Guerra “vai doer a todos” com bilhetes mais caros e menor procura, avisam companhias aéreas
Adelino Meireles/GI

Guerra “vai doer a todos” com bilhetes mais caros e menor procura, avisam companhias aéreas

A Associação das Companhias Aéreas em Portugal alerta que transportadoras não têm margem para absorver o aumento dos custos e pede a Bruxelas o alívio das regras para que setor possa enfrentar crise energética.
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"Há uma grande pressão e uma grande exigência na aviação. Que não haja dúvidas: isto vai doer a todos de uma ponta à outra”. A certeza é traçada ao DN pelo diretor executivo da RENA, a Associação das Companhias Aéreas em Portugal, António Moura Portugal.

Os impactos do conflito no Médio Oriente estão a penalizar o setor, principalmente pelo aumento da fatura a pagar com o jet fuel que disparou mais de 80% no último mês. O preço médio global do combustível usado na aviação subiu 12,6% na semana passada, atingindo os 197 dólares por barril, de acordo com o monitor de preços da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).

Os efeitos da escalada dos custos energéticos obrigará as companhias aéreas a redefinir a operação através do reajustamento de rotas e a refletir o aumento nos preços dos bilhetes. “Neste momento, o impacto é sobretudo operacional. Porque há muitas zonas fechadas e restrições de espaços aéreos. Isto leva a mais tempo de voo, mais consumo de combustível e a uma maior complexidade operacional”, refere António Moura Portugal.

O responsável explica que o combustível é um dos principais encargos na aviação, a par dos custos com salários, e que, por isso mesmo, terá “um impacto bastante significativo”, principalmente a médio e longo prazo.

Sem grande margem para absorver os custos, aponta, as transportadoras aéreas terão de encarecer os preços das viagens. “Admito que os preços dos bilhetes vão ficar mais caros, as companhias não têm capacidade de absorver todos os custos. É um setor onde não há margens de rentabilidade muito grandes, está constantemente sob pressão e existe uma concorrência global fortíssima”, indica.

Se viajar de avião ficar mais caro, é quase certo que o efeito dominó se estenda à procura, com o número de passageiros a cair. “A redução da procura é o efeito mais temido. Na pandemia, por exemplo, a procura recuperou de forma relativamente rápida, mas este quadro é muito mais complexo. Existem riscos maiores, riscos energéticos, há impactos financeiros amplos com outros sistemas envolvidos, Quando não é só um tema de saúde, há mais coisas na equação, não se trata apenas da proibição verificada na pandemia”, relembra.

Ainda que o conflito não se prolongue, o setor da aviação irá demorar a recuperar e este é, para o diretor executivo da RENA, um dos maiores desafios. “A maior preocupação nem é tanto o efeito imediato, é quanto tempo é que isto vai demorar até à normalização. Mesmo que a situação acalme, serão precisos vários meses para estabilizar”, antecipa.

O porta-voz ilustra o argumento com o exemplo recente da guerra na Ucrânia. “É a lição mais próxima que temos e o impacto foi muito menor. Mesmo assim, e já depois de atingirmos uma situação de acalmia e previsibilidade, a aviação demorou a recuperar”, rememora.

Outra das estratégias destas empresas para sobreviver à incerteza passará por ajustar as ligações e, eventualmente, reduzir o número de voos operados. “Cada companhia irá, naturalmente, analisar quais são as rotas mais ou menos rentáveis. Se estiver a operar uma rota que não está a ser lucrativa, ou que apenas o poderá ser no longo prazo, é possível que, havendo necessidade de criar aqui algum tipo de reserva e de fazer face a este período de maior incerteza, comece a reduzir voos”, acrescenta.

António Moura Portugal rejeita ainda o argumento, defendido por alguns especialistas na aviação, de que o desvio de fluxos turísticos poderá ser benéfico para destinos geograficamente mais distantes da zona de conflito.

“Há algumas explicações muito superficiais que dizem que isto pode ser uma vantagem para quem não está na região da guerra. O impacto é para todas as companhias, Mesmo que haja pequenos ganhos marginais semanais, em virtude de haver aqui um fenómeno de substituibilidade de passageiros, no médio e longo termo é mau para toda a aviação. Estes são fenómenos que minam a confiança e a aviação vive desta estabilidade, de ter rotas e mercados abertos”, defende.

RENA pede medidas a Bruxelas para aliviar pressão da guerra

Várias companhias aéreas europeias pediram à Comissão Europeia, na semana passada, para adiar a exigência do uso de combustíveis sintéticos sustentáveis (eSAF) a partir de 2030, argumentando que a escassez de oferta e os elevados preços praticados se traduzirão num fator adicional de pressão que terá de ser refletido nas tarifas dos bilhetes. Para o responsável da RENA é “crucial” que Bruxelas dê um passo atrás nas regras sobre os combustíveis ecológicos.

“A exigência não está a ser acompanhada a nível da oferta, não há combustível em quantidade suficiente para permitir abastecer, muito menos a um preço razoável. As companhias não estão em condições de cumprir e é preciso voltar atrás”, frisa.

O porta-voz considera que devem ainda ser adotadas medidas semelhantes às da pandemia, como a renúncia temporária às regras europeias dos slots nos aeroportos, que obrigam a que as transportadoras aéreas utilizem 80% das faixas horárias de descolagem e de aterragem que lhes foram atribuídas, sob pena de as perderem.

Considerando o atual contexto, António Moura Portugal sustenta ainda que a UE deveria reduzir as sanções aplicadas às emissões de gases poluentes. “São medidas que criam ainda mais pressão no setor ao nível dos custos financeiros. É preciso bom senso e devemos aproveitar esta crise energética para pensar o que é que é essencial e acessório. Todos os presidentes de companhias aéreas com que falei estão a pedir isso: deixem-nos tentar ultrapassar mais esta crise, não nos ponham peso adicional às costas”, relata.

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