“Pushing the envelope”

Portugal, prepara-se para receber um envelope financeiro muito relevante. É critico que este dinheiro seja investido da melhor forma.
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Passada esta primeira vaga da pandemia, o mundo e a economia começam finalmente a desconfinar e a retoma económica começa a ser a grande prioridade. Felizmente, a Europa foi capaz de encontrar uma resposta solidária e em linha com a dimensão do desafio.

No entanto, a retoma será exigente e obrigará a inteligência nos detalhes das medidas dos estímulos a implementar. Caso contrário, poderemos cair facilmente na chamada “liquidity trap”, que Keynes tanto falava, em que perante incerteza e baixas taxas de juro, mesmo com muita liquidez, a economia prefere poupar do que investir no curto prazo.

Portugal, prepara-se para receber um envelope financeiro muito relevante, de mais de 26 mil milhões de euros, o que representa um valor superior ao total do Portugal 2020, pelo que é critico que este dinheiro seja investido da melhor forma.

Uma das prioridades deve ser a aposta numa visão de médio e longo prazo e uma aposta em investimento produtivo em torno duma agenda estratégica, duma economia de propósito, alinhada com a agenda Europeia da transição energética e digital.

Para se investir no futuro e de forma produtiva é importante não ter medo de deixar morrer o investimento não produtivo e libertar recursos para novos e melhores investimentos. À exceção de algumas empresas e áreas estratégicas, como podem ser o nosso turismo e cultura, não deveriam haver tabus.

No entanto, para isso é necessário ter medidas de apoio às pessoas, e não deixar ninguém para trás. O apoio à transição das pessoas para esta nova economia é determinante, para mantermos a coesão social que tanto nos caracteriza.

Para fomentar o investimento produtivo, é determinante acima de tudo criar os incentivos adequados para gerar as atitudes e iniciativas pretendidas. Um dos mais importantes incentivos, para uma economia produtiva, são os fiscais, pois exigem uma reflexão séria e exigente por parte dos empresários, e a implementação rigorosa de estratégias de inovação e investimento.

Para além dos incentivos fiscais, é determinante aumentar o investimento competitivo via mecanismos como o PT2020, com regras e regulamentação mais simples, processos mais céleres, adiantamentos de financiamento generosos e valorização das atividades mais relevantes para a competitividade das empresas.

É importante também reinventar a lógica da banca e do funding, criar novos mecanismos de crédito associados a incentivos alinhados com a agenda da transição energética e digital, e reformular o papel dos bancos, para que sejam de facto parceiros relevantes das empresas.

A aposta da digitalização da economia e dos serviços, não pode esquecer os infoexcluídos, mas deve incidir fortemente na desmaterialização e desburocratização dos processos, em ferramentas de trabalho colaborativo, na cloud, na automação e na capacidade de gestão de dados e AI.

Devemos aproveitar este momento também para fazer reformas ao sector público. Faz sentido uma reforma da escola, da saúde, da justiça e da segurança social. Um estado mais eficiente gera uma sociedade e economia mais e justa e produtiva.

Em termos económicos e produtivos, precisamos de reforçar a nossa especialização de clusters, mais focados nas indústrias atuais e de futuro onde podemos ser competitivos. Para isso temos que estar verdadeiramente inseridos nas cadeias de valor europeias e internacionais. Portugal não tem uma única região no top 25 de clusters europeu, enquanto a nossa vizinha Espanha tem 5, a Itália 7, a Alemanha 4 e a França 2.

Temos potencial para sermos relevantes em vários sectores, como serviços logísticos, automóvel, energia, ambiente, saúde, turismo, tecnologia, economia do mar, agroalimentar tech, advanced packaging, mobilidade, têxteis ou calçado.

Devemos olhar para o envelhecimento como um ativo e transformar um dos nossos principais desafios numa oportunidade e num mercado onde possamos ser especialistas a nível global, e que tem forte relação com o turismo e a saúde.

Por fim, é crítico continuar a apostar nas startups, com uma estratégia muito além das iniciativas anunciadas. Há que investir de forma séria e sólida, para que possamos competir verdadeiramente como um hub global. Fomentar também o reforço das indústrias de Private Equity e de Capital de Risco, de forma a capitalizar de forma mais profissional os sectores com potencial de reinvenção e crescimento.

Este é um momento para “push the envelope”, expressão que ficou emblemática com Tom Wolf, acerca do programa espacial norte americano. A retoma económica sustentável e orientada para o futuro é o maior desafio que defrontamos coletivamente neste momento. É tempo para irmos mais além, para testar novas ideias, radicais se necessário, testar os limites do conhecido e fazermos o melhor que sabemos.

Comissário Geral de Portugal para a Expo 2020 Dubai

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