Olhar para trás é um costume na última semana do ano. Há listas de melhores álbuns, melhores gadgets, as fotografias mais marcantes, as celebridades que morreram, os momentos políticos que definiram os últimos doze meses. E acho que é legítimo dizer que 2016 foi um ano de trampa. Há meses que correm na web “memes” com uma fotografia do antes e outra do depois: “eu no início de 2016” versus “eu no final de 2016”, sendo que o depois é um completo desastre.
O cansaço deste ano é uma coisa real, mas não posso deixar de questionar se não entrámos todos numa espécie de histeria colectiva alimentada pela omnipresença das redes sociais. Tornou-se difícil escapar a esta noção de que está tudo a regredir, a implodir ou a morrer. Este ano houve ataques terroristas por todo o lado. Bombas em Bruxelas, camiões que entraram a matar em Nice e Berlim, um inferno de guerra e morte na Síria, atentados na Turquia e Iraque, o tiroteio da discoteca gay em Orlando. Morreram artistas icónicos, como David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Alan Rickman, Maurice White, Zsa Zsa Gabor, Alan Thicke; e outras figuras históricas, de Muhammad Ali a Harper Lee.
O vírus Zika lançou o pânico mesmo antes dos Jogos Olímpicos no Rio. O Brasil mergulhou numa crise política e social que levou ao impeachment de Dilma e a subida ao poder de Temer. A Venezuela está a ferro e fogo. A Grã-Bretanha votou para sair da União Europeia. Os partidos de Extrema Direita ganharam terreno por todo o lado. E, claro, a cereja no topo do bolo: depois de uma campanha tumultuosa, asinina, cheia de desinformação e ataques piratas, os norte-americanos elegeram Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Só isto já dava para classificar 2016 como um ano horripilante. As alterações climáticas estão mesmo a jeito de um governo com barões do petróleo, e a economia mundial mesmo a pedir um governo cheio de malta da Goldman Sachs. Para não falar daquela gente simpática da “alt-right” na Casa Branca.
A verdade, no entanto, é que tendemos a ter memória curta, e isso nunca foi tão exacerbado como nesta era de “memes”, histórias momentaneamente virais, micro-agressões e ofensas percebidas a cada esquina. Se a percepção do mundo se afunilou pelo algoritmo do Facebook, onde tudo é discussão, roupa suja e histórias falsas, porque é que não conseguimos viver dentro da bolha do Instagram, onde tudo são cappuccinos artesanais, férias inesquecíveis e farpelas vintage acompanhadas de um olhar profundo para o horizonte?
Estamos, em 2016, acossados por uma vivência social que não dorme e pinga continuamente em notificações no smartphone. Estamos em todo o lado, e em lado nenhum. 2016 foi mau, mas nada mudará depois das 23:59 de dia 31. O tempo não existe, o futuro não existe. É tudo um presente contínuo. Talvez estas sejam dores de transição para uma era sempre conectada. Ou talvez nos esqueçamos que num ano houve a quinta-feira negra, noutro ano a eleição de Hitler, noutro a peste bubónica. Guerras mundiais. Inquisição. E num bem mais lá para trás, um certo asteróide que colidiu com a Terra e limpou tudo o que cá havia. Esse sim foi um ano lixado.