O povo que não sabe dizer não

Publicado a

Os brasileiros têm uma enorme facilidade em dizer "sim". A afirmativa sai-lhes alegre e suavemente, quase sempre acompanhada de largo sorriso e às vezes até de um "meu querido" complementar. Uma frase na negativa, pelo contrário, é um problema, seja em que circunstância for, decisiva ou trivial. Costuma começar com um "então", em vez do "não", a que se segue uma retórica longa e ziguezagueante. Mais ou menos assim: "Então (pausa), sabe o que acontece meu querido (nova pausa), neste momento, à partida (mais uma pausa), eu acredito que seja complicado te ajudar..."

A vontade de agradar - e de nunca desagradar - dos brasileiros é lendária e reconhecida internacionalmente. Tanto que no último mês foi revelada uma sondagem realizada com base nos livros de reclamações de hóteis e restaurantes de dezenas de países que apresenta os brasileiros como os mais simpáticos do mundo, seguidos dos filipinos - no pólo oposto ficaram os franceses (não houve referência aos portugueses). Uma amabilidade já registada pelo prolífico escritor austríaco Stefan Zweig, em 1941, no seu "Brasil, o País do Futuro" - um título que, para mal dos pecados dos brasileiros, 70 anos depois continua atual. O escritor divaga longas páginas sobre o facto de, após anos no país, não ter sentido uma falha na afabilidade, uma quebra na cordialidade. Nem numa incursão a uma favela, nem numa visita a uma penitenciária. Nada. É assim aliás muito antes de Zweig. Martim Afonso de Sousa, militar enviado pela corte portuguesa ao Brasil, descreveu em 1531 ao rei Dom João III o povo que encontrara no Brasil como "a mais gentil das gentes". Mas um "não" proferido com convicção vale mais do que um "sim" para agradar ou para evitar problemas, dizia um tal de Gandhi, que por ter dito "não" a um revisor de comboio sul-africano que o convidou a trocar a primeira pela segunda classe se tornou um líder eterno. As consequências de não dizer "não" podem, de facto, ser terríveis: no limite, não existe nenhuma proibição, nada é completamente negado, ninguém se sente obrigado a cumprir a lei. A lei torna-se uma sucessão de "mais ou menos" que permite todas as interpretações, todas as exceções. Eis uma rápida revista de imprensa sobre três dos principais temas do momento. A Lei da Ficha Limpa, que impede políticos envolvidos com a justiça de se candidatarem a cargos públicos já nas eleições municipais de Outubro, está a ser constantemente adulterada pela concessão de liminares a candidatos "ficha suja" sob o argumento de que são casos excecionais, cada um mais excecional que o anterior. Na Lei Seca, apresentada como destemido combate ao terrível flagelo das mortes na estrada, qualquer condutor pode recusar-se a fazer o teste do bafómetro (balão) para não produzir prova contra si, mesmo que esteja nitidamente embriagado e tenha causado a morte de alguém. Finalmente, como se sabe, foram proibidas na semana passada novas linhas de telemóvel na sequência das más condições de rede numa ação mão de ferro que se pensou marcar época no Brasil mas, por falta de fiscalização, parte dos quiosques continua a vender chips sem que ninguém se indigne com isso. Uma jornalista perguntou a um responsável da área se há solução para esse incumprimento. Resposta: "Então (pausa), sabe o que acontece..." Nem vale a pena ouvir mais nada.

Crónicas de um português emigrado no BrasilJornalistaEscreve à quarta-feira

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt