Nuno Ferro, 'brand Leader' da Experis
Nuno Ferro, 'brand Leader' da ExperisFoto: Carlos Pedrosa / Experis

"A liderança de topo não necessita de dominar a tecnologia. O que é importante é que compreenda o potencial estratégico"

Fosso entre administrações e diretores de TI agrava-se a nível global, com 61% dos executivos a não entenderem a função tecnológica. Em Portugal, a Experis alerta para o perigo de investimentos "reativos e fragmentados" nas PME e aponta uma escassez de talento recorde de 85% no setor.
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A velocidade vertiginosa da inovação digital e a pressão para transformar a Inteligência Artificial (IA) em rentabilidade mensurável estão a expor uma fratura no topo das empresas: a distância entre os decisores de negócio e os responsáveis pela tecnologia. A nível mundial, 61% dos diretores de Tecnologias de Informação (Chief Information Officers – CIO) admitem que a sua própria administração não compreende a sua função nem as exigências operacionais e técnicas da área — um agravamento face aos 49% registados no ano anterior.

O diagnóstico surge no relatório Experis 2026 CIO Outlook, promovido pelo ManpowerGroup com base nas respostas de quase dois mil líderes tecnológicos em 12 economias desenvolvidas no mundo. Pela primeira vez, alinhar a estratégia tecnológica com os objetivos corporativos ultrapassou a cibersegurança como a principal prioridade dos CIO (48% contra 34% em 2025). A perceção de alinhamento efetivo caiu, no entanto, para 77%, num cenário em que o ritmo acelerado da mudança técnica já é a maior barreira à gestão para 44% dos inquiridos.

E que impacto tem este fosso num país onde mais de 99% do tecido empresarial é composto por pequenas e médias empresas? Ao DN/Dinheiro Vivo, o Brand Leader da Experis Portugal, Nuno Ferro, recusa preconceitos sobre a gestão tradicional, mas deixa um alerta claro: "A liderança de topo não necessita de dominar a tecnologia. O que realmente é importante é que possa compreender o potencial estratégico, analisar riscos e impactos e criar as condições para que a tecnologia crie valor".

Perigo da fragmentação nas PME

Este desencontro entre as administrações e as equipas de informática ganha contornos ainda mais evidentes nas organizações mais pequenas. "Nas empresas de menor dimensão, onde as decisões estão frequentemente concentradas num número reduzido de gestores, esta visão pode ter um impacto particularmente significativo", diz Nuno Ferro. "Quando a liderança compreende o potencial da transformação digital, torna-se mais fácil definir prioridades, acelerar decisões e mobilizar a organização. Quando essa compreensão não existe, o investimento tecnológico tende a ser mais reativo e fragmentado".

Uma fragmentação que se traduz frequentemente no erro de encarar a inovação "como um centro de custos ou uma função de suporte, em vez de ser integrada nas decisões estratégicas, como uma alavanca de crescimento".

"O maior risco não é investir em Inteligência Artificial, mas fazê-lo sem uma estratégia clara, objetivos mensuráveis e preparação das pessoas"

Os dados desagregados do estudo para as médias empresas (entre 50 e 249 trabalhadores) revelam que a urgência de aproximação ao negócio é sentida com especial vigor neste escalão, realça o especialista: 56% destes líderes colocam o alinhamento estratégico no topo das prioridades — um valor oito pontos percentuais acima da média global do relatório. Paralelamente, metade (50%) já identifica a integração de ferramentas como a IA e a computação na nuvem como oportunidade direta de criar valor.

Evitar a armadilha do "hype"

A maturidade do mercado está também a ditar o fim do cheque em branco para a Inteligência Artificial. Se a nível global 54% dos inquiridos afirmam já obter retorno positivo (ROI) dos projetos de IA, quase um terço (31%) teme que as suas organizações estejam a investir em excesso. Mais revelador: quando questionados sobre onde reside o retorno mais sólido, a infraestrutura escalável e os serviços na nuvem (41%) continuam a bater a automação e as soluções de IA (34%).

Para o mercado nacional, Nuno Ferro defende que "o retorno não depende exclusivamente da dimensão da empresa, modelo de negócio ou da sofisticação da sua infraestrutura tecnológica, mas sobretudo da capacidade de identificar problemas concretos, implementar soluções adequadas e medir os resultados alcançados".

O responsável salienta que há ganhos imediatos ao alcance de empresas mais modestas em áreas como "o suporte ao cliente, a automatização de tarefas administrativas, a gestão documental e o apoio às equipas comerciais", através de projetos de âmbito limitado e custos controlados. Ainda assim, avisa: "O maior risco não é investir em Inteligência Artificial, mas fazê-lo sem uma estratégia clara, objetivos mensuráveis e preparação das pessoas".

O paradoxo da soberania

O relatório global aponta também para uma aparente contradição de fundo: enquanto 81% dos líderes elegem a soberania digital e o controlo de dados como prioridade crítica, 67% planeiam aumentar a dependência de serviços externos em regime de offshore e nearshore para baixar custos e contornar a falta de pessoal qualificado.

Em Portugal, a escassez de recursos humanos assume mesmo contornos dramáticos: segundo os dados do Global Talent Shortage Survey 2026 do ManpowerGroup, citados pela Experis, a falta de talento no setor de Tecnologia e Serviços de TI atinge os 85% no mercado nacional.

Esta pressão coloca o país numa encruzilhada estratégica. Se a atração de centros internacionais de competências gerou investimento e emprego qualificado, também encareceu e dificultou a retenção de cérebros pelas empresas portuguesas.

Mas o panorama não é assim tão preto e branco: "A soberania digital não exige que todas as atividades tecnológicas sejam executadas dentro da organização ou do país. Implica, sim, preservar o controlo sobre os dados, os sistemas críticos, as decisões estratégicas e as competências essenciais", argumenta Nuno Ferro.

Para o Brand Leader da consultora, o futuro de Portugal não pode passar pela estagnação na base da cadeia: "O desafio [do país] é evoluir de um posicionamento assente sobretudo no fornecimento de talento competitivo para outros mercados para uma participação crescente em atividades de maior valor acrescentado, com maior responsabilidade tecnológica, inovação e envolvimento nas decisões estratégicas".

"Portugal não deve ambicionar ser apenas um fornecedor de talento tecnológico para outros mercados", conclui. "Deve afirmar-se também como um centro de competências, inovação e criação de valor".

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