

A submissão, esta semana, do formulário S-1 pela Anthropic junto da Securities and Exchange Commission (SEC) dos Estados Unidos transformou o processo de entrada em bolsa da tecnológica no exame mais exigente de sempre à viabilidade económica da Inteligência Artificial generativa. Com a intenção de negociar no Nasdaq sob o símbolo ANT e a meta de fixar uma avaliação de mercado entre 1,5 e 2 biliões de dólares, a criadora dos modelos de linguagem Claude assume o estatuto de batedora de Wall Street. Trata-se da primeira empresa de modelos de fronteira a testar o mercado de capitais numa escala desta dimensão, mas a operação coincide com um ciclo macroeconómico marcado pelo regresso da prudência dos investidores institucionais.
Os números revelados no prospeto retratam uma organização em hiper-crescimento de receitas, mas acompanhada por uma estrutura de encargos atípica. No primeiro semestre de 2026, o volume de negócios atingiu 16,3 mil milhões de dólares — um salto de mais de 1300% face ao período homólogo —, alavancado em 80% pelo consumo empresarial direto de interfaces de programação (API) e ferramentas automatizadas de programação. A aceleração comercial permitiu à empresa gerar 3,9 mil milhões de dólares de fluxo de caixa operacional positivo e registar, no segundo trimestre, o seu primeiro lucro operacional sob as regras oficiais GAAP (cerca de 974 milhões de dólares).
Só que a última linha do balanço formal exibiu um prejuízo líquido de 80,75 mil milhões de dólares nos primeiros seis meses do ano. O número decorre quase integralmente de um encargo contabilístico: a reavaliação ao valor justo de notas convertíveis e instrumentos derivados concedidos a parceiros estratégicos como a Amazon e a Alphabet, cujos passivos dispararam na proporção da valorização teórica da empresa, sem implicar saída de tesouraria. Ou seja, como a empresa passou a valer muito mais, o valor contabilístico daquilo que prometeu entregar a parceiros, como estas grandes tecnológicas, disparou, criando um prejuízo puramente no papel sem que tenha saído um único cêntimo da conta bancária.
Este valor é indicador do verdadeiro risco estrutural da Anthropic: os compromissos de computação. A empresa liderada por Dario Amodei acumula mais de 400 mil milhões de dólares em obrigações contratuais futuras de capacidade de cálculo com gigantes da infraestrutura na nuvem.
Ao contrário do que acontece com a Google, a Amazon ou a Microsoft, a Anthropic aluga poder de computação a fornecedores que são simultaneamente concorrentes diretos. Pior: os semicondutores que opera sofrem obsolescência acelerada num ciclo de 12 a 24 meses, o que implica um novo ciclo de investimento. E (pelo menos por enquanto) as receitas continuam de longe sem compensar o gasto.
O escrutínio à operação que se prepara em Wall Street intensificou-se com a correção no mercado chinês, ocorrida em meados da semana, onde o segmento de IA perdeu mais de 480 mil milhões de dólares (442,4 mil milhões de euros) de capitalização.
O esvaziamento das tecnológicas em Xangai e Shenzhen, causado por uma corrida agressiva ao corte de preços na IA e pelo cansaço dos investidores perante avaliações exageradas, acendeu um fortíssimo sinal de alerta sobre a banalização dos modelos de IA e o esmagamento das margens.
Embora a janela do roadshow da Anthropic esteja apontada para meados de novembro, a ausência de uma data de estreia definitiva na bolsa e a titularidade de mais de 130 mil milhões de dólares em ativos líquidos garantem ainda à empresa a margem de manobra necessária para travar a emissão e empurrar o IPO para 2027, caso a resistência dos investidores ameace a avaliação desejada.
Entretanto, nos bastidores, a OpenAI observa o processo com cautela redobrada. Tendo já remetido a sua própria cotação para 2027, a organização de Sam Altman enfrenta encargos operacionais mais pesados com consumidores individuais e projeções de prejuízos prolongados.
O veredicto de Wall Street sobre a Anthropic ditará se o mercado está disposto a pagar o preço da revolução algorítmica ou se o rigor das métricas financeiras tradicionais voltará a impor-se perante sonhos de crescimento que, afinal, serão meras alucinações.