Em 2009, Kelly Slater tinha um problema. Havia surfistas a mais no circuito. E receitas a menos. Faltavam novos patrocinadores. E exposição mediática. "É uma relação incestuosa", admitia nesse ano ao australiano Sun-Herald. "As mesmas pessoas que pagam o Tour são as que o controlam. E que não o deixam avançar para o século xxi."
Nas entrevistas que deu na primeira metade desse ano, Slater pressionou. Criticou o modelo, sugeriu outro, alimentou um Tour mais seletivo. Kelly tinha uma ideia - um circuito complementar - e um parceiro, o gigante americano de TV ESPN. Tinha até um conceito: menos provas, menos surfistas, prémios maiores. Tudo à margem das marcas convencionais - Quiksilver, Rip Curl, Billabong -, as mesmas que organizavam provas e controlavam tudo.
Durante meses, a indústria tremeu. Especulou sobre os efeitos da cisão, balançou com a ideia de ver fugir Slater - então nove vezes campeão do mundo (hoje 11), ex--namorado de Pamela Anderson e estrela de TV desde a década de 1990, com aparições esporádicas na série Marés Vivas.
Passaram mais alguns meses. Com a Associação de Surfistas Profissionais (ASP) a querer controlar os danos, o circuito ajustou-se. Em 2010, já teve menos surfistas, outro formato e mais lucros distribuídos. Kelly, que tinha patrocinado a Rebel Tour, recuou. Voltou, foi campeão em 2010 (10.o título) e até teve direito a um bónus chorudo da Quiksilver: dez milhões ou uma percentagem de 3% na companhia. Slater preferiu a segunda.
"Ainda têm dúvidas?"Do plano de 2009 ficou uma ideia: o Tour precisava de um novo modelo económico, com novos patrocinadores e outra exposição. E tudo isso ressurgiu quando, em 2011 e 2012, a indústria afundou, pressionada pela recessão na Europa e nos EUA. Em 2013, a Billabong - que também detém marcas como Element e Xcel - fechou o último semestre com prejuízos de 424 milhões de euros e está à procura de um investidor para salvar a empresa. Para o fundador, Gordon Merchant, é o fim de uma era: para salvar a empresa poderá ter de assumir perdas de 750 milhões de euros, dizem os analistas.
"Se alguém tinha dúvidas de que precisávamos de alterar radicalmente a forma como orientamos este negócio, estes números destroem qualquer ilusão", garantia a CEO da Billabong, Launa Inman, na última conversa com o mercado. E o problema é geral: em maior ou menor grau, as marcas que estavam no negócio clássico de vender roupa estão pressionadas - até pela subida do preço do algodão - com a quebra de vendas nos mercados tradicionais. Só na Europa, os lucros de 16 milhões da Billabong passaram a um prejuízo de 799 mil euros.
Tudo isto teve um efeito no Tour, em que as três marcas principais - Quiksilver, Rip Curl e Billabong - patrocinam até três provas cada, a um custo unitário de dois milhões. Em 2012, a Billabong deixou de apoiar a etapa da África do Sul e a Quiksilver cancelou a de Nova Iorque. No meio da crise, Portugal foi uma exceção curiosa. Já depois de ter assegurado uma prova no calendário - Peniche - a Rip Curl conseguiu que marcas como a Moche (da Portugal Telecom) se juntassem à organização. Em 2012, o ano em que muitos perderam escala, Peniche gerou um efeito económico de 7,9 milhões.
"Só pai, para pagar bilhete"Apesar da exposição comercial - em 2017, a indústria valerá 13,4 mil milhões de euros, segundo as estimativas feitas em 2011 pela Global Industry Analysts - o surf é um pesadelo televisivo. Sem horas nem dias certos, os espectadores dependem das decisões dos diretores de prova. O próprio formato - baterias de 20 minutos em que dois ou três concorrentes pontuam as duas melhores ondas - obriga a que as televisões esperem várias horas para ver os cabeças de cartaz.
Depois, há outro problema: o freesurf (fora das competições), que foge às etapas do Tour para explodir em vídeos e páginas da web. Um bom exemplo é a Quiksilver, cujo número 2 em patrocínios, Dane Reynolds, é uma visita rara no circuito profissional, mas acumula filmes e exposição mediática. Com Reynolds, a Quiksilver trabalha o que não consegue com Slater: uma imagem hippie e irreverente repetida em vídeos, roupa e outros produtos específicos. E vende. Muito. Quando a revista Stab escolheu este ano as oito marcas pessoais mais poderosas no mundo do surf num ranking informal, Reynolds estava na lista. E dos oito nomeados, só dois eram de surfistas do Tour.
Depois, há os outros: os não americanos ou australianos, os que não explodem na web e os que andam longe do top 10 mundial. São as principais vítimas de um desporto de extremos - e não há mais nenhum com uma indústria tão grande que obrigue atletas de topo a depender dos pais para chegar a provas. Exemplo? Raoni Monteiro, 23 do mundo. O brasileiro esteve para não ir à segunda prova do Mundial em Bells, como admitiu depois no Twitter. "Só família mesmo, viu! Quero agradecer ao meu PAI, que acabou de comprar meu tkt [bilhete] para Austrália! Paitrocínio, orgulho e vergonha ao mesmo tempo!", escreveu o brasileiro no Twitter. Em Bells, Raoni foi nono, mas os apoios não chegaram.
"Há novos players"Apesar dos extremos, o Tour promete mudar em 2014, depois de a ASP ter sido vendida, este ano, a uma entidade privada. A partir de 2014, todas as provas do WCT serão geridas pela ZoeMedia, que acumulará todos os direitos de imagem. O plano é claro, mesmo que ainda faltem detalhes: para reduzir o investimento das marcas clássicas, o Tour vai arranjar um patrocinador-mor e todas as provas passarão a ser emitidas pela web a partir do mesmo site, tudo para rentabilizar a publicidade e minimizar custos para as televisões. Tudo nas mãos de Paul Speaker, o novo CEO da ASP.
"Nos últimos cinco anos, houve uma mudança significativa na forma como consumimos media. Há novos players que dizem: "Olhem, nós podemos distribuir, temos os recursos, temos consumidores ávidos a participar", garantiu Speaker na primeira aparição pública, em março. "Estamos à procura de parceiros mundiais para emitir o novo circuito." Speaker não é um novato. Já foi presidente da Time Inc. Studios e administrador da Quiksilver. E percebe que o modelo de negócio mudou. Num mês roubou à Visa Internacional um chief marketing officer, Michael Lynch, e já tinha puxado Terry Hardy, o manager de Slater que alimentou os rumores de um Tour alternativo em 2009. "Queremos os melhores para a nova organização", garantiu.
Speaker entra no momento certo, quando as marcas clássicas querem sair. E já fala nos gigantes - Apple, Google - interessados no lado radical do surf. "O online é tão poderoso como a TV linear. E estamos à procura de parceiros para entregar a melhor experiência global", disse.
Para já ainda há muitos pormenores por fechar, mas a migração das marcas já começou. Em 2013, a equipa de futebol do Corinthians entrou com o brasileiro Adriano de Souza. A Red Bull e a americana Target também são presenças regulares nas pranchas. E o número 1 português, Tiago Pires, divide o patrocínio da Quiksilver com a TMN. "Começámos a apostar no surf há sete anos, quando era um nicho. E vimos tudo isto a escalar", conta Luís Avelar, administrador da TMN/Moche. "Começámos por Peniche e seguimos para o campeonato nacional." Em 2012, o investimento duplicou, a aproveitar o lançamento da marca Moche. "Não há muitos países que consigam ter 50 mil pessoas numa praia a assistir."
Nos últimos meses, a TMN consolidou a oferta: para além da Fuel TV e de um canal no MEO, fechou um acordo comercial para passar todas as provas nacionais na RTP. A aposta, garante, é para continuar. "O surf tem a vantagem de ser uma coisa radical e sã. E junta a beleza do desporto a valores ambientais."
"Um cheque para todos?"Nos últimos 30 anos, Timohty Baker tornou-se um best-seller e uma referência no surf, com livros como Busting Down the Door. Hoje, tem dúvidas sobre a privatização do desporto. "A questão que me ocorre é: se a ZoeSea Media comprou a ASP, quanto é que pagaram e a quem? Se a ASP é detida a 50% pelos surfistas e a 50% pelos eventos, os milhares de surfistas que concorreram nos últimos anos podem esperar um cheque? Duvido", admite no seu blogue.
Não haverá um cheque para todos, mas há um bónus que ajudou a convencer os surfistas: um novo sistema de pensões, em que a ZoeSea Media injetou capital - os montantes são desconhecidos - para garantir planos de reforma. "Isso foi um dos desbloqueadores. Com a crise e o cancelamento de uma prova no ano passado, os surfistas estavam com medo. Esta parceria ajuda a consolidar o Tour". Francisco Spínola, diretor de marketing da Rip Curl em Portugal, esteve nas última semanas a negociar com Speaker a prova em Peniche. "Eles ainda não mostraram muito o jogo, mas do ponto de vista prático não muda muito. Agora, passamos a organizar a prova para alguém", diz. Portugal tem Tour até 2013, mas os planos esticam até 2016. Para isso ainda faltam verbas: dos dois milhões de custo médio por prova, o investimento público só representa 20%. O resto é privado, com Rip Curl e TMN à cabeça. "A ZoeSea Media vai arranjar uma marca-chapéu, que dará nome ao Tour. Nós, os produtores locais, teremos de arranjar patrocínios locais", explica Spínola.
Em 2014, o modelo do Tour deverá ser igual, sem embarcar nas ideias de Salter em 2009, que misturavam provas em ondas míticas com transmissão na web (mas sem público) e anfiteatros urbanos com piscinas de ondas artificiais. Mesmo mudando o modelo, o surf continua igual: péssimo para o prime time televisivo, ótimo para ver na praia. Slater, para já, sorri.