"Está nas mãos do Governo" salvar a gastronomia portuguesa, diz Associação dos Restaurantes
A Associação Nacional de Restaurantes (PRO.VAR) apresentou ao ministério das Finanças, numa reunião com o chefe do gabinete de Assuntos Fiscais, na manhã desta quinta-feira, 22 de janeiro, um conjunto de medidas para fazer face à crise no setor, "que está em modo de sobrevivência", afirma ao DN/Dinheiro Vivo o presidente desta entidade, Daniel Serra.
"O que sai deste encontro é que nós passamos as nossas preocupações e fizemos um fiel retrato da situação do setor a nível nacional", completa Serra. A principal proposta da associação pede a redução do IVA de 23% para 6% nos produtos alimentares.
"Garantimos assim a viabilidade das empresas. A garantia de que os postos de trabalho também estarão assegurados se o Governo fizer a redução do IVA, e que o setor também irá compensar os trabalhadores de forma justa", explica Daniel Serra, a apontar que uma das preocupações é barrar o cenário de restaurantes a fechar e empregados a serem demitidos.
"Também garantimos que o setor está pronto para pagar, para contribuir com mais receitas do que aquelas que existem neste momento. O que o Governo tem de fazer é criar as condições para as empresas poderem funcionar de modo viável, para com isso terem lucro e pagar impostos. Com esta medida da descida do IVA garantimos um retorno ainda maior do que existe atualmente para o Estado", explica o dirigente.
De acordo com Daniel Serra, com a maioria dos restaurantes a serem "micro e pequenas empresas que, no fundo, garantem a gastronomia tradicional portuguesa", todos, "desde as tasquinhas ao fine dining estão a viver transversalmente o mesmo problema" que é o aumento dos preços dos produtos.
"Tendencialmente têm vindo a subir muito e tivemos a oportunidade de mostrar aqui que subiram na ordem de 60% a 80% nos últimos três, quatro anos e alguns dobraram, até quadriplicaram. Estamos a falar de aumentos absurdos".
A associação apresentou faturas de vários anos de matérias-primas ao representante das Finanças para demonstrar os custos com o cabaz de produtos utilizados na cozinha tradicional, maioritariamente carnes e peixes. O bacalhau graúdo da Noruega, de 2022 a 2025, teve 47,6% de aumento no preço ao quilo. Já o bacalhau especial, 87%. O corte vazio alto de vaca sofreu 89,5% de aumento no mesmo período. Já a vitela, corte xambão, ficou 33,3% mais cara. A média de subida das carnes é de 61,6%. Em todo o cabaz, a associação regista um aumento médio de 66% nos preços.
"A questão que apresentamos ao Governo é que tem neste momento a responsabilidade, está nas mãos dele manter estas empresas que são importantíssimas para manter a nossa identidade e cultura. Se assim não for e se o Governo nada fizer, vamos assistir ao fim da gastronomia tradicional e [o Executivo] vai ser responsabilizado", diz Daniel Serra.
Para o presidente da PRO.VAR, as medidas anunciadas nesta quarta-feira, 21 de janeiro, pelo ministro da Economia, com o Turismo de Portugal a apoiar a restauração através do pagamento de dívida à banca e alargando os prazos de devolução do dinheiro ao organismo, são "puro desperdício".
"As medidas não servem, são apenas um paliativo, voltamos a reiterar esta informação. No fundo o Governo está a atirar dinheiro para as empresas para daqui a um ano estarmos em situação igual ou pior", reforça o dirigente.
Apesar das críticas, Daniel Serra avalia a reunião como positiva. "Foi uma reunião exploratória, a promessa foi manter a linha aberta para discutirmos e trocarmos informações. Há uma preocupação grande do Governo, notamos isso, em resolver o problema. Embora nós entendemos que essas medidas são no fundo uma confirmação da situação, mas uma resposta de emergência. Agora o que é preciso é estudarmos soluções futuras, plenas e com sentido".

