A meta foi traçada pela União Europeia: para cumprir o objetivo de descarbonizar a energia e atingir a neutralidade carbónica até 2050, o Grupo dos 28 precisa de, pelo menos, 10 a 20 vezes mais capacidade de produção de energia eólica offshore face ao cenário atual. O salto terá de ser gigantesco, dos atuais 20 GW de capacidade instalada em todo o continente para uns ambiciosos 230 GW, de acordo com Bruxelas.
A associação WindEurope vai ainda mais longe na ambição e garante que em meados do século é possível já ter o dobro desse valor: 450 GW de energia eólica offshore, sendo que 380 GW nascerão nos mares do Norte da Europa e os restantes 70 GW ficarão reservados para as águas do Sul, onde se inclui Portugal.
Tendo em conta o potencial do país, em 2050 existirão já 9 MW de capacidade eólica offshore instalada nos mares portugueses. Neste momento está ainda por nascer o primeiro parque eólico em águas portuguesas - Windfloat Atlantic, da EDP -, que terá uma capacidade de 25 MW.
Para chegar a um total de 450 GW em 2050, o investimento europeu no setor eólico offshore, incluindo redes, terá de disparar de cerca de seis mil milhões de euros por ano em 2020 para 23 mil milhões em 2030 e, depois disso, crescer ainda para 45 mil milhões de euros anualmente.
Estas são as principais conclusões do mais recente estudo da WindEurope – "A Nossa Energia, o Nosso Futuro" – apresentado esta terça-feira em Copenhaga, capital da Dinamarca, na abertura da conferência internacional Offshore 2019.
Para lá chegar, o ritmo anual de capacidade instalada terá de acelerar dos atuais 3 GW para 20 GW a cada ano, em 2030 e o investimentos nas redes elétricas offshore também terá de aumentar de menos de dois mil milhões de euros em 2020 para quatro vezes mais 10 anos depois: oito mil milhões de euros, em 2030. Além disso, refere o documento, por essa altura os governos europeus terão também de apostar forte nas redes de distribuição elétrica em terra, de 10 para 50 mil milhões de euros anualmente.
“A Agência Internacional para a Energia já declarou que a energia eólica gerada a partir de turbinas instaladas nos mares europeus será a principal fonte de geração de energia na Europa no início da década de 2040. O relatório da WindEurope mostra que este cenário é possível e é economicamente viável. Mas para isso é necessário: que o abastecimento de energia eólica offshore continue a crescer; que a rede elétrica seja aumentada e interligada; que o planeamento de espaço marítimo seja bem feito", comentou Giles Dickson, CEO da WindEurope, apelando aos governos europeus para fazerem a sua parte. "Se fizermos tudo isto, conseguimos chegar aos cenários que a Comissão Europeia e a AIE traçaram", garante o responsável.
O relatório da WindEurope mostra também em que geografias poderão ser instalados os necessários 450 GW de enegia eólica offshore a um preço mais competitivo. A conclusão é que que 212 GW deverão ser instalados no Mar do Norte, 85 GW no Mar Báltico, 83 GW no oceano Atlântico e 70 GW no Mar Mediterrâneo e outras zonas marítimas do Sul da Europa (onde se inclui o mar português).
Em Portugal, mantém-se para já a promessa feita pela pela EDP e pela REN para o eólico offshore: até ao final de 2019 (ou seja, daqui a pouco mais de um mês) deverá entrar em produção a primeira central flutuante – Windfloat Atlantic -, situada ao largo da costa de Viana do Castelo, composta por três turbinas de grandes dimensões e com ligação direta à rede elétrica nacional através de um cabo enterrado no fundo do mar.
O projeto pertence ao consórcio Windplus, detido conjuntamente pela EDP Renováveis (54,4%), ENGIE (25%), Repsol (19,4%) e Principle Power Inc. (1,2%). As três turbinas que irão compor o parque eólico estarão assentes em plataformas flutuantes gigantes, amarradas ao leito marinho, com uma capacidade instalada total de 25 MW, o equivalente à energia consumida por 60 mil casas ao longo de um ano
A cumprir-se esta meta, Portugal está assim muito perto de se juntar a outros países europeus que já apostam na energia eólica gerada a partir de turbinas instaladas em pleno mar. Em 2050, Reino Unido (80GW), Holanda (60GW), França (40GW), Alemanha (36GW), Dinamarca (35GW) e Noruega (30GW) serão as maiores potências do eólico offshore no continente, prevê a WindEurope
"A forma mais barata e eficiente do ponto de vista do espaço disponível no mar para chegar aos 450 GW de eólico offshore é através do uso do mesmo espaço marítimo por outros setores de atividade, em simultâneo, como a pesca. Por exemplo, os 380 GW previstos para os mares do Norte da Europa apenas exigiram 2,8% do total da sua área. A Europa poderá instalar 65% das suas necessidades de eólicas offshore (248 GW ) nos mares do Norte por menos de 50 euros/MWh em 2050. No entanto, a manterem-se as zonas de exclusão atuais, só será possível construir 112 GW nesse segmento de preço", refere o documento "A Nossa Energia", publicado pela WindEurope,
A associação europeia que promove a energia do vento salienta ainda: "O planeamento do espaço marítimo é crucial para baixar os custos de instalação, já que em pelo menos 60% dos mares do Norte da Europa já não é possível construir centrais eólicas offshore, hoje em dia, por razões ambientais ou de exclusão para as atividades de pesca, transporte marítimo de mercadorias ou uso das forças armadas".
A WindEurope garante que o setor elétrico e a indústria estão já a preparar-se para este cenário, "mas é crucial que os governos contribuam com estratégias para dar a confiança necessária aos investidores". Sem falar no planeamento necessário, com pelo menos uma década de antecedência, para construir e fazer crescer exponencialmente as redes de distribuição de eletricidade, tanto offshore como onshore.
Além disso, cabe à União Europeia estabelecer um enquadramento regulatório para as centrais eólicas offshore como ligações às redes de vários países. "Estes projetos híbridos permitirão partilhar infraestruturas e reduzir custos", remata o documento.
A jornalista viajou para Copenhaga a convite da WindEurope