Resíduos eletrónicos: o parente pobre da reciclagem

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Os tempos avançam, a tecnologia evolui e surgem recorrentemente cada vez mais (e melhores) telemóveis e eletrodomésticos. O fascínio pelo "novo" dá constantemente lugar ao que é considerado "desatualizado", mas o que é feito dos produtos que são substituídos? Muitos ficam esquecidos e perdidos em gavetas que são verdadeiros cemitérios de produtos, enquanto outros acabam depositados no lixo comum. Chamam-se resíduos eletrónicos e, no Dia Internacional do Resíduos de Equipamentos Elétricos e Eletrónicos, que se celebra a 14 de outubro, chamo à atenção para esta realidade, que representa um desafio para toda a população mundial.

Dados da ONU mostram que o mundo produziu em 2019 mais de 22 milhões de toneladas de resíduos de pequenos equipamentos eletrónicos - cerca de 40% de todo o lixo eletrónico gerado à escala global. Por outro lado, de acordo com o OndeReciclar, chegaram ao mercado português, só em 2020, 130 mil toneladas de equipamentos elétricos e, a continuar assim, o peso dos resíduos de equipamentos elétricos em todo o planeta em 2030 será equivalente a 7.390 Torres Eiffel, se não for feita reciclagem.

Mas há mais! No contexto europeu, anualmente, cerca de 1.4 kg de lixo eletrónico acaba por ser (erradamente) depositado no lixo comum, o que não permite o seu devido tratamento. Além disso, são guardados e esquecidos até 5 kg de dispositivos eletrónicos, por pessoa, um número que tem vindo a ganhar cada vez mais expressão e que levanta um problema sério, mas que antecipa também soluções. A uma delas dá-se o nome de Mineração Urbana e pode ser uma das ferramentas mais importantes da Economia Circular.

A mineração urbana caracteriza-se pela transformação de produtos em matéria-prima como metais ferrosos e não-ferrosos (ferro, ouro, prata, alumínio, cobre, etc), plástico, vidro, para serem reutilizados na produção de novas mercadorias. Este processo de obtenção de materiais permite evitar assim a necessidade de os extrair da natureza que é, por norma, a mineração tradicional. Esta técnica, embora ainda pouco explorada, recicla e coloca novamente em circulação materiais que foram descartados pelos consumidores e que, à partida, seriam depositados em aterros sanitários. Além de uma solução eficiente, a mineração urbana apresenta-se então como a opção ideal para ajudar a diminuir os impactos negativos no ambiente, mas para que seja feita esta reciclagem de materiais, é necessário que seja feito, em primeiro lugar, a reciclagem dos produtos.

A reciclagem é o primeiro passo para garantir o tratamento adequado destes produtos, durante o qual substâncias perigosas e com impacto para a saúde e para o ambiente serão removidas. Ademais, o correto tratamento dos produtos irá permitir então a recuperação dos materiais e componentes que poderão ser então reintroduzidos na produção de novos produtos, através do processo da mineração urbana, contribuindo para um menor impacto a nível económico e ambiental.

Para reciclar os eletrodomésticos e outros produtos eletrónicos em fim de vida, existem várias soluções, e - importante - todas elas são gratuitas. Em Portugal, os resíduos eletrónicos poderão ser depositados em Pontos de Entrega de REEE Ecocentros, Lojas EEE, onde é possível deixar os equipamentos em fim de vida caso seja comprado um novo com a mesma função. No caso dos objetos de dimensões maiores, é ainda possível entregar aos sistemas de recolha de resíduos que algumas câmaras já dispõem.

Se ainda não estava convencido de que a destralha é urgente, deixo novos dados para consideração. De acordo com o site Onde Reciclar, a média de equipamentos elétricos existentes numa casa europeia é de 72, sendo que 11 destes estão avariados ou já não são utilizados. Além disso, 80% das doenças nos países em desenvolvimento são causadas pela exposição a substâncias tóxicas que existem nos equipamentos elétricos, como mercúrio e cádmio.

Destralhar e libertar resíduos eletrónicos é a solução e é também o comportamento a adotar que apoiará os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU. É preciso garantir processos de produção e padrões de consumo mais sustentáveis para dar um passo em frente no caminho da Economia Circular. É preciso adotar todas as ferramentas valiosas da Economia Circular para assegurar um futuro. E o futuro... começa agora.

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