Adrian Bridge: É preciso pagar "às pessoas para arrancarem as vinhas"

O gestor é o CEO da The Fladgate Partnership. O grupo faturou mais de 150 milhões de euros em 2025, e está a apostar fortemente na inovação em todas as suas áreas de negócio
O CEO da The Fladgate Partnership
O CEO da The Fladgate PartnershipD.R.
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Adrian Bridge fala num português escorreito, sem nunca perder o sotaque britânico. O CEO do grupo que detém marcas de vinho do Porto como a Crohn, Fonseca ou Taylor’s e outras de vinho de mesa - Principal (Bairrada), Bella (Dão) ou Quinta do Portal (Douro), recebeu o Dinheiro Vivo na cave da Taylor’s . Foi mais de uma hora de conversa, que passou por um olhar analítico da crise no Douro e por críticas à falta de decisão de quem está longe do terrreno. Para o gestor é muito claro que o Douro precisa de seguir tendências de outras regiões europeias e arrancar vinha, e defende ainda o fim do sistema de ‘benefício’, instituído no início do século XX.

Como avalia a atual crise no Douro e o sistema de benefício?

A minha opinião não muda muito em 20 e tal anos. A realidade é que temos uma estrutura com o ‘benefício’ que congela um sistema que era relevante em 1933, mas que já não é completamente relevante hoje em dia. Desde 2000 até 2015, a área plantada aumentou 25%. A grande dificuldade é que o Douro não está reestruturado. Temos muitos pequenos lavradores com contratos que não são rentáveis. Os lavradores profissionais (que tipicamente possuem entre cinco a dez hectares) têm videiras a mais, o que os impede de fazer o trabalho apenas com a família, obrigando-os a contratar terceiros. Como não têm escala suficiente para vender com marca própria, ficam muito dependentes de que terceiros ou grandes empresas comprem as suas uvas. Para mim, o benefício tem de acabar. Quem é contra a sua eliminação é porque não quer que a realidade do mercado tenha impacto no Douro. No mundo ideal, a reestruturação passaria por um modelo semelhante ao aplicado nos Estados Unidos ou noutros locais, onde se paga às pessoas para arrancarem as vinhas, em vez de dar dinheiro aos grandes produtores para o fazerem. Acho que vamos ter de arrancar vinha. Sem o papel do “benefício”, os pequenos produtores que não entregam uvas às cooperativas por falta de viabilidade produziriam apenas vinho para consumo próprio e familiar. Atualmente, já não é viável produzir exclusivamente Vinho do Porto. Com as limitações de produção para Vinho do Porto (onde, por exemplo, apenas cerca de um terço ou um quinto da produção de uma letra A pode ser convertida em Porto), os produtores têm de canalizar o restante para a produção de vinhos de mesa de qualidade como alternativa viável, em vez de converter as uvas excedentes em vinho barato de volume para mercados saturados

De que forma o aumento do salário mínimo e a falta de mecanização afetam a região?

O salário mínimo em Portugal aumentou 53% desde 2019. Embora isso seja justo para os trabalhadores, o Vale do Douro é uma região agrícola extremamente dependente de mão-de-obra e que não é fácil de mecanizar. Por causa disso, não tivemos tempo suficiente para reajustar o nosso negócio a este aumento rápido de custos. No entanto, estamos a tentar adaptar-nos: no ano passado, pela primeira vez, apanhámos uvas mecanicamente numa quinta perto de Alijó, onde fizemos 6,5 hectares num dia - o que normalmente levaria uma semana de trabalho para uma equipa grande. Mas para expandir a colheita mecânica, é preciso adaptar as adegas, o que exige investimento. É sempre um equilíbrio entre o investimento e a possibilidade.

Como analisa as pressões internacionais contra o consumo de bebidas alcoólicas?

Existe um lobby muito forte a nível mundial contra as bebidas alcoólicas, promovido por grupos que chamo de ‘neo-proibicionistas’. São os mesmos grupos do fim do século XIX, agora com novos nomes, que dispõem de muito dinheiro. Eles acham que, como já resolveram o problema do tabaco, o álcool é o próximo alvo, mas esquecem-se de que o tabaco não tem qualquer tipo de consumo positivo. O setor do vinho acaba por sofrer mais com este ataque porque é extremamente fragmentado e não tem a escala necessária para combater esta narrativa. O setor da cerveja consegue defender-se com as opções sem álcool, e os destilados são controlados por grandes grupos com muito mais força de marketing…

Como é que se sobrevive a isto? É com cautela e continuando a fazer investimentos estratégicos, para além destas mudanças estruturais que devem ser feitas?

Neste momento, o problema não é a falta de dinheiro, mas sim a falta de confiança, que vem da incerteza mundial das guerras, das opções do clima e da falta de liderança política. Precisamos de líderes que tomem decisões definitivas e que expliquem bem ao povo o porquê de as coisas serem feitas de determinada maneira, pois não é possível deixar toda a gente contente o tempo todo. Eu próprio não sou político porque não tenho a capacidade de tentar agradar a toda a gente; acho que isso é impossível. O que vemos hoje é que, por vezes, não se tomam decisões porque se prefere continuar a debater, ou porque há tanta informação disponível que se adia a decisão à espera de ter mais dados no dia seguinte. A minha formação é militar: nós tomamos decisões com a informação que temos no momento e avançamos.

O consumo de vinho do Porto tem caído bastante. Ainda há mercados novos a aparecer?

Temos de construir novos mercados. A Coreia é atualmente um excelente mercado e foi o nosso principal consumidor no centro de visitas da Taylor’s no primeiro trimestre do ano. A Índia tem um potencial incrível, planeando construir cerca de 700 novos aeroportos nos próximos 15 anos. Além disso, as famílias indianas têm o hábito cultural de relaxar e conversar após as refeições, o que é ideal para o vinho do Porto. Também vemos potencial de crescimento em países africanos como a África do Sul, Ruanda e Nigéria.

O que acha da medida do Governo de obrigar ao uso de aguardente do Douro na produção de vinho do Porto? Vai solucionar a crise?

Só a aguardente do Douro vai custar quatro vezes mais do que a que usamos atualmente. Neste momento, nós pagamos entre 1,70 e 2,50 euros por um litro de aguardente, mas a aguardente do Douro vai custar entre dez euros e 12 euros por litro. Como o vinho do Porto tem 20% de aguardente, o preço na prateleira terá de aumentar cerca de seis euros, passando para 11 euros. O consumidor vai reagir e não vai beber vinho do Porto; a sua garrafa no supermercado vai custar o dobro. Esta ideia é boa no papel e funciona bem politicamente porque se diz que o vinho do Porto passa a ser 100% português. Mas, operacionalmente, é muito má e implicará que um negócio de sete milhões de caixas baixe provavelmente para quatro milhões, existindo o potencial de eliminar completamente a base do vinho do Porto. O Douro é um dos locais mais caros para produzir uvas na Península Ibérica, pelo que usá-las para fazer aguardente não tem qualquer lógica. Esta decisão vai agravar muito a crise.

Então o que se pode fazer para contrariar a crise na região?

Controlar a quantidade e estimular a qualidade. O vale do Douro tem capacidade para fazer vinhos de alta qualidade. Devemos dar liberdade às pessoas, eliminar o benefício e permitir que decidam se querem transformar as suas uvas em vinho do Porto, vinho de mesa ou espumante. Defendo um sistema de liberalismo económico. O maior problema é o Governo tentar controlar o negócio sem assumir responsabilidades financeiras ou operacionais. Para arrancar vinhas, é preciso criar um pacote que tenha uma lógica. Devemos priorizar os pequenos lavradores, que têm menos capacidade de se adaptar à realidade, salvar os nossos lavradores profissionais - que são quem dá emprego na região - e preservar as melhores vinhas. Além disso, nós vendemos o nosso azeite por mais, por litro, do que o nosso vinho do Porto. Hoje pagam-se 20 euros por meio litro de azeite da Taylor’s no aeroporto. O mercado está preparado para pagar bem pelo azeite do Douro. Por isso, temos de perceber este sinal do mercado, investir na marca do azeite do Douro, arrancar algumas vinhas e plantar mais oliveiras, por exemplo.

Qual é a sua opinião sobre o facto a ViniPortugal não poder promover o Vinho do Porto no estrangeiro devido a questões legislativas?

Para mim, não tem grande lógica que não estejamos todos juntos dentro da marca ‘Vinhos de Portugal’, sob uma bandeira única para o nosso país que promova tudo. Ainda existe aquela ideia, de há duas gerações, de que o Vinho do Porto não precisa de ajuda porque é um negócio de ricos bem estabilizado, mas hoje em dia isso já não é real. Atualmente, os produtores também têm de fazer vinho de mesa, porque não é possível produzir apenas Vinho do Porto. Se não tivermos a coragem de tomar esta decisão de união e continuarmos a adiar de ano para ano, será pior.

A The Fladgate Partnership investiou mais de 100 milhões no World of Wine mesmo antes de pandemia. Como foram as contas do ano passado e que contributo o Turismo tem dado para a vossa solidez financeira?

Nos últimos anos, nós perdemos dinheiro com o Vinho do Porto, mas felizmente o setor do turismo tem compensado essas perdas. Em 2025, o nosso grupo faturou cerca de 150 milhões de euros, o que nos coloca acima dos valores de 2019. Conseguimos isto porque abrimos novos negócios, aproveitámos o crescimento do turismo e investimos, em 2023 e 2024, em vinhos de mesa. Embora o WOW continue com prejuízos, está em fase de crescimento. E está a correr bem. Temos tido o apoio da cidade - este presidente entende a importância do WOW, que chamou investidores para a área. A recuperação da zona aqui à volta representa um impacto de 600 milhões de euros…

Houve relatos de muitos cancelamentos de encomendas de uvas a produtores da região. A sua empresa reduziu a compra de uvas aos produtores este ano?

Sim, diminuímos as nossas compras de uva em 25% este ano. Tomámos esta decisão porque as regras nos obrigam a pagar as uvas até ao dia 15 de janeiro. Como não sei exatamente qual será o nosso nível de vendas até dezembro, preferi não assumir um compromisso financeiro que pudesse falhar nessa data. Para ajudar os produtores nesta fase, a única solução é o Governo intervir com um fundo de financiamento ou uma garantia bancária que apoie as empresas nas compras, permitindo maior flexibilidade.

Que inovações e tecnologias têm implementado para reduzir custos e atrair consumidores?

A inovação é fundamental para nós. Lançámos um Vinho do Porto Branco muito velho (VLP), com mais de 80 anos, que é um produto histórico e especial capaz de atrair novos consumidores e resgatar antigos. Na área da eficiência, lançámos uma nova garrafa mais leve para a Taylor’s, reduzindo o peso de 600g para 440g. Isto permite-nos poupar no custo do vidro, no transporte e nos impostos ecológicos no Reino Unido, onde existe a taxa “extended price responsibility” baseada no peso da garrafa, que foi implementada recentemente. Também introduzimos robôs nas linhas de engarrafamento para substituir tarefas repetitivas, usamos Inteligência Artificial para o planeamento administrativo e utilizamos drones para analisar a saúde das videiras e aplicar tratamentos agrícolas de forma seletiva.

Se olhar para um horizonte de cinco anos, qual considera ser o maior desafio para o setor?

O maior desafio vai ser o clima, com toda a certeza, porque o mundo está desregulado neste momento e esta não é uma situação fácil de retificar. O peso térmico dos nossos oceanos está mais alto, o que faz com que evaporem mais água e isso implica mais tempestades. O clima que temos hoje é fruto do que foi feito há dez ou 15 anos. Ainda assim, continuo otimista. O mundo funciona em ciclos e, embora o consumidor esteja atualmente preocupado e a gastar menos, a capacidade humana e a inventividade para dar a volta a estas situações de forma rápida é incrível.

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