R2. "A produção nacional tem passado uma imagem muito positiva do trabalho dos portugueses"

<b>São do Porto e foram considerados a Agência Europeia de Design do Ano, pelo EDAwards.</b>
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O atelier R2 foi criado em 1995 por Lizá Ramalho e Artur Rebelo ainda estudantes da Faculdade de Belas Artes do Porto. Criaram um lógotipo e uma série de ilustrações para uma coleção de roupa ligada ao surf criada por um amigo, bem como os materiais de divulgação dos espectáculos do Teatro Bruto. "Ambos foram importantes para o nosso lançamento no mercado de trabalho, o primeiro porque nos trouxe mais clientes, o segundo pelo espaço de experimentação que nos foi concedido pela companhia e pela visibilidade conseguida, sobretudo através dos cartazes de rua", lembra Lizá Ramalho.

Hoje têm como clientes a Casa do Conto, Museu Serralves, Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa e Paris), o Hotel Minho, a Dafne Editora, a produtora Um Segundo Filmes, Guimarães Capital Europeia da Cultura ou a Phaidon Press.

Ao Dinheiro Vivo, Lizá Ramalho fala da importância do prémio atribuído a um atelier português.

Que significado tem este prémio do EDAwards atribuído ao atelier R2 Design?

O reconhecimento da qualidade do trabalho que temos vindo a desenvolver nos últimos 15 anos da nossa carreira. Os nossos projetos têm sido premiados com regularidade em diversas competições internacionais, mas o título de melhor estúdio do ano, o prémio máximo desta competição europeia, tem um significado especial no contexto atual. Acreditamos que este prémio prestigia o país e contribui para divulgar o design português de um modo geral e não apenas o nosso trabalho.

Em termos de negócio, considera que pode ter influência na conquista de novos clientes?

Ao longo dos últimos anos constatámos que os prémios são muito valorizados pelos nossos clientes, fornecedores e parceiros - principalmente no que diz respeito às competições internacionais, em particular para aqueles cujo mercado passa pela internacionalização. A nível nacional ainda se mantêm o sentimento que o que é feito fora de portas é melhor, o que não é verdade, e estes concursos permitem provar isso mesmo; esperamos que este prémio contribua para alterar a forma como se olha para o design nacional. Estas competições podem ainda representar uma alavanca, promovendo não só o nosso trabalho, mas também os nossos clientes.

O vosso atelier está sedeado a Norte, no Porto. É aí que centram o foco do vosso trabalho?

Temos clientes locais, nacionais e internacionais. Obviamente muitos são do Porto, mas os nossos clientes encontram-se um pouco por todo o país, em particular em Lisboa. Temos também trabalhado com clientes internacionais, como a Gulbenkian Paris - com a qual trabalhamos regularmente - e destacamos a editora londrina Phaidon, e as revistas norte-americanas Men"s Health e Esquire Magazine.

Os trabalhos premiados são em diversas categorias. É uma diversificação necessária num mercado pequeno ou uma opção/gosto pessoal dado os vossos percursos enquanto designers?

O nosso trabalho é efetivamente transversal às diversas áreas do design, vai desde o editorial, design de exposições, sistemas de sinalética, identidade corporativa, cartazes, embalagem, instalações em espaços públicos, até ao web design . Sair fora da área de conforto de forma sistemática ao longo dos últimos 10 anos permitiu-nos ampliar o nosso conhecimento; implicou muito trabalho de investigação, mas foi uma opção deliberada. É uma abordagem exploratória, que têm vindo a dar frutos, quer ao nível da nossa capacidade de resposta quer a relativamente à própria evolução artística do nosso percurso enquanto designers. Nos últimos cinco anos alargamos mais o enfoque, incorporamos a componente de programação nos nossos projetos, uma abordagem ancorada pelo facto de sermos docentes do Curso de Design e Multimédia na Universidade de Coimbra. O leque de áreas que dominamos é importante em projetos de maior amplitude, como é o caso dos de imagem de identidade corporativa, cujo conhecimento adquirido nos permite dar respostas mais completas e alternativas.

Lançaram o vosso atelier em 1995 - anos bem diferentes do que hoje o país atravessa. Como avalia a evolução do design português? Sente que é mais valorizado enquanto disciplina pelos clientes?

Tudo mudou, em grande parte devido ao desenvolvimento tecnológico a que assistimos nos últimos anos, operando-se uma redefinição da própria disciplina - as suas fronteiras alargaram-se. Em Portugal, o design desenvolveu-se nas suas diferentes vertentes, descartando-se o trabalho das empresas e das universidades. Há uma consciência da sua necessidade e importância, mas falta ainda uma compreensão mais ajustada relativamente ao seu enorme potencial e ao papel e espaço que deve ser dado ao designer para que este possa fazer bem o seu trabalho. A ação do designer de comunicação é frequentemente vista como algo que acontece numa fase final, contudo, para que as mais valias sejam exploradas, deve acontecer precisamente o contrario. Hoje, tal como aconteceu em todas as outras áreas de criação em Portugal - e o design não é exceção - as condições de trabalho face à crise degradaram-se e o contexto em que se faz design é extremamente difícil.

Apesar deste contexto, os nossos clientes valorizam o design e percebem quais as nossas mais valias. Implica da parte de quem contrata ter visão suficiente para dar ao designer o espaço criativo necessário, permitindo-lhe explorar outros terrenos, em vez de replicar modelos.

Num momento em que o foco tem sido a exportação, considera que a criatividade portuguesa poderia ser uma oferta mais promovida no exterior? É algo em que o R2 está a apostar?

Em termos culturais a produção nacional tem passado uma imagem muito positiva do trabalho dos profissionais portugueses, seja na arquitectura, cinema, música, literatura, ilustração, moda ou no design. Em todas estas áreas Portugal tem brilhado, infelizmente é um potencial que não é devidamente explorado. A cultura não tem a atenção necessária, o que é estranho, porque traz benefícios a todos os outros setores económicos e posiciona um país como um lugar de excelência de cultura e desenvolvimento. No que diz respeito à R2, uma aposta na internacionalização face à atual situação do pais é inevitável, mas a nível nacional temos trabalhado também com empresas que se estão a internacionalizar.

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