Solid Dogma. Vhils e Pedro fazem a ponte entre artistas e marcas

Criar objetos únicos e singulares para as marcas é o objetivo da agência que junta Alexandre Farto, aka Vhils, e Pedro Pires, designer especialista em branding. As marcas ganham comunicação que perdura no tempo, os artistas uma fonte para energizar financeiramente o seu trabalho.
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Para que tudo fique logo claro: a Solid Dogma não é o Vhils, nem Alexandro Farto será o único artista a quem a agência, que se propõe fazer a ponte entre o universo das artes e as marcas, vai recorrer. “A Solid Dogma não vai viver do Vhils enquanto artista. O Vhils não vai vir para aqui todos os dias fazer trabalhos para a Solid, nem fazer explosões para todos os anúncios e campanhas do mundo”, diz Pedro Pires, ex-diretor criativo da Ivity, que recentemente se juntou ao projeto fundado há uns anos por Vhils e que agora ganha um novo fôlego.

Querem criar arte em todos os media, mas rejeitam a ideia de que esta é uma agência de artistas. “Não somos artistas, somos comunicadores. Somos pessoas da comunicação, que têm uma relação com a área artística e que vai utilizar diferentes artistas”, explica Pedro Pires.

Para concretizar a promessa de criar arte em todos os media, a Solid Dogma poderá recorrer a Vhils para trabalhar alguns projetos, mas também a qualquer outro artista de outra parte do mundo. “O talento que temos acesso é mundial”, diz Pedro Pires, a escolha vai depender do projeto. E não se vão fechar no universo da street art. “Tenho um pouco de medo do que isso quer dizer e da maneira como isso encosta uma série de artistas a um canto e muitas vezes os limita no que conseguem fazer”, lamenta Alexandre Farto.

À unidade criativa fixa - onde se juntam André Santos, que já trabalhava com Alexandre Farto, Samuel Simões e Céu Lopes (ex-Ivity) e Diogo Potes (ex-Alva) -, a Solid Dogma pode ir buscar todo o tipo de artistas, de designers a performers, considerados os mais adequados para os projetos que fazem a ponte a entre o mundo das artes e as marcas. Esse é “um arame que vamos ter de percorrer”, admite Pedro Pires.

Há medos dos dois lados da ponte: os artistas temem ver a sua obra desvirtuada; as marcas que os ‘artistas’ não compreendam os seus objetivos e valores. “A ideia é criar essa ponte e, de alguma maneira, quebrar os dogmas, o que é onde normalmente as coisas boas vão surgindo”, frisa Alexandre Farto.

Conhecido em todo o mundo como Vhils - até já colocou uma obra, um retrato do astronauta dinamarquês Andreas Mogensen, na Estação Espacial Europeia -, Alexandre Farto desenvolveu através da Solid Dogma vídeos para marcas como a Mini, a Sprint ou a Levi’s. Também realizou um videoclip para os U2: Raised by Wolves. Um trabalho paralelo ao autoral visível em exposições como Dissecção/Dissection (Museu da Electricidade).

A Solid Dogma surgiu da “necessidade de criar espaços para artistas, de criar condições para criar projetos que nunca pensaram ser possível de serem realizados”, afirma Alexandre Farto. “Da maneira como as coisas estão instituídas é difícil para os artistas criarem sustentabilidade e ficarem independentes.”

Fazer a ligação com as marcas, criar sustentabilidade financeira para artistas, mas também trazê-los para novos contextos, para novos media que não tinham a possibilidade de explorar. “Trazer artistas para campos difíceis de conciliar [uma fábrica, por exemplo] tem potencial para criar algo único e, é nesse sentido, que o projeto pode ser uma mais valia em vários campos”, reforça. “Pessoalmente sempre tentei sair da zona de conforto, experimentar coisas novas é algo que me puxa bastante e sei de muitos artistas que gostavam de ter essa oportunidade para dedicar a novos caminhos. Muitas vezes é complicado, pelo facto de não conseguirem uma sustentabilidade para conseguir esse tempo”, diz Alexandre Farto.

E o que ganham as marcas? Uma comunicação que foge ao ruído do anúncio de 30 segundos, uma peça que se prolonga para lá da espuma dos dias. Pedro Pires exemplifica. “Quando uma marca como a Mini ou a Sprint pega numa explosão [do Vhils], além do fascínio visual que provoca, há uma transferência de valor para a marca, que dura mais”, diz. “A pessoa que vê vai procurar mais. Nesse momento, já está a interagir com a marca, a aprofundar o universo do artista. É onde estamos. Não é o ‘veja o anúncio e agora compre a garrafa’”, refere. “Estamos no mercado de construção de valor mais prolongado. A nossa oferta vai basear-se muito nisso: na criação de objetos, eventos, momentos singulares, únicos”, descreve Pedro Pires. “Não estamos a fazer isto para que as marcas passarem a passar briefings aos artistas.”

Eventos, brand intervention ou corporate social responsability (CSR) na área das artes são alguns dos serviços que a Solid Dogma vai oferecer às marcas. Esta última é uma nova área. Há marcas que têm a política de responsabilidade social no campo das artes muito definida, “até com fundações”, outras nem por isso. Não têm pessoas com essas competências de modo a definir a estratégia (quais as áreas/artistas a que se deve associar) e a gerir a sua implementação, de modo a rentabilizar essa associação à imagem pública da marca. A Solid Dogma “consegue pegar na estratégia da marca, adaptá-la a estes ambientes de responsabilidade social, programar e gerir essa presença”, explica Pedro Pires, que ainda na Ivity ajudou a Sonae a definir a política de associação da empresa às artes.

Solid Dogma é também um projeto que tem um foco no digital. “O que fizermos no mundo físico - seja um objeto de design, uma instalação, uma ativação, um evento ou um filme - tem de ter uma derivação online. Não só porque o produto cultural é apetecível nesses fóruns e acaba por se divulgar ele próprio, mas também porque isso pode ser uma fonte para podermos financiar determinados projetos”.

“Quebrando os dogmas” em breve a Solid e o atelier de Vhils vão mudar-se para um armazém da antiga Quimiparque, no Barreiro. “É um regresso às origens”, confessa Alexandre Farto, nativo do Seixal.

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