Esta entrevista faz parte de uma série de conversas que o Dinheiro Vivo/DN teve com enólogos e produtores, em plena época de vindimas, sobre o estado da arte do setor e os desafios dos próximos anos.
A seca prolongada, na sequência das alterações climáticas, está a tornar-se estrutural no setor. Que evidências têm de que o modelo produtivo atual continua a ser compatível com o novo regime climático?
Apesar de a seca ser um dos grandes desafios estruturais da viticultura, este ano acabou por ser relativamente generoso do ponto de vista da pluviosidade. Tivemos um inverno rigoroso, com boa acumulação de água no solo, o que permitiu que muitas vinhas, sobretudo as instaladas em solos com elevada capacidade de retenção de água, atravessassem o ciclo vegetativo em condições bastante favoráveis. O verdadeiro desafio está nos solos mais pobres e muito permeáveis, onde a água disponível se perde rapidamente. Além disso, o aumento gradual das temperaturas faz com que a videira tenha uma maior necessidade hídrica, devido ao aumento da evapotranspiração. Isso significa que a água perdida pela planta terá de ser reposta de alguma forma para garantir o equilíbrio vegetativo e a qualidade da produção.
As vinhas conduzidas em sequeiro, especialmente nas regiões mais quentes do país, estarão cada vez mais expostas ao risco de stress hídrico. No entanto, a resposta não pode passar simplesmente por regar mais. A água será um recurso cada vez mais escasso e, por isso, a rega terá de ser muito mais eficiente, baseada em critérios técnicos e em tecnologias que permitam fornecer apenas a água estritamente necessária. Acredito que a viticultura portuguesa continua a ser perfeitamente compatível com o novo contexto climático, mas terá obrigatoriamente de evoluir. Teremos de investir numa gestão mais inteligente da água, na escolha criteriosa de castas e porta-enxertos, em práticas de conservação do solo e numa viticultura mais resiliente. O futuro não passa por utilizar mais recursos, mas por utilizá-los melhor.
Que quebra de produção antecipam – se é que antecipam – este ano e até que ponto essa redução ameaça a viabilidade económica das explorações mais pequenas?
Para já, não antecipo quebras significativas de produção. Pelo contrário, tudo indica que a vindima deste ano será globalmente superior, em quantidade, à do ano passado. As condições meteorológicas ao longo do inverno e da primavera permitiram um bom desenvolvimento da vinha e, na maioria das regiões, o potencial produtivo apresenta-se equilibrado. O principal fator de preocupação continua a ser o escaldão, um fenómeno que se tem tornado cada vez mais frequente devido aos episódios de calor extremo. Em poucos dias é possível perder parte da produção ou comprometer a qualidade da uva, sobretudo nas parcelas mais expostas.
Felizmente, a viticultura também tem evoluído para responder a esta realidade. Hoje recorremos cada vez mais a estratégias de gestão da vegetação, ajustando a condução da vegetação, protegendo melhor os cachos da exposição direta ao sol e procurando manter um equilíbrio entre maturação e proteção da uva. Estas práticas têm permitido minimizar significativamente o impacto dos episódios de calor extremo. Naturalmente que existem diferenças entre regiões e entre explorações, mas, de uma forma geral, não considero que esta seja uma vindima marcada por uma quebra de produção. Pelo contrário, tudo aponta para uma campanha quantitativamente positiva, mantendo-se o desafio de preservar a qualidade perante fenómenos climáticos cada vez mais extremos e imprevisíveis.
Com custos de água, energia e mão de obra em máximos históricos, que margens operacionais esperam manter? Há risco real de encerramentos ou consolidação forçada no setor?
Este é, provavelmente, um dos maiores desafios que o setor enfrenta e, paradoxalmente, um dos menos discutidos. Há vários anos que os produtores têm vindo a absorver sucessivos aumentos nos custos de produção — desde as matérias-primas, à energia, aos materiais de embalagem, aos produtos enológicos, aos transportes e, naturalmente, à mão de obra. No entanto, esses aumentos raramente são refletidos no preço final do vinho. Na prática, o consumidor continua a encontrar vinhos a preços muito semelhantes aos de há alguns anos, sobretudo nas grandes superfícies, onde existe uma enorme resistência à atualização dos preços por parte da distribuição. Isso significa que quem tem suportado a quase totalidade da pressão inflacionista são os próprios produtores e os agricultores que também lhes vendem uvas! Pede-se resiliência à vinha, perante alterações climáticas, perante a inflação, mas quem a salva são os agricultores e produtores que lá trabalham e investem todos os dias.
O baixo valor das uvas e a quebra contínua das margens operacionais não é sustentável a médio prazo. Nenhuma atividade económica consegue sobreviver indefinidamente quando os custos aumentam de forma consistente e as receitas permanecem praticamente inalteradas. Mais cedo ou mais tarde, o mercado terá de reconhecer o verdadeiro valor do vinho e o custo da sua produção. Caso contrário, veremos inevitavelmente uma maior concentração do setor, com os produtores de menor dimensão a enfrentarem dificuldades crescentes para manter a sua atividade. Não porque lhes falte qualidade ou capacidade técnica, mas porque o atual modelo económico está a tornar-se incomportável. É fundamental que toda a cadeia de valor compreenda que não é possível continuar a exigir mais qualidade, mais sustentabilidade e mais investimento, pagando o vinho como se os custos de produção tivessem permanecido iguais aos de há dez anos.
Como é que a redução de volume e a alteração do perfil dos vinhos afetam a capacidade de competir em mercados externos onde o preço e a consistência são decisivos?
Não considero que estejamos perante uma alteração significativa do perfil dos vinhos portugueses devido às alterações climáticas. É verdade que, em muitas regiões, a uva atinge a maturação mais cedo do que acontecia há algumas décadas, mas isso significa, acima de tudo, que temos de nos adaptar ao calendário da vindima. Se a vinha está pronta mais cedo, temos de vindimar mais cedo. A viticultura sempre foi uma atividade de adaptação à natureza. Do ponto de vista enológico, não vejo que os vinhos portugueses estejam hoje descaracterizados pelo aumento das temperaturas médias do verão. O conhecimento que adquirimos sobre a vinha, a gestão do coberto vegetal, a escolha do momento ideal de colheita e as técnicas de vinificação permitem-nos continuar a produzir vinhos equilibrados e fiéis à identidade de cada região.
A competitividade do setor não depende apenas do preço nem da quantidade produzida. Portugal distingue-se por aquilo que poucos países conseguem oferecer: uma enorme diversidade de castas autóctones e uma extraordinária riqueza de ambientes. São precisamente essa autenticidade e essa diversidade que tornam os nossos vinhos únicos nos mercados internacionais. É nessa diferenciação que devemos continuar a investir. Em vez de tentarmos competir com os grandes produtores mundiais através do volume ou do preço, devemos reforçar aquilo que nos torna verdadeiramente especiais: a originalidade das nossas castas, a identidade das nossas regiões e a capacidade de produzir vinhos com personalidade própria. É esse o caminho para continuarmos a crescer nos mercados externos.
Como se combate esta nova vaga de campanha contra o consumo de vinho, em todo o mundo, mas de forma particular em Portugal, onde há cada vez mais vozes a alertar para os efeitos nocivos do seu consumo?
A melhor forma de responder a essa tendência é através da informação, da ciência e da educação. Não podemos permitir que o debate seja dominado por posições extremadas, que colocam todas as bebidas alcoólicas no mesmo plano e ignoram o contexto cultural, gastronómico e social do vinho. Naturalmente, ninguém defende um consumo excessivo ou irresponsável. O vinho deve ser consumido com moderação, integrado numa alimentação equilibrada e num estilo de vida saudável. Essa sempre foi a mensagem do setor e deve continuar a sê-lo. Mas o vinho é muito mais do que uma bebida alcoólica. Ao longo de milhares de anos de civilização, fez parte da nossa cultura, da nossa agricultura, da nossa gastronomia e da forma como nos relacionamos. É um produto que promove o convívio, a partilha à mesa e a socialização entre as pessoas. Reduzir o vinho apenas ao teor alcoólico é ignorar toda esta dimensão histórica, económica e cultural.
Vivemos numa sociedade que, por vezes, parece querer transformar a alimentação num exercício exclusivamente funcional, onde tudo se resume a nutrientes, calorias e proibições. Mas a alimentação é também prazer, tradição, identidade e relações humanas. O vinho, quando consumido de forma responsável, faz parte desse equilíbrio. Por isso, acredito que o caminho não é a demonização, mas sim a educação para um consumo consciente e moderado. É dessa forma que protegemos a saúde pública sem perder um património cultural que faz parte da identidade de Portugal e de muitos outros países produtores.
Que investimentos estão a ser feitos e decisões concretas estão a ser tomadas para adaptar a vinha ao novo clima e à nova realidade de consumo?
Os principais investimentos que o setor deve continuar a fazer são aqueles que aumentam a resiliência da vinha perante os fenómenos extremos associados às alterações climáticas. Falo de uma gestão mais eficiente da água, da preservação dos solos, da escolha de porta-enxertos mais adaptados, da proteção da copa contra o calor excessivo e de todas as práticas vitícolas que permitam reduzir o impacto de episódios de seca, ondas de calor ou precipitação intensa. Quanto às tendências de consumo, não acredito que devamos tomar decisões estruturais na vinha em função de modas passageiras. A vinha é uma cultura perene, com um ciclo de vida de várias décadas. Não se replanta uma vinha da mesma forma que se altera uma cultura anual. As decisões que tomamos hoje terão impacto durante muitos anos e, por isso, têm de assentar numa visão de longo prazo.
Isso não significa ignorar a evolução dos mercados. Pelo contrário, devemos estar permanentemente atentos, bem informados e preparados para ajustar a forma como comunicamos, comercializamos e valorizamos os nossos vinhos. Mas a essência da viticultura portuguesa não deve mudar ao sabor de tendências momentâneas. O nosso maior ativo continua a ser a diferenciação. Temos castas únicas, ambientes muito distintos e uma enorme diversidade de estilos de vinho. É esse património que devemos preservar e reforçar, adaptando-nos às alterações climáticas com inteligência e inovação, sem perder a identidade que torna os vinhos portugueses reconhecidos e valorizados em todo o mundo.
7. Se as condições climáticas e as reduções sucessivas de consumo dos últimos anos se mantiverem, qual é o cenário mais realista para o setor vitivinícola português nos próximos cinco anos?
Se a atual tendência de redução do consumo se mantiver, acredito que o setor terá inevitavelmente de se ajustar. É provável que exista uma redução da área de vinha, que algumas adegas encerrem atividade e que assistamos a um processo de consolidação, sobretudo entre os operadores com maior fragilidade económica. Isto não significa, necessariamente, uma crise do vinho português. Significa que a oferta terá de se adaptar à procura. O setor não pode continuar a produzir os mesmos volumes se o mercado está a consumir menos. Esse ajustamento faz parte da evolução natural de qualquer atividade económica. Naturalmente, é uma realidade difícil, sobretudo para os pequenos produtores, mas também é verdade que estes momentos obrigam as empresas a inovar, a ganhar eficiência e a criar maior valor acrescentado. No final, tenderão a permanecer os projetos mais bem preparados, mais diferenciados e mais capazes de responder às exigências dos consumidores e dos mercados internacionais.
Portugal tem uma enorme vantagem competitiva: produz vinhos únicos, com castas autóctones e terroirs de grande identidade. O futuro não passa por produzir mais, mas por produzir melhor, comunicar melhor e vender com maior valor. Estou convencido de que os projetos que apostarem na qualidade, na diferenciação e numa gestão profissional continuarão a ter um futuro sólido, mesmo num mercado mais exigente.
Quais considera serem os principais desafios desta vindima e do próximo ano para o setor, em Portugal?
Os principais desafios da vindima continuam, em grande medida, a ser os mesmos, embora se tenham intensificado nos últimos anos. A escassez de mão de obra continua a ser um dos maiores constrangimentos, podendo comprometer a capacidade de vindimar no momento ideal e afetar diretamente a qualidade da uva que chega à adega. Ao mesmo tempo, temos de lidar com fenómenos climáticos cada vez mais extremos e imprevisíveis. Ondas de calor, episódios de escaldão, granizo ou chuvas intensas obrigam os produtores a uma vigilância permanente e a uma enorme capacidade de adaptação. Hoje, fazer viticultura exige muito mais rapidez na tomada de decisões do que há duas ou três décadas. Mas, na minha opinião, o maior desafio do setor continua a ser o mercado. Trabalho com dez produtores, distribuídos por cinco regiões vitivinícolas de Portugal, e todos enfrentam a mesma realidade: é fundamental consolidar os mercados onde já estamos presentes, conquistar novos destinos de exportação e conseguir criar valor para os nossos vinhos.
Portugal não pode competir apenas pelo preço. A nossa força está na autenticidade, na diversidade das castas, na riqueza dos terroirs e na consistência da qualidade que conseguimos entregar, ano após ano. O grande objetivo deve ser continuar a produzir vinhos genuínos, com identidade, capazes de conquistar consumidores em todo o mundo e, dessa forma, contribuir para elevar cada vez mais o prestígio do vinho português.