Sou precário como tu, diz o pai cinquentão ao filho 25 anos
mais novo - os dois mileuristas, 500 euros por mês cada um. Já
têm sorte, têm emprego, duas gerações que se cruzam de repente a
fazer contas à vida. Há 827 mil desempregados oficiais no país,
mais uns milhares que vegetam por aí, outros tantos que já
emigraram, outros que irão emigrar e outros ainda aceitam empregos
quase-empregos abaixo do que valem. São sobrequalificados, viram
hambúrgueres, fazem segurança em empresas, ocupam-se dos call
centers multilingues e multitasking.
São licenciados, são os novos portugueses de leste, estão a
leste da nova economia. Fazem como os ucranianos - professores,
investigadores, etc. - fizeram para sobreviver: tornaram-se
pintores, operários e domésticas. Só que não precisam de emigrar,
mudam de pele aqui onde nasceram. Educadíssimos, competentíssimos,
exploradíssimos; e humildes, claro, isso é muito relevante, porque
este é um movimento com futuro em Portugal. A desvalorização
interna é surrealismo económico puro.
Joan Miró também era surrealista. A certa altura usava muito a
sucata nas suas obras. Há qualquer coisa de simbólico nesta
história. O Governo, a coleção Miró e os dispensáveis de
Portugal, tudo desconchavado. É a obra-prima do endividamento
socrático, banhada pela austeridade de lata passista. Portugal é o
resultado destas trips políticas. Não é arte, é engenharia social
que vira o país de cabeça para baixo.
A coleção Miró. O Governo quis vender tudo e anunciou-o no
Parlamento há ano e meio. A oposição, como a raposa, fez-se distraída; e a pindérica Secretaria de Estado da Cultura, orgulhosa
delegação do Ministério das Finanças, agiu em conformidade:
venda-se por 35 milhões de euros para baixar o défice e pagar saúde
pública.A saúde sempre em primeiro lugar - já não se pode
dizer os velhos em primeiro lugar. Não importa que 35 milhões sejam
uma ninharia (0,017% da dívida pública; 0,8% do que o defunto BPN
deve à Caixa). A aritmética e o rigor, neste caso, atrapalham. Só
interessam os princípios.
Abram alas aos princípios, vendam-se os quadros, o Miró nem
sequer é português, é espanhol, e só "uma certa
intelectualidade" se arrebita com essas coisas da arte. A cultura
não produz, logo não existe. E os turistas? Os turistas têm o
fado, o golfe e as praias. E as empresas, as fundações, não
haveria para aí um mecenas, um Joe qualquer, que pudesse ficar com a
coleção ou parte dela? Isso são detalhes. No Portugal pós-troika
o pai é precário, o filho é precário, o neto... neto não haverá
tão cedo, e nenhum deles tem vagar para visitar museus. Deixem-se de
lirismo: somos pobres, no máximo podemos contemplar o menino da
lágrima.