Quando o então adolescente polaco Marcin Kleczynski "infetou" o computador dos pais enquanto navegava por jogos online, um tradicional programa antivírus não bastou para salvar a máquina e Kleczynski assumiu a tarefa de encontrar um "antídoto". Fórum após fórum, e com a ajuda de um livro de programação para "totós", lá conseguiu "desinfetar" o aparelho. Por necessidade criou um software capaz de detetar, neutralizar e eliminar um vírus informático. A proeza acabou por ser o primeiro passo que o levou a fundar a Malwarebytes, em 2008, juntamente com Bruce Harrison.
O episódio é relatado pelo português Fernando Francisco, vice-presidente sénior de operações internacionais da Malwarebytes, numa entrevista ao Dinheiro Vivo em que revela que a empresa acaba de abrir o primeiro escritório em Lisboa.
A Malwarebytes é uma empresa que desenvolve software específico para detetar e eliminar programas informáticos perniciosos (malware), tanto para particulares como para empresas, sobretudo pequenas e médias empresas. Com sede mundial em Silicon Valley, nos EUA, e escritórios em Tallinn (Estónio), Cork (Irlanda), Singapura e Sydney (Austrália), Portugal é a geografia que se segue. O escritório de Lisboa localiza-se no edifício de coworking IDEA Spaces de São Sebastião.
Fernando Francisco, que está há mais de 20 anos na indústria de cibersegurança - na Malwarebytes há mais de dez - e que tem sido um dos responsáveis pela expansão da empresa fora dos EUA, conta que a companhia já contratou três pessoas para o escritório de Lisboa. E há mais "20 vagas para preencher até ao final do ano". Para 2023, a previsão é contratar mais 100 pessoas. A equipa portuguesa irá juntar-se aos 800 trabalhadores da Malwarebytes.
O escritório de Lisboa, prossegue o gestor, será mais um "polo de desenvolvimento" da empresa na Europa. Se na Irlanda estão concentrados os departamentos de suporte de vendas e marketing, é na capital da Estónia que está o principal centro de competências europeu para a região EMEA (Europa, Médio Oriente e África) - também têm atividade em Bilbau (Espanha) e Perúgia (Itália) por via de aquisições de outras empresas recentemente.
"Precisamos de outro centro de competências técnicas e de entrar numa outra geografia onde possamos crescer, porque meter os ovos sempre no mesmo cesto não é a melhor estratégia", afirma.
Segundo o responsável, Lisboa "vai funcionar como uma extensão", ou seja, a "equipa portuguesa será complementar às equipas localizadas noutros países", ficando disponível para desenvolver projetos para qualquer mercado onde a Malwarebytes está presente. "Vai contribuir para o desenvolvimento do produto global", afiança.
A companhia de origem norte-americana escolheu Lisboa por causa do ecossistema empreendedor, pela "pool de talentos e universidades" e pela qualidade de vida. "Analisámos mais de dez cidades e Lisboa estava no topo de uma lista com Barcelona e Madrid [Espanha], Sófia [Bulgária], Bucareste [Roménia], Praga [República Checa] e Londres [Reino Unido]", revela o gestor. Embora assuma que há em Portugal uma "ótima" relação entre a massa salarial necessária e as capacidades técnicas procuradas, Fernando Francisco garante que o fator custo-benefício não foi o principal critério para escolher Lisboa. "Há cidades mais baratas na Europa para onde poderíamos ir. O que nos fez escolher Lisboa, em primeiro lugar, foi o facto de as capacidades técnicas que procuramos existirem cá", realça.
Além disso, lembrando o efeito da Web Summit no país, diz que Portugal tem hoje "condições, que antes não tinha, que dão uma base para empresas como a Malwarebytes" instalarem-se, e nota a particularidade de haver "voos diretos de São Francisco [para Lisboa]".
Para consolidar a presença da empresa em Portugal, Fernando Francisco conta que tem estado em diálogo com diferentes faculdades para eventuais parcerias. A Nova School of Science and Technology (FCT), o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL) e o Instituto Superior Técnico (IST) são os alvos que poderão ajudar a atrair talento.
A companhia que combate malware procura "programadores especializados em Android, iOS, Windows e site reliability engineer security, sobretudo", além de pessoas para uma equipa de suporte técnico, segundo o gestor, que afiança estar, de facto, a procurar talento no país.
Para já, procura perfis seniores, que podem "ajudar" a construir e liderar equipas. E com a noção de que há, neste momento, uma escassez de talento com capacidades técnicas, o vice-presidente sénior de operações internacionais da Malwarebytes revela que a empresa "paga acima do mercado". Valores? "Estamos a falar [de salários] entre 40 e 80 mil euros anuais, neste caso, para quadros com mais responsabilidades. No caso de alguém que esteja a entrar no mercado, entre 25 e 30 mil euros anuais", revela.
"Os valores dependem da posição", diz, embora admita que a disputa é muita. Mas o gestor garante que a empresa não está disposta a "entrar em loucuras" para não inflacionar o mercado. Além disso, assegura que um dos focos é encontrar pessoas que encaixem com a missão da empresa - "proteger pessoas de ataques informáticos" - e não que queiram entrar na companhia apenas por motivos salariais.
Apesar de procurarem recursos dentro de Portugal, uma vez que Fernando Francisco acredita que Lisboa "vai ser [no futuro] o centro de desenvolvimento da Malwarebytes", e não só mais um escritório, o responsável admite ir também contratar fora, pois o país também "abre um pouco as portas" noutros países como Brasil ou nos PALOP, "desde que tenham capacidades técnicas".
A aposta da Malwarebytes em Portugal ocorre um mês depois de ter captado um investimento de 100 milhões de dólares [cerca de 103 milhões de euros] para acelerar o negócio. O investimento foi concretizado pelo fundo Vector Capital, que ficou com uma posição minoritária da empresa e passou a contar com dois gestores no conselho de administração.
De acordo com o comunicado pela empresa, em setembro, a verba está a ser usada para "acelerar o crescimento de negócios de segurança cibernética" nos segmentos empresariais e de consumo, com a empresa a procurar "inovar" no portefólio existent e a "desenvolver" parceriais.