Os investidores olham para o calendário com ansiedade ou calma?
Temos mudado a nossa base de acionistas e de investidores no sentido de serem investidores que cada vez mais compreendem aquilo que estamos a fazer e que veem o valor do que estamos a fazer. A base acionista, neste último ano, tornou-se bastante mais portuguesa e, portanto, com isso temos mais endosso de Portugal e temos mais valor acrescentado que ficará nas mãos portugueses, também pela base acionista. Acrescentámos à base acionista um acionista estratégico, um player holandês, a AMG Critical Materials, com um bloco adicional de ações [e que assegurou 25% do lítio extraído na mina do Barroso], e um conjunto de elementos de parceria estratégica que são importantes para a fileira. E a cotação da ação recuperou bastante ao longo deste ano. A poucos dias do fecho do ano, acabaremos com uma das melhores performances no setor do lítio, a nível mundial. O setor andou um bocadinho de lado este ano, nós conseguimos evoluir bastante, foi das melhores performances em termos de crescimento do valor de ação.
Qual será a perspetiva?
Na segunda-feira [a entrevista realizou-se na manhã de terça-feira, 17 de dezembro], estávamos ligeiramente acima de 100% de valorização da ação ao longo deste ano, 105% salvo-erro.
Já referiu que haverá royalties para o munícipio. Que contrapartidas estão previstas para Boticas?
Este é um projeto de concessão mineira e as concessões têm um conjunto de regras que lhe estão associadas. Há um enquadramento legal específico, e associado a esse enquadramento legal e ao contrato de concessão mineira está um valor de royalties definido, e a nossa expectativa é que esse valor acabe por ser dividido entre o Estado central e o município. Fizemos uma conta relativa a royalties e outros efeitos para o município há uns meses e, por agora, mantemos o valor. É um valor que vai flutuar ao longo do tempo, de ano para ano, e estamos a estimá-lo em cerca de dez milhões de euros de média anual. É uma duplicação de orçamento [municipal] e é uma multiplicação por muitos da capacidade de investimento que o município tem para criar melhor infraestrutura, mais prosperidade e melhor qualidade de vida para a sua população.
É um valor considerável.
Muito considerável, e que pode ser utilizado de formas muito adequadas e benéficas para a população. Depois temos outros elementos, como a criação de mais emprego e mais a fixação de nova população e a revitalização e requalificação de algum de património habitacional. Estamos neste momento a fazer duas obras de requalificação de pequenas casas em Covas do Barroso, para que parte da nossa equipa também lá possa morar. Isso é só o início desse esforço. E, depois, temos a certeza que ao longo do tempo vamos contribuir, direta ou indiretamente, para todos os elementos adicionais. Vale a pena ver a realidade de Castro Verde [distrito de Beja]. Boticas está, infelizmente, nos municípios com pior performance em desenvolvimento económico e humano do país, já Castro Verde está dentro dos melhores. Ambos os municípios têm uma área e uma população que não são assim tão diferentes, e um contexto de interioridade que é similar. Só que Castro Verde tem há algumas décadas a mina da Somincor a trabalhar.
E a partir de 2027 Boticas terá a mina da Savannah. Quanto a infraestruturas, há algum tipo de obra que a Savannah, em concreto, irá assumir sob forma de contrapartida?
Não é bem uma contrapartida, mas está associado ao nosso projeto de mobilidade para um grande conjunto de camiões [irão transportar o lítio produzido] e, associada a essa mobilidade, incluímos no projeto uma estrada que faz o acesso direto da área de exploração à autoestrada A24. Na verdade, é um conjunto de estradas que se fazem em sequência. Vai permitir aos camiões circular sem passarem pelas aldeias, o que melhora as condições de segurança na área envolvente e tem o efeito colateral de parte dessas estradas ser para uso de todos, aumentando a velocidade de acesso à autoestrada, e cidades como Chaves e Vila Real.
Quantos quilómetros de estrada serão assegurados pela Savannah?
Entre 30 a 40 quilómetros de estrada nova.
A Declaração de Impacte Ambiental (DIA) da Agência Portuguesa do Ambiente para este projeto foi condicionada a cerca de 180 medidas. Há outras medidas importantes, além dos exemplos já mencionados?
Há duas formas de se obter a DIA. A primeira forma é pedir a DIA condicionada aquando da fase de engenharia, é a base, e, depois, há que confirmar a DIA no momento em que se executa a engenharia de detalhe. Outra forma é ir direto até à engenharia de detalhe e pedir a via final logo no momento. O nosso projeto encaixava melhor no primeiro caminho legal. A DIA foi obtida em maio do ano passado e estamos, evidentemente, a ter o cuidado de cumprir com os elementos que estão associados: há um conjunto de regras a cumprir para que as obras de construção se façam em segurança; um conjunto de regras a cumprir para assegurar que o lobo ibérico e o mexilhão de rio e outros elementos de natureza na região não são afetados; um conjunto de regras associado ao projeto para não usar água dos rios locais e efluentes.
A partir do momento em que tudo estiver em operação quais serão os principais mercados a servir?
O mais próximo possível, porque será o melhor para todos.
A pegada carbónica será menor?
Os esforços serão menores, a eficiência da cadeia logística será melhor, e estaremos mais próximos de servir a Europa e Portugal. Projetos destes têm uma base de clientes que vai evoluindo. Este tipo de projetos são catalisadores de outros investimentos, mas que podem vir ligeiramente mais tarde. Portanto, primeiro ponho as bases da casa, que é para depois construir o resto. Isto quer dizer que, numa fase inicial, até poderemos levar o produto um bocadinho mais longe para depois, à medida que o projeto vai evoluindo e a cadeia de valor se vai montando e ficando mais próxima, ter cada vez mais clientes em proximidade. Isso é um objetivo nosso e, creio, que também de Portugal. Portugal, ao contrário do que por vezes se refere, tem uma fileira automóvel que é considerável. Portugal e Espanha, nos últimos anos, produziram um em cada cinco carros da Europa. Naqueles 14 milhões de empregos que referi, e na produção que lhes está associada, há muitas centenas de milhares de empregos na Península Ibérica. Milhões associados a esta fileira. Nós achamos que há potencial para mais.