Nas eleições municipais de 1959, Carareco teve mais de 100 mil votos, o suficiente para se eleger vereador em São Paulo. Sucede que Carareco era o rinoceronte do zoo da cidade.
Estava dado o tiro de partida para uma tradição de bizarrices eleitorais, num país louco, alegre e criativo como poucos. Depois de Carareco, o dr. Enéas - médico de longas barbas negras com direito a meros 10 segundos de tempo antena nos quais debitava o máximo de palavras que conseguia, sem no entanto se perceber nenhuma além do bordão final, “o meu nome é Enéas” - tomou nos anos 90 a dianteira entre os candidatos excêntricos (sendo que o mais excêntrico não é a existência de candidatos excêntricos mas sim de eleitores excêntricos o suficiente para votar neles, porque o dr. Enéas ainda hoje detém o recorde de maior votação para deputado federal no Brasil).
Em terceiro lugar nessa lista surge Tiririca, o palhaço eleito deputado em 2010.
O sucesso da bizarrice inspira mais e mais bizarrices. E como a cada eleição municipal há cerca de meio milhão de candidatos, ser diferente impõe-se. Por outro lado, a lei permite-o: apenas os pretendentes à presidência da República são obrigados a usar o seu nome legal (candidatos como Lula, Marina e Sarney, por não se chamarem assim, acrescentaram os seus petit noms ao registo oficial).
Nas que decorreram neste mês (ainda faltam algumas segundas voltas) houve desde auto-depreciativos, como Feioso, Cara de Pneu, Boca Torta, Boca de Pia ou, simplesmente, o Merda, a vaidosas, como Natália, a Gostosa, Evaneide, a Gata, ou a septuagenária Vovó Equilibrista.
Num país consumidor de televisão, candidataram-se o Vin Diesel Curitibano, o Stallone, o Rambo, o Batman, o Darth Verde (sic), além de um Big Brother e de uma Novela.
O fascínio conhecido pelos EUA reflete-se em concorrentes chamados Barack Obama, John Kennedy, Jimmy Carter, Bill Clinton ou Jorge (sic) Bush mas também nos velhos inimigos do Tio Sam, como Bin Laden, candidato de longas barbas, e Stalin (no caso, é nome de batismo).
Apesar de laico, o Brasil é um país onde a religião conquista votos: foram quase 7000 pastores, pastorzinhos, pastorzões, irmãos, padres, bispos, mães de santo e pais de santo (a propósito, o bispo da IURD Marcello Crivella segue na luta pela prefeitura do Rio). Houve espaço, porém, para o sacrilégio, com os candidatos Diabo Loiro, Satanás e Filho do Padre.
Como a revolução nos costumes corre paralela, de 31 candidatos transexuais em 2012 passou-se para 80 em 2016. E um candidato chamado Mário Gay foi mesmo eleito vereador em Andradina, estado de São Paulo. Outros costumes não mudam: os concorrentes continuam homens e brancos na sua esmagadora maioria.
Causou apreensão a candidatura da filha do maior criminoso do país, o traficante Fernandinho Beira-Mar, e, sobretudo, a de um matador de aluguer a cumprir pena que votou algemado e acabou eleito na pequena cidade que aterroriza. Assustador ainda o caso de José Gomes, candidato a Itumbiara, assassinado enquanto seguia numa passeata. No Rio de Janeiro, 15 pretendentes a vereadores morreram por questões ligadas ao tráfico ou às milícias. No total, as municipais de 2016 somaram 28 mortes.
Entre os casos curiosos, a cidade de Araraquara, onde o ex-ministro de Dilma Rousseff Edinho Silva venceu a ex-mulher. Ou Piraju, em que um empate no número de votos de dois candidatos a vereador obrigou a apurar qual era mais velho, o critério de desempate segundo a lei – sucede que, como ambos nasceram a 11 de Fevereiro de 1970, foi necessário garimpar a hora de nascimento.
Os casos são tantos que é difícil encontrar uma conclusão: concluamos então com o novo prefeito de Monte Alegre, Minas Gerais, que se chama Dr. Último.