

Mais de um quarto dos trabalhadores imigrantes em Portugal tem o ensino superior, sendo que o maior contributo para este grupo vem dos brasileiros, que formam atualmente, e de longe, a maior comunidade de origem estrangeira radicada em território nacional.
Segundo um estudo do Banco de Portugal (BdP), publicado esta segunda-feira (antecipação do boletim económico de junho, a publicar na íntegra na sexta), no qual se analisam os censos de 2021 do INE, nessa altura, ainda ano grave de pandemia e de fortes restrições à mobilidade das pessoas no mundo, havia cerca 264,3 mil trabalhadores estrangeiros em Portugal, dos quais 26,3% com formação superior.
Nessa altura, o INE contabilizou quase 108 mil brasileiros empregados em Portugal, sendo neste grupo o ensino superior também superava os 25% do total.
Por serem a maior comunidade, os brasileiros diplomados já representavam 40% do total de estrangeiros com formação escolar superior no País.
Entretanto, como explica o BdP, a dimensão da imigração trabalhadora em Portugal aumentou de forma muito significativa com o fim da pandemia.
No caso do Brasil, a vinda para Portugal também coincidiu com os anos do governo de Jair Bolsonaro.
Os dados mais recentes, do ano passado (declarações à Segurança Social), reforçam a importância do Brasil como origem da força de trabalho.
"Os trabalhadores por conta de outrem com nacionalidade brasileira destacam-se, com 209,4 mil indivíduos registados na Segurança Social, em média, em 2023, o que equivale a 42,3% dos trabalhadores com nacionalidade estrangeira registados na base de dados nesse ano", refere a análise do BdP.
"Refira-se que, em 2022 e 2023, o número de trabalhadores por conta de outrem com nacionalidade brasileira registou taxas de crescimento de 58,5% e 43%, respetivamente", observa-se no artigo.
As seguintes quatro nacionalidades com maior número de trabalhadores dependentes registados “são indiana (41 mil), nepalesa (26,9 mil), cabo-verdiana (22,7 mil) e bengali (18,8 mil). No seu conjunto, estas quatro nacionalidades representam 22,1% do total de trabalhadores por conta de outrem com nacionalidade estrangeira em 2023", segundo o estudo do banco central.
“O número de trabalhadores por conta de outrem com nacionalidade indiana cresceu 28,1% e 42,4% em 2022 e 2023, enquanto os de nacionalidade nepalesa cresceram 39,9% e 45,6%, respetivamente. Por seu turno, os trabalhadores europeus representam 12,6% dos trabalhadores estrangeiros e registaram um aumento mais moderado nos últimos anos.”
Trabalho dos imigrantes é mais barato
De volta aos censos de 2021, o BdP reporta que o ensino secundário dominava as qualificações escolares do total dos imigrantes trabalhadores (40,5% do total em 2021). O ensino básico valia 33%.
Em 2021, “a população estrangeira empregada era em média mais qualificada do que a população portuguesa embora a diferença se tenha atenuado na última década", acrescenta o BdP.
"No caso da população de nacionalidade portuguesa, o peso dos empregados (20 a 64 anos) com ensino secundário ou superior aumentou de 44,7% em 2011 para 60,5% em 2021. O peso destas qualificações também aumentou na população estrangeira, passando de 53,1% em 2011 para 67,1% em 2021."
O BdP também analisou os salários praticados, concluindo que os portugueses ganham, em média, bastante mais do que os imigrantes.
"A distribuição das remunerações brutas regulares dos trabalhadores por conta de outrem com nacionalidade estrangeira apresentou uma mediana e uma dispersão inferiores à distribuição para os trabalhadores por conta de outrem com nacionalidade portuguesa em 2023, quer nos mais jovens, quer nos com mais de 35 anos de idade".
"A mediana das remunerações mensais dos trabalhadores estrangeiros em 2023 foi muito próxima do salário mínimo nacional (760 euros), situando-se em 769 euros nos trabalhadores jovens e em 781 euros nos trabalhadores com mais de 35 anos. Para os trabalhadores nacionais, as remunerações medianas foram de 902 e 945 euros, respetivamente."
Ou seja, os imigrantes jovens ganham menos 15% que os homólogos portugueses. Quem é estrangeiro e tem mais de 35 anos ganha menos 17%.
Em 2023, "os trabalhadores estrangeiros por conta de outrem encontravam-se maioritariamente em empresas dos setores das atividades administrativas, alojamento e restauração, e construção (95,7 mil, 93,3 mil e 69,2 mil, respetivamente)".
Ainda recorrendo aos dados de 2023, o BdP conclui que "no setor da agricultura e pesca, quatro em cada dez trabalhadores por conta de outrem tinha nacionalidade estrangeira, o que compara com um e dois em cada dez em 2014 e 2019, respetivamente".
"O peso do emprego estrangeiro no total é também muito importante nos setores do alojamento e restauração, atividades administrativas e construção, com percentagens de 31,1%, 28,1% e 23,2% em 2023, respetivamente", detalha o estudo.