O que precisamos de saber antes de ligar o frigorífico à internet

Na manhã de segunda-feira da semana passada, alguém mostrou ao presidente da Samsung Consumer Electronics uma ideia para explorar: e se as cadeiras tivessem sensores e estivessem ligadas à Internet? A cadeira podia detectar que a pessoa que acabou de se sentar veio da rua e tem frio, e ligar de imediato o aquecimento integrado.
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Boo-Keun Yoon, que nessa noite fez a apresentação de abertura do Consumer Electronics Show, em Las Vegas, estava maravilhado com a "Internet das Coisas". Lembrou que este é o ano do Regresso ao Futuro e que tudo isto deixou de ser ficção científica. Falou de um aparelho que analisa as ondas cerebrais e avisa a pessoa de que ela está perto de ter um AVC. Disse que estes sensores, que nos vão medir de alto abaixo, irão permitir às seguradoras oferecer apólices personalizadas.

E enquanto ele falava, eu fiquei gelada. Um mundo em que todos os aparelhos têm sensores e acesso à Internet é um mundo inescapável. Quem é que controla a informação que é gerada? E quem é que a protege na "nuvem"?

"Os sensores vão compreender o contexto do ambiente que os rodeia, conseguir identificar vinte cheiros diferentes. Estes sensores precisam de estar sempre "on" e sempre ligados", disse BK Yoon. "Em 2017, 90% de todos os produtos da Samsung terão Internet das Coisas. Daqui a cinco anos, será 100% do hardware da Samsung." Todo. Isso quer dizer que se eu quiser uma máquina de lavar loiça pouco inteligente não encontro?

É verdade que as potencialidades deste cenário são grandes é para aí que caminhamos; o que só torna mais importante questionar as empresas que estão a investir milhões nisto. Elmar Frickenstein, vice-presidente da BMW, passou pelo mesmo palco em Las Vegas para dizer que "a Internet dos carros" também já chegou e que, em breve, vamos ligar a casa inteligente ao carro, que será praticamente autónomo. Terminou a intervenção a chamar um BMW i8 pelo relógio (Michael Knight ficaria orgulhoso).

Há várias questões importantes e destaco duas. Primeiro, exactamente de que forma é que estas marcas esperam que as pessoas possam comprar lâmpadas, termostatos, frigoríficos, televisões, fechaduras, campainhas e balanças inteligentes, mais pulseiras de fitness, anéis inteligentes e robôs domésticos no espaço de um par de anos? A água é muita e talvez não haja assim tanta sede.

A segunda questão é, talvez, a mais importante: o que é que está a ser feito em termos de segurança e privacidade? Fiz a pergunta a vários entusiastas da Internet das Coisas e a resposta mais comum foi algo do género: "pois, temos que ver isso." Eduardo Pinheiro, CEO da portuguesa Muzzley - que criou um ecossistema para aparelhos da Internet das Coisas - não se alongou muito. "Bom, em relação à privacidade, nem é de agora. Já fomos." A Muzzley tinha várias demos a decorrer no seu stand, uma das quais o controlo das luzes numa casa em Portugal, a partir de Las Vegas. Eduardo Pinheiro comparou os receios que vivemos agora com a transição da experiência bancária dos balcões para o homebanking. Mas não é bem a mesma coisa: os bancos investem muito dinheiro em encriptação, educação dos clientes e protecção dos seus sistemas. Espera-se o mesmo de fabricantes que apresentam gadgets engraçados, com sensores de baixo custo, destinados às massas?

Em Novembro passado, a ex-directora de tecnologia da Casa Branca, Theresa Payton, disse-me que o que a política de privacidade significa realmente é a falta de privacidade. Estamos numa fase em que já não conseguimos controlar as informações que as empresas reúnem sobre nós no mundo digital. Agora, os aparelhos conectados - seja óculos, candeeiros ou cadeiras - vão gerar dados em todas as interacções com o utilizador. No Natal de 2013, descobriu-se que aparelhos inteligentes, como frigoríficos e televisões, tinham sido usados para enviar emails com códigos maliciosos. As lojas de aplicações para Android lutam constantemente contra malware, e nem toda a gente se apercebe de que deve usar software de segurança. Como é que isto fica na "Internet das Coisas"? Theresa Payton aconselha os utilizadores a usar "routers' diferentes em casa, separando os electrodomésticos do computador. "Muitas vezes, o que torna os gadgets muito atrativos e com bom preço é que não têm qualquer tipo de segurança", avisou. Antes de comprar esse frigorífico que vai às compras sozinho, o melhor é ler bem as letras miudinhas.

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