

Alexandra Andrade, CEO da Adecco Portugal, defende que as empresas têm de se tornar máquinas de formação. Lembra que também é necessário apostar em salários mais competitivos, na produtividade, tecnologia, inclusão e melhor liderança.
A falta de trabalhadores está a condicionar o crescimento económico do país?
Estamos a viver uma transformação estrutural do mercado de trabalho. A escassez de talento é hoje uma questão de competitividade económica. Existem muitas empresas que não estão a crescer por falta de trabalhadores. Temos o envelhecimento da população, a saída dos jovens para fora, mas há também um desajustamento entre as competências disponíveis no mercado e as necessidades das empresas. A escassez já não é só nas funções mais especializadas, é também nas menos especializadas, onde temos muitos estrangeiros. A Adecco emprega mais de 12 mil pessoas e 30% são estrangeiros. O fecho de portas de Portugal vai acentuar a escassez de talento disponível em áreas menos qualificadas. Muitos profissionais, por exemplo, brasileiros, já estão a procurar outras geografias.
Essa “fuga” deve-se ao fecho de portas ou aos salários?
Os brasileiros que chegaram há alguns anos a Portugal, que desenvolveram um bom trabalho, vão para o espaço Schengen ou para a vizinha Espanha se veem uma oportunidade de trabalho. Têm melhores condições salariais, melhores condições de vida, tendo em conta o custo de vida. A crise de habitação que estamos a viver torna muito difícil ter uma casa condigna em Lisboa ou nos arredores. Cada vez mais essa pressão faz com que procurem outras oportunidades fora de Portugal. Todo o contexto nacional é uma barreira.
Quais são as vagas mais difíceis de preencher?
São precisos profissionais na área de inteligência artificial, cibersegurança, desenvolvimento de software especializado, cloud e automação. Há uma grande escassez nestas áreas, porque as tecnologias têm avançado mais rapidamente do que nós somos capazes de formar pessoas. Faltam técnicos de manutenção industrial, de automação, de engenharias especializadas. Na saúde, faltam enfermeiros, médicos de determinadas especialidades, técnicos especializados. Na saúde, é muito fácil ir para fora, porque temos excelentes escolas de formação e não damos condições para que este talento permaneça em Portugal. Na área da construção e energia, que tem crescido bastante, precisamos de eletricistas, técnicos de energias renováveis, profissionais de construção especializados. Na logística, precisamos de motoristas, técnicos de operações – motoristas são das profissões mais difíceis de encontrar.
Na hotelaria, não existem profissionais suficientes disponíveis para trabalhar sobre pressão de horas, salários baixos, com dificuldades de transporte para irem trabalhar. Muitas empresas como a nossa facilitam o transporte, porque não existe outra solução.
Temos vários centros de serviços globais, orientados para áreas financeiras, de recursos humanos, de tecnologias de informação, e há várias empresas que estão a instalar-se no país. Mas, cada vez mais, existe a pressão de não termos suficientes profissionais.
Como se resolve um problema desta dimensão?
Para não limitarmos a expansão destas operações e perdermos o investimento futuro para outros mercados, a única solução é investir em competências. A escassez de talento não significa só a falta de pessoas, significa também falta de competências certas. As empresas têm que se tornar máquinas de formação. Têm de requalificar e aperfeiçoar as competências dos trabalhadores. Em primeiro lugar, as empresas devem identificar as competências necessárias para poder executar a sua estratégia, não só ao dia de hoje, mas a três, cinco anos. Uma pessoa que trabalha na área de apoio ao cliente pode desenvolver competências para trabalhar em vendas ou em operações digitais. Um trabalhador da indústria pode receber formação em automação ou manutenção de equipamentos inteligentes.
As empresas estão sensíveis a essa necessidade?
As empresas mais organizadas já perceberam esta realidade. Estão a investir na formação, porque é a única forma de continuarem a crescer. As empresas devem identificar as competências necessárias para o seu futuro e, em vez de contratarem exclusivamente com base na experiência, devem contratar pessoas que podem receber formação. Há talento subaproveitado. Temos muitos profissionais com mais de 50 anos, pessoas com deficiência, jovens sem emprego ou formação, e podemos formá-los à nossa imagem. Temos talento internacional. A inclusão também é uma estratégia para atacar esta área.
Em certas profissões os salários também não são atrativos.
A remuneração é muito importante. É preciso um salário competitivo. Mas se o profissional tiver estabilidade e perspetivas de carreira vai querer ficar na empresa. Hoje, neste contexto de escassez de trabalhadores, quando as pessoas não estão satisfeitas mudam rapidamente. O candidato é rei.
Neste contexto, como aumentar a produtividade?
As empresas não resolvem este problema só a contratar. Têm de combinar salários mais competitivos, produtividade, qualificação, tecnologia, inclusão, melhor liderança. Precisam de ter visão integrada. O país não vai ser mais competitivo por trabalhar mais horas, mas por conseguir criar valor acrescentado em cada hora que trabalha. Se as empresas não puderem investir em tecnologia, em processos, em ter bons líderes, uma boa organização, não vão conseguir. A Inteligência Artificial (IA) pode acelerar a convergência de produtividade com a Europa, mas instalar tecnologia não é suficiente. Temos que formar pessoas, redesenhar processos, desenvolver competências, medir, porque muitas vezes não medimos os ganhos de produtividade. A IA não deve servir apenas para fazer o mesmo com menos pessoas, deve permitir criar mais valor com as pessoas que temos.