Mediação cria portais para fugir ao domínio do Idealista e Imovirtual 

Atuação do Idealista é alvo de fortes críticas do setor, pela subida exponencial de preços e entrada em áreas de negócio de clientes. Portal diz que não tem monopólio do mercado.
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A relação entre as mediadoras e os portais de anúncios imobiliários parecia um casamento quase perfeito, mas o domínio do mercado destes agregadores de imóveis começou a causar mau estar no setor. A liderança destas plataformas é clara. Segundo o ranking do SimilarWeb, o Idealista é o portal preferido dos utilizadores e o mais visitado em Portugal, seguindo-se o Imovirtual e só na terceira posição é que aparece um site de uma mediadora, a Re/Max. Como aponta Marco Tairum, CEO da Keller Williams Portugal, mais de 95% dos consumidores inicia o seu processo de compra online, sendo que dentro das plataformas disponíveis - sites das mediadoras imobiliárias, portais imobiliários, etc. - os portais têm atualmente um peso no número de visitas mensais superior a 80%". Esta posição dominante conduziu a um aumento exponencial de preços e até à criação de serviços que concorrem diretamente com as mediadoras, colocando em cheque a relação cliente-fornecedor, diz o gestor.

Segundo Marco Tairum, verificou-se um "aumento vertiginoso de preços", principalmente por parte do portal líder de mercado. Nos últimos dois anos, a cada renovação de contrato, são aplicados aumentos "muitas vezes superiores a 100-150%, sem a devida correspondência de incremento no serviço prestado", diz. Em simultâneo, os portais começaram a disponibilizar aos clientes finais outros serviços, como é exemplo a oferta de intermediação de crédito do Idealista. Marco Tairum lembra que a capacidade destas entidades em avançar com estas iniciativas "é financiada pelo negócio core, alimentado pelos mediadores", e está a ser feita também em áreas onde atuam as mediadoras. "Esta fase expansionista no que toca a novos negócios transforma os portais não apenas em fornecedores, mas em verdadeiros concorrentes dos seus principais clientes", frisa.

As mediadoras começaram a sentir o seu negócio ameaçado e a resposta não se fez esperar. Este ano, as duas associações representativas da atividade lançaram os seus próprios portais. A Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP) criou o CasaYes com a ambição de se tornar uma "plataforma indispensável de consulta imobiliária" e uma alternativa aos atuais portais. Para Paulo Caiado, presidente da APEMIP, "não faz qualquer sentido para a mediação imobiliária fomentar modelos de negócio disfuncionais". Como recorda, uma mediadora investe tempo e dinheiro para aferir a fiabilidade das informações associadas aos imóveis, para averiguar os valores para a venda, na recolha de imagens para uma eficiente exposição no anúncio, entre outros aspetos. "É quase um absurdo entregar esta informação a uma plataforma e seguidamente pagar para que seja disponibilizada às pessoas em geral", salienta. "Em Portugal, a mediação não irá ficar refém deste tipo de plataformas", alerta o responsável.

Pela mesma altura, a Associação dos Mediadores do Imobiliário de Portugal (ASMIP) lançou o portal Habitar Portugal. Foi uma resposta à necessidade de credibilizar o setor, sendo que a publicação de anúncios está restrita a profissionais devidamente acreditados, adianta Francisco Bacelar, vice-presidente da ASMIP. Sobre o atual comportamento no mercado do portal Idealista, apontado como quase monopolista, Francisco Bacelar confessa que "no papel de consumidor profissional poderia ser exaustivo a elencar queixas, e a teorizar sobre a legitimidade das mesmas", mas enquanto representante da associação prefere apenas alertar as empresas. Na sua opinião, cada mediadora deve avaliar o custo-benefício dos seus investimentos em divulgação e a dependência dos portais a que fica exposta. "Como associação, cabe-nos contribuir com alternativas que defendam o coletivo", frisa.

Ruben Marques, porta-voz do Idealista, descreve o portal como um ponto de encontro entre pessoas que procuram casa para comprar ou arrendar e os proprietários ou profissionais imobiliários. Disponibiliza "uma sofisticada ferramenta digital e online", "informação valiosa sobre o mercado imobiliário, acesso ao crédito habitação, dados sobre o setor e outras ferramentas direcionadas a profissionais imobiliários", descreve. O responsável, que não forneceu dados sobre a política de preços, recusa qualquer posição monopolista. Como diz, "em Portugal, existem numerosas ferramentas, websites e canais de informação imobiliária, desde motores de busca generalistas até redes sociais com plataformas imobiliárias, softwares e sites com conteúdo valioso para os utilizadores". E lembra: "Fazendo uma simples pesquisa por habitação, é possível encontrar várias alternativas para os utilizadores que procuram casa, com maior ou menor eficiência".

Já o Imovirtual sublinha que a relação com os agentes imobiliários é a base do seu negócio. Nesse sentido, não tem planos para atuar em serviços como intermediação de crédito e mediação, assegura Sylvia Bozzo, diretora de Marketing do Imovirtual e OLX Imóveis. Na sua perspetiva, "os portais não vieram substituir as agências imobiliárias" e o Imovirtual é "um conector entre quem procura e quem vende casa". Com cinco milhões de visitas mensais e mais de uma década de operação no país, esta plataforma afirma só ter alterado os preços dos pacotes profissionais uma vez nos últimos oito anos.

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