de estar, como a do futebol, há anos a criar excêntricos, ainda mexe com a economia do Brasil: estima-se que 30 milhões de brasileiros, a maioria do interior do São Paulo, do Goiás, do Paraná, do Mato Grosso, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e de parte de Minas Gerais, sejam aficionados.

Segundo a Confederação Nacional do Rodeio as 1800 provas realizadas por ano geram três mil milhões de dólares e 300 mil empregos diretos e indiretos.

De acordo com o relatório final do Plano de Modernização do Futebol Brasileiro da Fundação Getúlio Vargas, na década passada o futebol envolvia o mesmo número de postos de trabalho mas movimentava menos dinheiro: 2,5 mil milhões de dólares.

No entanto, no autoproclamado país do futebol só os aficionados conhecem Kaique, enquanto Neymar é um Deus.

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