Há escândalos locais, municipais, estaduais, federais, internacionais. Invariavelmente em torno da perigosa interseção entre o público e o privado. Quase sempre na ordem dos milhões de reais. E na maioria das vezes envolvendo titulares de cargos eletivos.
No meio deles aparecem casos que, pela capacidade de abanar os pilares da República, ganham até sufixo “ão”: são os casos do Mensalão e do Petrolão.
A não ser por terem surgido durante a gestão do Partido dos Trabalhadores (PT), por um ou outro nome em comum, como o de José Dirceu, o mais célebre preso político brasileiro dos anos 70 e o mais célebre político preso da atualidade (é incrível como na política a inversão dos fatores altera o produto de uma frase), pelas tais promiscuidades entre público e privado, os tais milhões de reais e os tais eleitos prevaricadores, na aparência Mensalão e Petrolão nada têm a ver um com o outro. Na aparência.
O que foi o Mensalão: um esquema de corrupção do partido no poder para compra de votos dos parlamentares.
E o que foi o Petrolão: um acordo entre construtoras para dividir obras sobrefaturadas da Petrobrás, subornando para tanto quadros da empresa e políticos com influência nas decisões.
Se na aparência nada têm nada a ver um com outro, no fundo, têm a mesma origem. A forma como o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, se referiu ao Petrolão esta semana prova-o: “os desvios na Petrobras foram usados para a compra de apoio parlamentar”. Ou seja, o Petrolão é irmão gémeo do Mensalão.
Também no Petrolão, o dinheiro que entrou nos bolsos dos políticos serviu, acima de tudo, para garantir a fidelidade dos parlamentares corruptos na hora do voto.
Em recente entrevista ao DN, Miro Teixeira, o mais antigo dos deputados brasileiros, membro do primeiro executivo de Lula e hoje na oposição, situou no tempo a génese do Mensalão – e, por extensão, do Petrolão.
Logo após a apertada primeira eleição de Lula, a cúpula governamental, consciente de que com apenas 90 deputados num universo de 513 não conseguiria governar, perguntou-se como haveria de conquistar uma maioria parlamentar: através de projetos, o caminho mais difícil, ou através de orçamentos, o mais fácil. Foi escolhido o segundo, isto é, foi decidido que se convenceria os deputados a aderir ao governo pela via que, de facto, move a maioria deles: o dinheiro.
Mensalão e Petrolão têm, pois, mais do que o sufixo, o PT ou Dirceu em comum: têm também a origem. E a origem é a ganância e a falta de escrúpulos de boa parte dos seus congressistas, que elegeram para respetivos chefes dois homens do PMDB na mira da justiça por corrupção, Renan Calheiros (Senado) e Eduardo Cunha (Câmara).