Novos projetos de media enfrentam desafios de escala, rentabilidade e transparência

Divergente, Fumaça e Página Um enfrentam desafios de escala e rentabilidade. Os primeiros revelam quem os financia e os seus jornalistas têm contratos de trabalho, mas no Página Um isso não acontece.
Novos projetos de media enfrentam desafios de escala, rentabilidade e transparência
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Os últimos anos assistiram ao surgimento de vários projetos de media independentes, que tiram proveito das novas tecnologias para construir novos modelos de negócio assentes em modelos de mecenato e crowdfunding. O DN/Dinheiro Vivo (DV) analisou as contas de três desses projetos: a revista de jornalismo narrativo Divergente, o Fumaça e o Página Um. A conclusão a que chegamos é que estes projetos têm conseguido marcar a agenda com trabalhos relevantes, mas enfrentam desafios de escala e rentabilidade. E a transparência não é a mesma nos três: a Divergente e o Fumaça revelam os seus mecenas e financiadores, ao passo que o Página Um não o faz.

As formas jurídicas destes três projetos são também distintas. A Divergente pertence a uma cooperativa de jornalistas, a Bagabaga Studios, enquanto o Fumaça é detido pela associação Verdes Memórias. Por sua vez, dos três, o Página Um é o único que tem fins lucrativos, pertencendo a uma sociedade por quotas que tem como sócio maioritário e gerente o seu diretor, com 70% do capital da empresa.

Antes de passarmos a uma análise mais aprofundada dos três projetos, importa referir que estas novas formas de fazer jornalismo surgiram num contexto de crise do modelo de negócio dos media tradicionais, com a maioria das empresas do sector em Portugal e no restante mundo ocidental a registar prejuízos, enfraquecendo a capacidade de os jornalistas cumprirem a sua missão de informar e escrutinar os diferentes poderes políticos, económicos e sociais. Cada um à sua maneira, estes três projetos visam responder a essa crise, utilizando a tecnologia para chegar a novos públicos e fazer um jornalismo diferente, que se diz mais independente e transparente que o dos media mainstream.

“A tecnologia pode ajudar os novos media jornalísticos, mas nem é a única alavanca nem a única solução. No essencial, o que conta é a qualidade jornalística dos conteúdos”, disse ao DN/DV o investigador e professor universitário Eduardo Cintra Torres, que assina uma coluna sobre media no Correio da Manhã.

“Se a tecnologia resolvesse tudo, muitos media tradicionais, com idêntica tecnologia, com mais estofo financeiro e com técnicas complementares, como o papel, as rádios, etc., não estariam em crise. O «segredo» destes novos media poderá  ser precisamente a pequena dimensão e a agilidade de agenda. Investigam o que querem, quando querem, e destacam-se por investigarem o que escapa ou é rejeitado investigar por media tradicionais. Esta liberdade — e os resultados que têm obtido — é a mais-valia dos novos projectos como os referidos. Por vezes, o modelo que escolhem é «minoritário», optando por exemplo por um posicionamento mais activista, como o Fumaça, mas, se isso pode reduzir o seu poder de atracção, não quer dizer que a qualidade e a utilidade do seu jornalismo seja menor”, acrescentou.

Apesar desta importância da qualidade jornalística,  a tecnologia tem desempenhado um papel muito relevante no surgimento e crescimento de projetos independentes. Plataformas como o Substack e a Ghost, que fornecem toda a componente tecnológica aos criadores de conteúdos (no caso do primeiro, em troca de uma comissão sobre as receitas de assinaturas), vieram revolucionar o sector, prometendo um novo modelo económico para o jornalismo e a cultura. Em países como os Estados Unidos e o Reino Unido, estas plataformas têm dado gás a projetos jornalísticos independentes que, em alguns casos, já faturam alguns milhões de dólares por ano. Este modelo elimina as principais barreiras à entrada no mercado, permitindo que os novos projetos tenham uma plataforma tecnológica para a criação, distribuição e monetização dos conteúdos sem necessidade de fazerem um investimento inicial avultado em tecnologia e áreas comercial e backoffice. 

Este processo constitui um regresso às origens do jornalismo e uma certa desindustrialização da atividade. Mas isso não significa que os valores essenciais do jornalismo e a sua missão de informar e escrutinar não possam sobreviver, na opinião de Eduardo Cintra Torres. 

“A desindustrialização não implica o abandono dos fundamentos do jornalismo. Os media referidos poderão seguir um modelo «artesanal» - feito «em casa» - mas ou é jornalismo ou não é. Eu acho que é, e amiúde é bom ou muito bom. O acento activista de algumas destas plataformas, em especial noutros países, pode assemelhar-se a algum jornalismo do nosso século XIX, em que a urgência de opinar se sobrepunha à factualidade. Mas estamos já longe desse modelo: o tempo provou que sem informação e sem jornalismo de investigação os media só de opinião não atraem leitores suficientes para lhes garantir a sobrevivência”, defendeu o investigador e crítico.

Os desafios da escala e da rentabilidade

Desta forma, pelo menos no arranque, os novos modelos retiram da equação a figura do capitalista, que entrou na comunicação social quando esta se tornou um negócio lucrativo e se industrializou, na segunda metade do século XIX. Porém, os investidores não são necessários apenas no arranque dos projetos, uma vez que para ganhar escala é necessário investir em meios humanos e tecnológicos.

Este é, de resto, um dos grandes desafios dos projetos independentes: como ganhar escala, de modo a chegar a uma audiência superior e gerar mais receitas, quando não se tem capital suficiente para fazer esses investimentos. E quando, na esmagadora maioria dos casos, uma operação de media não só tem dificuldade em ser rentável como não é capaz de remunerar o investimento com retornos aceitáveis. No caso dos projetos sem fins lucrativos, a questão da rentabilidade também se coloca, na medida em que se traduz na capacidade de gerar excedentes que possam ser investidos na operação. 

A resposta do Substack a esta questão passa por procurar tornar desnecessário o capital de terceiros, criando um ecossistema próprio, que funciona como uma rede social que potencia as visitas aos sites que dela fazem parte, de maneira a atrair mais subscritores. 

Mais de 30% do tráfego dos sites alojados no Substack é gerado através de ligações de outras páginas que fazem parte da plataforma. Nos Estados Unidos, esta estratégia está a resultar e o Substack é, neste momento, o 36º site de notícias mais visitado nos Estados Unidos, com um crescimento de 40% em 2024 e um total de cinco milhões de subscritores que pagam para ter acesso aos conteúdos.

E é cada vez maior o número de jornalistas, escritores, podcasters e outros produtores de conteúdos que aderem à plataforma, que funciona como agregador e rede social.

Página Um, Lda: transparência limitada e recibos verdes

O modelo do Página Um tem algumas semelhanças com o dos jornais anglo-saxónicos sediados no Substack e na Ghost, na medida em que se trata de um site sem publicidade e financiado exclusivamente pelos leitores, que lhe fazem donativos regulares. E, tal como esses sites, que têm equipas pequenas e focadas em temas chave, mas conseguem chegar a audiências consideráveis, o Página Um tem apenas dois jornalistas, mas conta com mais de cem mil visualizações mensais. O site de jornalismo de investigação, que se tem destacado pelas notícias exclusivas que tem publicado, fechou o ano de 2024 com resultados positivos na ordem dos 1726 euros e capitais próprios também positivos, no valor de 14732 euros, mantendo contas equilibradas.

Onde o Página Um diverge da maioria dos sites de notícias do Substack é no facto de aceitar donativos de empresas, que não identifica na informação financeira que divulga. O jornal refere apenas, no seu site, que aceita contributos de particulares e empresas, mas até ao momento não divulgou nomes de eventuais mecenas ou apoiantes. Neste aspeto, o Página Um distingue-se igualmente da Divergente e do Fumaça, que revelam nos seus sites as suas fontes de financiamento.  O Fumaça divulga inclusive os nomes dos cidadãos que lhes fazem donativos a título individual, para além das fundações e outras entidades.

O DN/DV questionou o Página Um sobre a contradição entre este facto e a posição que o jornal tem tomado na defesa de uma maior transparência na gestão, na propriedade e no financiamento dos media. O seu diretor respondeu que não existe contradição, acusando o DN/DV de “enviesamento ou má fé” e argumentando que não tem de revelar os apoiantes porque nenhum pagou mais de 3% das receitas anuais do jornal.

Outra diferença relevante é o facto de, ao contrário da Divergente e do Fumaça, que são feitos por jornalistas com contratos de trabalho (na sua maioria sem termo), o Página Um não ter jornalistas com contratos de trabalho permanentes. Com uma receita de 61 mil euros em 2024, o Página Um utilizou 98% desse valor em fornecimentos e serviços externos, a rubrica onde se contabilizam, entre outras despesas, os pagamentos feitos a prestadores de serviços, os chamados recibos-verdes.

As contas revelam que os custos com pessoal, onde se contabilizam os salários do pessoal com contratos de trabalho, diminuíram de 11529 euros em 2023 para apenas 350 euros em 2024. Já os fornecimentos e serviços externos subiram de 49432 euros em 2023 para 60539 euros no ano passado. Isto indica que os dois jornalistas que integram o projeto, incluindo o próprio diretor e sócio-gerente Pedro Almeida Vieira, não têm salários fixos e passam recibos verdes à empresa proprietária do jornal. 

Novos projetos de media enfrentam desafios de escala, rentabilidade e transparência
Diretor do "Página Um" não recebe salário mas passa recibos verdes por "artigos de opinião"

A lei não impede um sócio-gerente de passar recibos verdes à própria empresa, desde que esteja em causa trabalho independente prestado fora do horário normal e que não esteja relacionado com as tarefas que desempenha a título de trabalho dependente. Nestas e outras situações, de acordo com o artigo 12º da Lei 7/2009, de 12 de fevereiro, o trabalho independente não pode ser prestado com uma remuneração certa e periódica, com horário definido, nas instalações da empresa contratante e com os seus equipamentos. Nem, tão pouco, em funções de direção e chefia na estrutura da empresa, conceito que se aplica ao diretor de uma publicação jornalística.

De resto, num artigo publicado a 2 de junho último, onde dava conta dos donativos recebidos em 2024, o diretor do Página Um afirmava, de forma taxativa, que o projeto tem dois jornalistas que ali trabalham em permanência e em instalações da empresa. “O nosso orçamento mensal ronda os cinco mil euros, valor que cobre os custos operacionais do site, comunicações, despesas logísticas, renda da redação, e o pagamento — em montantes que envergonhariam qualquer tabela sindical — de dois jornalistas fixos. Não há desperdício. Não há luxos. Não há salários dourados”, garantia.

A confirmarem-se as informações que constam destes escritos e das demonstrações financeiras, os dois jornalistas do Página Um arriscam ser considerados falsos recibos verdes, o que constituiria uma contraordenação muito grave, punida com multa entre entre os 2040 euros e os 61200 euros por trabalhador, de acordo com o valor da infração cometida.

Questionado pelo DN/DV, o diretor do Página Um confirmou que não aufere salário e passa recibos verdes, mas que faz apenas pelos artigos de opinião que escreve para o jornal. Ou seja, esses rendimentos são declarados a título de direitos de autor. Os quais, segundo a lei, são tributados apenas sobre 50% do seu valor, no que constitui um benefício fiscal à criação literária e artística. Pedro Almeida Vieira mostrou-se convicto de que a sua situação e a da restante redação do Página Um não corresponde à de falsos recibos verdes.

Divergente: revista digital pede apoios para fazer “mais e melhor jornalismo

A cooperativa Bagabaga Studios, proprietária da Divergente, fechou o ano de 2024 com um prejuízo de 18665 euros e capitais próprios negativos de 7926 euros, ao contrário do ano anterior, que  encerrou com capitais positivos. As receitas ascenderam a 240 mil euros, mas os custos foram superiores.  Questionada pelo DN/DV, a diretora da Divergente, Sofia da Palma Rodrigues, rejeitou que estes números indiquem que a situação financeira da revista esteja a degradar-se.

“Quando começámos, em 2014, trabalhávamos de forma voluntária para erguer o projecto e fazê-lo acontecer. Em 2020, ganhámos uma bolsa da Civitates que permitiu fundar a base da estrutura que temos hoje — começámos por ser três jornalistas, um a meio tempo, e uma pessoa que fazia a comunicação do projecto. Não tínhamos uma periodicidade, nem uma rede de freelancers fixos”, começou por explicar Sofia da Palma Rodrigues.

“Hoje, cinco anos depois, somos cinco jornalistas, um a meio tempo, uma pessoa que se dedica à produção de eventos, gestão da comunidade e angariação de fundos, quatro freelancers fixos - contabilista, desenvolvimento web, design, consultor de imagem e fotógrafo -, e contamos ainda como uma rede de freelancers que vamos activando para trabalhos específicos - ilustradores, músicos, editores de som e imagem”, acrescentou.

Com esta equipa, a Divergente “cresceu” e passou a publicar uma newsletter mensal que conta com cinco mil subscritores e uma grande investigação jornalística - que se desdobra em diferentes formatos -  e é publicada em diferentes órgãos de comunicação social tradicionais, como o Expresso e a rádio TSF. Além disso, a Divergente promove eventos e debates sobre diversos temas.

A revista vive de donativos e conta com uma comunidade de cerca de 130 pessoas que a apoiam, para além de vários mecenas institucionais, incluindo fundações e outras entidades, que estão listadas no seu site. Porém, precisa de mais apoios para poder fazer “mais e melhor jornalismo”, apela a sua diretora. Para manter o projecto como ele existe hoje, em vez de “definhar e regressar a 2020”,  diz Sofia da Palma Rodrigues, “é preciso apoio estrutural”.

“Em Portugal, não existe qualquer iniciativa pública ou privada que apoie a estrutura de uma redacção independente que faça jornalismo de investigação, e as bolsas internacionais são cada vez mais disputadas e em menor quantidade”, afirmou.

Fumaça: um órgão premiado onde as decisões são tomadas por consenso

No caso do Fumaça, a entidade proprietária é uma associação sem fins lucrativos e as decisões editoriais são tomadas pelo conjunto da redação. O site, que já recebeu 30 prémos de jornalismo, incluindo o Gazeta Revelação, tem uma diretora editorial, Margarida David Cardoso, que é uma figura fictícia. “Este cargo é fictício. A redação do Fumaça é horizontal, e assume coletivamente responsabilidade pelas suas decisões. Nomear uma hierarquia é uma obrigação legal de que discordamos”, diz uma nota no site.

“A tomada de decisões é feita coletivamente, por consenso, em todas as áreas de decisão da redação — desde a aprovação de orçamentos até à edição de cada peça. Por isso mesmo, a responsabilidade pelo que é publicado é, também, coletiva e partilhada”, disse ao DN/DV o jornalista Ricardo Ribeiro, do Fumaça.

O mesmo princípio é aplicado nas decisões de cariz financeiro e administrativo. “Quanto à gestão quotidiana de tarefas administrativas e financeiras — como, por exemplo, a organização de faturas, ou a atualização permanente de execução financeira que publicamos na área de transparência do nosso website —, é responsabilidade de um dos membros da equipa”, disse ainda.

O Fumaça apresenta-se como um “podcast de jornalismo de investigação, independente e sem fins lucrativos, focado no escrutínio de sistemas de opressão e desigualdades”. Como principais mecenas tem entidades como a Open Society Foundation, de George Soros, a Unesco e a fundação Rosa-Luxemburg-Stiftung, ligada ao Partido Social Democrata de Esquerda alemão, que descende de várias forças políticas anteriores, incluindo o SED, o  antigo partido único da Alemanha de Leste. 

O coletivo que constitui o Fumaça assume-se como “dissidente” e diz não acreditar “na existência de jornalismo neutro”, assumindo  de “maneira clara as suas subjetividades e conflitos de interesse”.

Em 2024, o Fumaça recebeu 287 mil euros em contribuições e teve custos de 284 mil. Os custos com os nove jornalistas que têm contratos sem termo ascenderam a 227 mil euros, o que significa um ordenado médio ilíquido de 25 mil euros por ano, ou 1800 euros por mês (incluindo subsídios). 

Em, 2025, o Fumaça prevê gastar 310 mil euros, tendo assegurados, de momento, 209 mil euros em contribuições, segundo a informação mais recente que consta do seu site.

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