Na divulgação do ranking das escolas deste ano, apesar do fait-diver mediático sobre quem sobe e quem desce no ranking, não há nada de novo. Nas primeiras 50 escolas apenas 5 são escolas públicas. Esta aparente desvantagem da escola pública no ranking é amplamente discutida. Discute-se o diferente contexto que as diferentes escolas enfrentam, implicando que estejamos a comparar incomparáveis. Discutem-se os indicadores que são usados nesta avaliação do mérito das escolas e a forma como esses indicadores estão fortemente correlacionados com o estatuto económico e social dos alunos. Discute-se o papel que a educação devia ter na promoção da igualdade de oportunidades e não na perpetuação de desigualdades. Nesta reflexão eu gostaria de abordar uma outra perspetiva, que também não é visível nestes rankings, e que se prende com o papel da escola na promoção da saúde mental e emocional das crianças e jovens.
Há alguns anos, os estudos pareciam indicar que as crianças e jovens que frequentavam escolas inseridas em comunidades de baixos rendimentos apresentavam um maior risco de consumir drogas, desenvolver ansiedade ou depressão. Mais recentemente, tem surgido um novo corpo de investigação que encontra evidência distinta, apontando que as crianças e jovens que frequentam aquilo a que podemos chamar escolas de alta performance, que dominam o ranking das escolas, apresentam um maior risco de burnout, ansiedade, depressão e consumo de substâncias. O principal fator que aumenta este risco, pelo impacto negativo que tem na saúde mental e emocional das crianças e jovens, é a comparação social.
De forma intencional ou não, estas escolas tendem a promover um ambiente competitivo, com enfoque nos resultados, em que os alunos estão constantemente a comparar-se com os seus pares. Quando um jovem perceciona que o seu valor e, mais ainda, o seu futuro, dependem da sua excelência em termos curriculares isso tende a fragilizá-lo. É frequente legitimarem-se estes modelos com o argumento de que esse é o preço a pagar pelo sucesso, mais uma vez medido pelos rankings e pelo acesso às universidades, também elas ditas de topo.
No entanto, a realidade parece ser mais complexa e vários estudos indicam que as notas não são o principal preditor de sucesso na vida adulta e que outras características, como o autocontrolo, a responsabilidade e a cooperação são mais importantes. Devemos estar atentos ao papel da escola no desenvolvimento global do aluno e na promoção do bem-estar mental e emocional dos jovens e isso não é possível quando os holofotes se centram todos os anos nos rankings de notas.
Algumas famílias culpam-se pela impossibilidade de darem aos filhos a oportunidade de acesso às "melhores" escolas. Será que essa impossibilidade pode reduzir a probabilidade desse jovem entrar numa universidade dita de topo? Talvez. Será que essa impossibilidade compromete as hipóteses desse jovem vir a ser um adulto saudável e feliz? Face às evidências atuais, eu diria, seguramente, não.
Marisa Tavares, Docente da Católica Porto Business School