Foi numa viagem a Bali que na cabeça de Guilherme Guerra se fez luz. Cansado de correr o mundo com a prancha de surf debaixo do braço, imaginou um mundo perfeito onde seria possível alugar tudo o que quisesse. No regresso a Lisboa, decidiu criá-lo. Deixou o curso de medicina em banho-maria e aliciou dois amigos a abandonar a vida das nove às cinco numa consultora. Há um ano, pela mão de Guilherme, Francisco Bento e João Loff, nasceu a Rnters.
O conceito é simples. “É uma plataforma que permite às pessoas alugar objetos que não utilizem diariamente”, explica Francisco. Como por exemplo? “Alugamos muitos telemóveis de substituição, objetos de campismo, sistemas de som, bicicletas...”.
Uma ronda rápida pela plataforma comprova que na Rnters é mesmo possível alugar tudo. Desde uma chaleira a dois euros por dia, um espremedor de laranjas por um euro ou uma armadura de samurai autêntica por 600 euros.
Em média, o preço de cada aluguer é 90% mais baixo do que o custo de venda do produto, explicam os fundadores. “São produtos que as pessoas usam pouco e a compra acaba por não compensar. Um berbequim, por exemplo, é um produto caro que as pessoas utilizam apenas uns minutos por ano”, explica Guilherme.
O balanço do primeiro ano é positivo. Mais de dois mil utilizadores, cerca de mil produtos únicos e algumas dezenas de transações diárias, para já quase todas em Lisboa, por ser "mais fácil dar uma experiência muito boa ao utilizador".
Por norma, é a pessoa que aluga que combina com o proprietário a entrega do produto, mas os fundadores estão a testar outros modelos.
"Estamos a perceber que cerca de 80% das pessoas até estão disponíveis a pagar um extra para ter o produto entregue em casa. Estamos a testar esse modelo", sublinha Guilherme. O preço dos alugueres é definido pelos proprietários, com a Rnters a ganhar 20% de cada transação.
A startup funciona para já em regime low cost, com financiamento próprio. Levantar capital é a meta seguinte, e internacionalizar também está nos planos. “Queremos perceber primeiro quem são os nossos clientes e as variações que pode ter o modelo de negócio, para assegurar que é viável. Não queremos dar um passo maior do que a perna”, sublinha Francisco.
Os primeiros investimentos de marketing foram feitos este verão, 200 euros de cada vez. Até porque o "desenrasca" está no ADN da Rnters. Na Web Summit do ano passado, sem dinheiro para gastar num stand próprio, Francisco, Guilherme e João "invadiram" a cimeira tecnológica.
"No primeiro dia vimos as placas das startups, fomos a uma gráfica e mandámos fazer igual. No dia seguinte chegámos lá e colámos a nossa placa ao lado de outra startup. Eles descobriram e até acharam piada", lembra Guilherme.
O #PinheiroBombeiro que vai salvar o Natal
Há algumas semanas chegou-lhes uma proposta pouco habitual. Um amigo que tinha uma herdade para limpar na zona de Leiria pensou em alugar algumas dezenas de pinheiros para o Natal, cortados para prevenir incêndios.
Na cabeça de Guilherme e Francisco surgiu imediatamente outra ideia. “Crescemos na zona de São Pedro de Moel e o incêndio no Pinhal de Leiria foi como perder alguém muito próximo”, contam. A angústia da perda deu origem à campanha Pinheiro Bombeiro. As três dezenas de pinheiros transformaram-se em milhares.
O objetivo, além de dar às árvores uma segunda vida, antes da venda para biomassa, é utilizar o dinheiro para comprar material para os bombeiros voluntários, como máscaras e luvas.
A campanha tem o apoio da Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários, para que não haja dúvidas sobre a sua transparência, que segundo os fazedores, "tem faltado" noutras campanhas semelhantes.
Alugar um pinheiro custa 20 euros sem entrega, ou mais cinco euros com entrega no destino. A distribuição será feita a partir de 1 de dezembro, e é possível reservar as árvores até ao dia 10. O único ponto de recolha definido para já é o Hub Criativo do Beato, em Lisboa. Quem não quiser ou não puder ter um pinheiro real em casa, poderá no entanto contribuir para a causa com uma doação.
Para que o ciclo fique completo, os pinheiros terão de ser depois devolvidos à origem, entre 6 e 12 de janeiro. As receitas da venda para biomassa também irão reverter na totalidade para o combate aos incêndios.
E há uma casa em especial que os fazedores da Rnters querem decorar. ”Gostávamos que o Presidente Marcelo alugasse um pinheiro solidário este Natal”.