Os efeitos nocivos dos ecrãs nas crianças

Encolher os ombros e dizer que é impossível lutar contra o vício dos ecrãs não deve ser a opção final
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A menina de dois anos e meio entrou triunfante pela sala, exibindo óculos de sol em formato mini e um vestido novo cheio de folhos, com ganchos a condizer nos caracóis dourados. Os pais vinham a correr atrás dela, sem fôlego, e quando se sentou esticou os braços e pediu o “Nemo”. Não era um boneco nem um código para mimos, era o filme. Em dois segundos tinha um tablet na mão e submergia na história animada da Pixar, alheia às conversas ruidosas que se travavam à sua volta. A seguir, viria o filme da Dory.

Franzi o sobrolho perante a cena, porque tinha lido há pouco tempo as novas indicações da Academia Americana de Pediatras, recomendando menos de uma hora por dia de ecrãs para crianças entre os dois e os cinco anos. “Uma hora!”, exclamaram. “Impossível.”

Mas os estudos sucessivos mostram que há razões para preocupação e para limitar a exposição das crianças aos ecrãs. O problema não é o meio tecnológico, em si; olhar para a televisão ou para o tablet não vai entortar os olhos das crianças. O problema é o consumo passivo de conteúdos. Passar vinte minutos numa chamada FaceTime com os avós, em que existe interacção com a criança, é muito diferente de ver um episódio de desenhos animados ou uma sucessão de clips de música. Mesmo que essa música seja Mozart e o programa seja o “Baby Einstein”.

A Organização Mundial de Saúde emitiu novas indicações em abril urgindo os pais a darem menos tempo de ecrãs e sedentarismo e mais tempo de “brincadeira activa” a crianças com menos de cinco anos, recomendando também maior qualidade de sono.

Abordar este tema com outros pais é delicado, porque todos concluem, de uma forma ou de outra, que lutar contra ecrãs é uma batalha perdida perante a ubiquidade de dispositivos tecnológicos. E toda a gente acha que está a fazer o melhor que pode.

No entanto, é importante lembrar que o período até aos três anos será fundamental no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, com uma incrível longevidade de repercussões, que serão visíveis durante anos e anos. As pesquisas sustentam uma abordagem pró-activa nesta rejeição dos ecrãs durante os primeiros anos e uma grande limitação nos anos subsequentes.

Só em 2019, já foram publicados vários estudos relevantes que alertam para o problema. No Journal of Development & Behavioral Pediatrics, a pesquisa publicada em Fevereiro conclui que a utilização de dispositivos móveis “está associada a atrasos de linguagem expressiva” em bebés de 18 meses. No JAMA Pediatrics, uma análise alarmante sobre a correlação entre sono, exercício e ecrãs em crianças e jovens e um estudo canadiano concluiu que a exposição a conteúdos em vários tipos de ecrãs (televisão, computador, tablet, telemóvel) está associada a atrasos no desenvolvimento de capacidades linguísticas e sociais e recomendou que bebés com menos de 18 meses não tenham qualquer contacto com ecrãs. A conclusão é de que “níveis mais elevados de consumo de ecrãs em crianças dos 24 aos 36 meses estavam associados com desempenhos pobres nas análises de marcos de desenvolvimento aos 36 e 60 meses, respectivamente.” Ou seja, os bebés mais expostos mostraram atrasos na chegada aos patamares de desenvolvimento.

Embora todas as crianças sejam diferentes e as expectativas devam ser adaptadas a cada uma delas, as consequências de uma atitude desdenhosa destes avisos são de longo prazo. Crianças que se habituaram a passar horas com o tablet na mão vão recusar largá-lo quando lhe disserem que não podem jogar no meio da aula e têm de se concentrar nos trabalhos de casa. Crianças que se habituaram a ver hora e horas de vídeos excitantes no YouTube vão tornar-se adolescentes agarrados aos “likes” das redes sociais, colocando um peso excessivo na atenção virtual e descurando o desenvolvimento de capacidades de socialização ao vivo.

Pregar a limitação mais tarde quando houve bar aberto de smartphones e tablets anteriormente será excruciante. E apesar de já não irmos a tempo de criar crianças num mundo apenas analógico, podemos adiar o seu encontro com o mundo digital.

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