Douro: viticultores falam em “tragédia” e pedem ajuda ao Governo

Crise Casa do Douro quer intervenção urgente do Governo, após receber vários cancelamentos de encomendas. Oferta supera largamente a procura e uvas devem ficar nas videiras
Douro: viticultores falam em “tragédia” e pedem ajuda ao Governo
Reinaldo Rodrigues / Global Imagens
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A Casa do Douro denunciou o cancelamento de várias encomendas, e pede, mais uma vez, a intervenção do Governo para fazer face ao agravar da crise na região do Douro.

“Fomos confrontados agora, nesta altura do ano, [pelas] casas a quem vendemos as uvas que, ou não querem uvas, ou apenas querem as uvas destinadas para o vinho do Porto, sem ainda qualquer tipo de preço. Ou seja, temos uma produção e uma colheita [que] praticamente irá ficar na vinha, porque neste momento ninguém quer uvas”, disse à Lusa Marinete Alves, que faz parte do Conselho Regional da Casa do Douro.

Já no mês passado, em conversa com o Diário de Notícias, um dos produtores de vinho do Porto e do Douro, Oscar Quevedo, tinha avisado para o cenário que se adivinhava para esta próxima campanha. “Estamos com capacidade instalada de vinhas para para níveis de consumo de há 30 anos ou 20 anos, quando hoje em dia, no caso do vinho do Porto, esse consumo caiu em pelo menos um terço. Senão mais. E isso causa um desequilíbrio brutal. Porque quem produz uvas vê sistematicamente a autorização de produção de vinho do Porto a reduzir - e essa autorização é paga a cerca de 1,5 euros por quilo. Já as uvas para vinho de mesa do Douro são pagas a 70 cêntimos...”, avisava.

Marinete Alves adiantou ainda que existem produtores da Região Demarcada do Douro (RDD) que vão iniciar a vindima das uvas destinadas a vinho espumante já no início de agosto. “Contactámos outras empresas para saber se querem uvas e a resposta que nos dão é que não, só querem uvas destinadas para o [vinho do] Porto, que é o cartão do benefício, fora isso, ninguém quer mais uvas”, afirma. “Os viticultores estão numa situação completamente catastrófica, estão desesperados, porque têm um ano de trabalho em que gastaram todo o seu rendimento e não têm agora forma de o recuperar”, frisou a responsável.

Recorde-se que já nos últimos anos este tem sido o cenário geral no Douro - um grave desequilíbrio entre oferta e procura - com o decréscimo de consumo a justificar o aumento consecutivo de inventário. No ano passado, a produção na região escorregou cerca de 40%, mas ainda assim não foi o suficiente para escoar o stock existente, e para mitigar o impacto financeiro nos produtores, que há anos veem os seus rendimentos reduzir.

De acordo com Marinete Alves, as casas exportadoras justificam os cancelamentos com a dificuldade em escoar vinho. “O motivo que apresentam é que não conseguem fazer escoamento do vinho, que têm muito ‘stock’, mas é um contrassenso, [porque] aumentaram o [benefício] da produção de Porto em mil pipas. Depois, dizem que não temos uvas suficientes na região para a produção de aguardente e vinho, mas depois temos uvas em excesso, [que] vão ficar na vinha. Há um monopólio do comércio em que os viticultores estão sob uma dependência económica brutal e só fazemos o que eles querem”, reiterou, pedindo ao Governo que acolha a recomendação do partido Juntos Pelo Povo (JPP), aprovada na Assembleia da República [em 17 de junho], que permite adquirir uvas destinadas à destilação a, pelo menos, 90 cêntimos[...] Isto é um apelo urgentíssimo”, reiterou.

*com Lusa

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