O Orçamento do Estado entra agora na fase decisiva: a discussão na especialidade. Uma parte significativa dos portugueses já desligou do assunto. Depois da agitação parlamentar inicial veremos até que ponto o Governo olha para a maioria absoluta que o sustenta como uma licença para ignorar as propostas dos outros partidos e entidades ou se, pelo contrário, faz um esforço para corrigir algumas trajetórias definidas na proposta de OE2024 que apresentou em outubro..É muito importante notar que, em apenas cinco meses, sem que tenhamos assistido a nenhuma alteração estrutural digna de nota, nem a qualquer acontecimento imprevisível e marcante - o ataque terrorista contra Israel foi posterior aos números apresentados pelo Banco de Portugal -, as previsões económicas para os próximos meses e para o próximo ano pioraram. O crescimento previsto para este ano recuou. Os economistas procuram agora entender se vamos ou não entrar em recessão neste último trimestre, visto que o PIB recuou 0,2 por cento (em cadeia) no anterior. As consequências são evidentes: o lastro negativo vai prolongar-se para o próximo ano, o que pode até impactar negativamente no já anémico crescimento previsto (1,5 por cento)..Perante este cenário, a discussão que se avizinha no Parlamento não é apenas importante - será determinante para o nosso futuro imediato. Em tempo útil, apresentámos as nossas propostas e negociámos até onde julgámos possível. Não chegámos a acordo com o Governo, mas o nosso compromisso de diálogo permanente mantém-se inalterado. Neste sentido, enviámos uma carta aos grupos parlamentares com o objetivo assumido de procurar que algumas dessas ideias possam ainda ganhar corpo e serem aprovadas na votação final global..A economia está em dificuldades. A taxa de desemprego aumentou ligeiramente em setembro. A probabilidade de aumentar mais não é despicienda. Entre os empresários, o que sobressai é a enorme preocupação com este progressivo degradar das condições económicas. Naturalmente, os investimentos já estão a ser reavaliados - qual o sentido de investir perante o aumento constante da incerteza? Haverá alguma razão para comprar novas máquinas ou contratar mais pessoas se a procura interna está vulnerável e as exportações caem? As empresas pagam impostos e contribuições todos os meses - não temos ciclos eleitorais, temos, sim, o dever de atingir resultados capazes de pagar todos os nossos compromissos com as pessoas, as outras empresas e o país..O Orçamento do Estado do próximo ano pode ser um tónico capaz de melhorar a confiança nacional. Como se sabe, o excedente orçamental até setembro atingiu os sete mil milhões de euros, o que deveria ter alguma expressão na política económica do Executivo. Para o ano também está previsto novo excedente, embora menor. A pergunta que devemos colocar é bem simples: o que deve o Estado fazer nesta situação - deixar a economia soçobrar ou dar-lhe o respaldo necessário para ultrapassar as dificuldades? A resposta será dada pelo resultado das discussões do OE2024 na especialidade. Penso que Portugal deve fazer tudo para evitar um novo ciclo de empobrecimento. A escolha é política e a política é a arte do compromisso..Armindo Monteiro, presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal