As elevadas percentagens de alunos que não conseguem aceder às aulas por videoconferência devia ser um alerta para o baixo nível de acesso às novas tecnologias por parte de uma massa considerável da população portuguesa.
Depois de décadas de proclamações vazias sobre urgência, bem real, do investimento em novas tecnologias, depois das ilusões fracassadas do Magalhães, depois dos sucessivos investimentos em eventos milionários como a Web Summit, um acontecimento de estrangeiros para estrangeiros que se realiza em Lisboa, Portugal contínua muito atrás em termos da economia digital. Muito para trás não significa que não tivesse havido progressos, houve-os, eram inevitáveis, significa apenas que os outros andaram mais depressa do que nós e que cada vez nos encontramos mais longe do pelotão da frente e mais próximo do carro vassoura que acompanha os últimos.
Neste capítulo vale a pena olhar o que têm vindo a fazer países como a Sérvia onde em Nova Belgrado na margem esquerda do Sava em frente à velha Belgrado se criou e desenvolveu nos últimos anos um centro tecnológico de qualidade mundial e que agora está nas bocas do mundo.
Segundo o Eurostat Portugal tinha apenas em 2008 1,5% da sua força de trabalho na área das ITC (Information and Communication Technology) menos que contrapartes como a Roménia, a Bulgária, a Lituânia ou a Polónia. A partir dessa data Portugal deixou de fornecer esta informação ao Eurostat. Em 2017 a Roménia tinha em profissões ICT 2,36% da força de trabalho, a Bulgária 2,71% e a Eslováquia 3,18% e a Estónia 4%. Os outros correm, nós andamos.
Em Portugal segundo dados do Eurostat referentes a 2017 apenas 20% das empresas empregam trabalhadores especialistas em ITC o que compara com 33% na Irlanda ou 27% na Hungria. Ainda a mesma fonte revela que os especialistas ITC portugueses são os que têm menor nível educacional com apenas 58% com habilitações superiores o que contrasta por exemplo com a Polónia (73%), a Roménia (74%), e está em linha com a Servia (58%).
Acresce que em Portugal muitos dos trabalhadores de ITC estão na setor industrial e não no setor de serviços. Estão na montagem de aparelhos e não na sua programação e desenho.
Vemos por todo o leste europeu um surto de investimento e de emprego nestes setores avançados e que requerem uma mão-de-obra qualificada e especializada.
Um caso interessante é o da Sérvia, um pequeno país de 7 milhões de habitantes encravado nos Balcãs e em que uma das suas regiões, o Kosovo, se encontra ocupado militarmente por forças estrangeiras da ONU. Um país de relativamente pobre com um PIB per capita atualmente inferior ao de Portugal. É neste país improvável que se têm assistido a um bem planeado esforço de criação de um ecossistema digital avançado.
A Sérvia dotou-se de instituições de apoio e promoção da economia digital. Entidades como a Iniciativa Digital Servia, que procura colocar o país como leader da economia digital do século XXI, trabalham para atrair empresas e para apoiar start-ups a crescer e a ocupar o seu lugar nos mercados internacionais.
Existe um plano bem delineado para levar o país a crescer neste setor económico. Um plano que está na primeira fase, dita de “ativação” em que o objetivo é o da criação de um conjunto alargado de start-ups. Existem neste momento cerca de 400 start-ups e o plano é o de continuar a fazer crescer este número.
Por outro lado a ideia não é diversificar para todo e qualquer subsetor mas concentrar-se nalguns nichos em que haja expertise local e em que possam ganhar peso relativo. Alguns dos subsetores escolhidos são o da Inteligência Artificial (AI), dos jogos (Gaming), do Blockchain e da encriptação e o das Cidades Inteligentes.
Apesar de recente já várias empresas alcançaram o sucesso empresarial entre elas a Nordeus (Jogos), a Seven Bridges (AI e estatísticas), TwoDesesperados (Jogos), Visaris (análise automática de raios X), etc.,etc..
Não gostaríamos de escrever daqui a cinco anos sobre como fomos ultrapassados pelos países do leste europeu na frente da economia digital. Começamos antes deles, perdemos quase todo o avanço que tivemos. Estão prestes a ultrapassar-nos, alguns já o fizeram.
É tempo de abandonar as práticas dos últimos anos e trilhar outros caminhos. Aprendamos com a Sérvia.