O talento não cai do céu

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A última vez que um teatro de Leiria encheu para um programa de

televisão deve ter sido há uma década numa edição do "Levanta-te

e Ri", o programa de stand-up comedy que a SIC teve em antena

durante uns bons pares de anos.

Desta vez, porém, ninguém estava em pé. Gargalhadas, houve

muitas, mas os protagonistas eram Marcelo Rebelo de Sousa e Ricardo

Araújo Pereira, duas figuras maiores da televisão portuguesa. Uma é

presença contínua, todos os domingos, há uma década, primeiro na

TVI, depois na RTP e agora de novo na TVI. A outra aparece-nos, com

os seus companheiros, em exclusividade a representar uma marca,

cumprindo religiosamente uma licença sabática que já vai em dois

anos.

Os dois juntaram-se agora na primeira edição de um novo programa

mensal da SIC Notícias chamado "Conversas Improváveis". Ao

longo de 55 minutos, bastou um palco, quatro poltronas antigas (duas

para os moderadores, ao centro, e duas para os convidados, em cada

uma das pontas) e uma conversa inteligente para fazer um programa de

televisão.

Eu gosto desse prazer supremo da televisão simples. Da televisão

que junta duas pessoas inteligentes numa conversa saborosa. É uma

moda, infelizmente, cada vez mais rara. Porque as pessoas

inteligentes disponíveis para ir à televisão são cada vez menos e

porque os programadores, atiçados pela feroz concorrência que

batalha o caminho das audiências, deixaram de acreditar, há mais de

uma década, nos méritos de uma simples conversa. Televisão, não

dizem mas pensam, é movimento, é surpresa, é improviso, são

grandes cenários, são provas tontas, são palermices ditas de bocas

abertas e cabeças desertas.

Marcelo Rebelo de Sousa e Ricardo Araújo Pereira são tudo menos

isso. Politicamente nos antípodas um do outro (o primeiro é

social-democrata, o segundo é comunista), Marcelo e Ricardo são

dois homens inteligentes, que pensam pela sua cabeça, com um sentido

de humor mordaz e bem aguçado. Do humorista, já se sabia. Do

comentador, já se desconfiava.

Por isso, aqueles 55 minutos encheram por completo o teatro Miguel

Franco, em Leiria - uma plateia heterogénea que fez silêncio

quando era devido e que riu a bandeiras despregadas quando era caso

disso, e fizeram com que a SIC Notícias registasse uma quota de

mercado histórica de 12%.

Marcelo Rebelo de Sousa e Ricardo Araújo Pereira são, cada um à

sua maneira, dois dos raros comunicadores magnéticos da praça

pública portuguesa. E é por isso que são um caso à parte no

panorama audiovisual cá do burgo. E é por isso também que, cada

um, tem o valor de mercado que tem, tem a legião de fãs que tem e

tem, ainda por cima, um séquito de potenciais empregadores de mão

estendida com um contrato chorudo a cintilar, à espera da assinatura

milagrosa.

Marcelo está a poucos meses de terminar o seu contrato com a TVI.

Ricardo (sem desprimor para os companheiros do Gato Fedorento, a

verdade é que é Ricardo e mais três...) continua no seu eldorado

comercial com a PT. Vai chegar, porém, um momento em que ambos vão

ter de pensar no tempo que se segue. E quando esse tempo chegar, não

há crise, nem troika, que lhes faça baixar o valor de mercado.

Porque comunicadores como estes valem ouro. E atrás do ouro vêm

audiências. E atrás das audiências, shares comerciais. E atrás de

shares comerciais, publicidade. E atrás de publicidade, dinheiro.

Muito dinheiro.

Que não falte o dinheiro para lhes pagar o talento!

Diretor executivo da Notícias TV

Escreve à terça-feira no Dinheiro Vivo

Diário de Notícias
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