O mundo está a passar por uma escassez de componentes que afeta toda a indústria ligada à manufatura de produtos eletrónicos. Atualmente não há nada que não tenha eletrónica, e aqui englobamos, por exemplo, computadores, smartphones, câmaras, eletrodomésticos, e claro, os automóveis. Se no período do confinamento da pandemia as encomendas de bens de consumo dispararam, hoje já estão a normalizar, mas a escassez e aumento dos preços das matérias-primas vai continuar a ser um problema para a grande maioria das empresas. Em Portugal, alguns dos maiores exportadores estão a recorrer aos mecanismos de lay-off para conseguir fazer face às dificuldades de abastecimento à produção, e a economia nacional também já sente os seus efeitos. É o efeito contágio, que neste momento não tem previsão de fim.
No caso específico dos fabricantes automóveis, que utilizam semicondutores em todos os seus módulos eletrónicos, como painéis de instrumentos, sistemas de infotainment, computadores de bordo, para auxílio ao condutor, assim como muitas outras funcionalidades que permitem mais conforto e segurança quer na condução e na vida a bordo dos automóveis, a escassez global destas matérias-primas atingiu o setor de forma impactante. Na pandemia, muitas encomendas foram canceladas quando as fábricas estiveram paralisadas e, ao mesmo tempo, a procura por semicondutores disparou por parte dos fabricantes de eletrónica de consumo, uma vez que a compra destes produtos aumentou muito significativamente. O confinamento obrigatório associado ao teletrabalho fez com que as pessoas necessitassem de adquirir muitos destes produtos eletrónicos para comunicar com o mundo exterior a partir das suas casas.
Quando a pandemia se tornou mais controlável e previsível, reiniciou a produção da indústria automóvel e, de forma bastante intensa, os componentes semicondutores disponíveis no mercado não satisfaziam minimamente a procura. A cadeia de abastecimento começou a falhar por falta de componentes. A isto juntou-se um conjunto de catástrofes naturais, como um tremor de terra no Japão, um nevão no Texas e o bloqueio no canal de Suez por um porta contentores, que em conjunto criaram uma constelação de eventos associados à penúria de componentes já existente no mercado e que nos arrastou para a situação que estamos a viver. Além disso, não podemos esquecer que a produção de semicondutores é um processo complexo e longo, e as empresas que os fabricam não conseguem acompanhar o aumento da procura.
O impacto desta crise na economia é visível, e uma vez mais, o setor automóvel, não sendo o único, é sem dúvida dos mais atingidos. É isso mesmo que mostram os números apresentados pelo mais recente estudo da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), segundo o qual no primeiro trimestre deste ano foram produzidos menos 1,2 milhões de automóveis devido à escassez de semicondutores. E as perspetivas não são animadoras, com o mesmo estudo a indicar que existe uma tendência para o agravamento desta situação no segundo trimestre, que terá com um impacto negativo de 1,7 milhões de automóveis não produzidos. Se a estes números juntarmos os dados apurados pela consultora BCG que estima que um incremento de três mil milhões de dólares no Produto Interno Bruto (PIB) global de 1995 a 2015 está diretamente ligado à inovação com semicondutores, e que entre 1990 e 2020, o mercado de semicondutores cresceu a uma taxa de 7,5%, ultrapassando o crescimento do 5% do PIB global durante esse período, fica claro o impacto desta crise na economia mundial. E muito embora os fabricantes de semicondutores continuem a aumentar a produção de ano para ano, a procura mantém-se muito acima da oferta.
Ao mesmo tempo que é expectável que a escassez de chips continue a atingir a indústria por mais algum tempo - e ninguém sabe ao certo quanto tempo, esta crise já esta a chegar aos consumidores, que poderão não conseguir adquirir de imediato os bens de que pretendiam. Bem-sucedidas serão as empresas que conseguirem ser ágeis e inovar na implementação de alternativas que permitam suprir as necessidades dos fabricantes.
Carlos Ribas, responsável da Bosch Portugal