Jorge Rebelo de Almeida, presidente do grupo Vila Galé
Jorge Rebelo de Almeida, presidente do grupo Vila GaléLeonardo Negrão / Global Imagens

Jorge Rebelo de Almeida: “Já sentimos o impacto da guerra. Estamos a engolir custos e a apertar o cinto, mas não aumentaremos preços”

Depois de enfrentar prejuízos com o encerramento dos hotéis em Cuba, a Vila Galé está ser afetada pelo aumento dos custos operacionais. Grupo prepara expansão para Cabo Verde e acelera obras no Brasil para receber novo voo da TAP.
Publicado a

A Vila Galé está já a sentir os efeitos do conflito no Médio Oriente, com os custos operacionais a dispararem devido à subida dos preços da energia. “Todas as coisas que nos chegam e de que precisamos estão dependentes ou do transporte aéreo ou terrestre e, com a subida do petróleo, tudo fica mais caro. Já estamos a ser impactados, no imediato, por este aumento dos custos”, explica ao DN/DV o presidente da segunda maior cadeia hoteleira portuguesa.

Embora a fatura a pagar aos fornecedores esteja mais pesada, Jorge Rebelo de Almeida assegura que o grupo irá absorver os aumentos, não refletindo essa pressão nos preços. “Vamos engolir os custos, temos alguma flexibilidade para apertar o cinto. Estamos a controlar algumas coisas, de forma a gastarmos menos, e a gerir o negócio com encargos mais elevados. Não podemos é tirar nada ao cliente e só mesmo no limite é que se poderá aumentar preços”, diz.

O empresário recorda que o grupo, fundado há quatro décadas - e que conta atualmente com um portefólio de 52 hotéis (34 em Portugal, 13 no Brasil, quatro em Cuba e um Espanha) - já enfrentou outras crises e garante que, em nenhuma, optou por incrementar os valores praticados. A gestão rigorosa da atividade e a ginástica financeira terão, contudo, repercussões nas contas finais do ano.

Depois de ter apresentado resultados recorde em 2025, com as receitas a avançarem 15% para os 321,5 milhões de euros, Rebelo de Almeida refreia as expectativas para os próximos meses. “Não fosse este fenómeno da guerra, a nossa previsão para este ano seria de um ligeiro crescimento. No Brasil continuamos a esperar um crescimento maior, mas em Portugal temos muitos hotéis em construção e não será possível evoluir como prevíamos”, assume.

Apesar dos desafios, o presidente da Vila Galé refere que a procura se mantém estável com as reservas “num bom nível”. Por outro lado, nota, há uma janela de oportunidade para Portugal que poderá beneficiar com o desvio dos fluxos turísticos na região do Médio Oriente.

“A guerra é má e detesto dizer que é com a guerra que vamos melhorar este ano. Mas existirá uma fuga inevitável de mercados fortes, como a Tunísia, a Turquia e o Egipto para zonas mais seguras. E isso beneficia-nos. Haverá uma natural tendência para se registar uma maior procura por Portugal e Espanha, que estão na ponta da Europa e afastados do conflito”, nota.

Prejuízo em Cuba “não foi pequeno”

O início de 2026 tem-se feito de desafios para o grupo português. Além dos impactos da conjuntura geopolítica, a Vila Galé viu-se obrigada a suspender a operação nos hotéis que gere em Cuba no âmbito das sanções impostas pelos Estados Unidos ao país, que fez escalar a crise energética.

“Tivemos de fechar, não havia energia elétrica, nem gás ou combustível. É evidente que tivemos um prejuízo com tudo isto, que não é pequeno, mas é um prejuízo que conseguimos suportar. O que mais me preocupa é o nosso pessoal. Tínhamos equipas maravilhosas e tenho muita pena que estejam a passar mal”, afirma.

A Vila Galé é o único grupo hoteleiro nacional com presença em Cuba, onde explora quatro unidades em Havana, Varadero, Cayo Santa Maria e Cayo Paredón, num total de 1800 quartos. Os imóveis são detidos pela empresa estatal Gaviota e concessionados à Vila Galé que, apesar do quadro local instável, mantém o interesse em alargar a presença na geografia.

“Podemos expandir a presença em Cuba, há hotéis muito bons, em localizações incríveis com praias lindas de morrer. Gosto muito dos cubanos, da música e da gastronomia”, atesta Jorge Rebelo de Almeida.

O responsável considera que o turismo é o “grande pilar do desenvolvimento” daquele país e que a atividade terá um papel nevrálgico para a economia. “Cuba tem de se democratizar, tem de abrir mais o regime e tem de se abrir mais ao investimento estrangeiro - e acredito que já está a fazer esse caminho. Cuba terá de entender que, para resolver algumas dificuldades económicas, deverá ver o turismo como peça fundamental”, defende.

Para já, o empresário não tem previsão de quando é que poderá reabrir as unidades, mas mostra-se otimista. “A informação que temos, sem grande detalhe, é a de que está a haver negociações para se encontrar um consenso. Acredito que vá existir um entendimento em breve”, frisa.

Vila Galé quer chegar a Cabo Verde e mantém olhos postos em Madrid

O plano de novos projetos em curso é robusto, com mais de uma dezena de hotéis atualmente em desenvolvimento entre Portugal e o Brasil, num investimento global de 215 milhões de euros. O grupo quer ainda estender a aposta internacional a uma quarta geografia e está em negociações para entrar em Cabo Verde.

“Identificámos sete ou oito oportunidades em São Vicente, já fizemos uns ensaios e estamos à espera de resposta”, confirma Jorge Rebelo de Almeida.

O gestor ressalva, contudo, que a expansão da carteira de ativos além-fronteiras está a ser ponderada com tranquilidade. “Não temos pressa, estamos, atualmente, com uma carga excessiva de projetos, é muito peso em cima de nós. O nosso problema não é financeiro, temos capacidade de crédito, mas sim de tempo para concretizar. A nossa capacidade não é infinita. Eu trabalho desalmadamente, mas 12 hotéis para fazer é muita coisa,”, admite.

Já no mercado espanhol - onde se estreou em 2024 com a inauguração do Vila Galé Isla Canela, na Costa de la Luz, em Huelva - os olhos continuam postos na capital do país vizinho, conforme vem sendo assumido pelo presidente, mas os preços têm-se apresentado como o entrave principal.

“Temos continuado à procura de oportunidades em Madrid, mas Espanha está muito cara. Os preços estão muito em cima porque o país atravessa um momento de turismo muito bom”, justifica.

Por cá, a cadeia hoteleira reabriu esta semana o Vila Galé Ampalius, em Vilamoura, que foi alvo de uma remodelação orçada em oito milhões de euros.

Além dos novos projetos, o fundador do grupo defende que é preciso “não dormir à sombra da bananeira só porque o turismo está a correr bem”. “O hotel não estava mau e, em 28 anos, já sofreu diversas remodelações. Esta nova intervenção serviu para mostrar que, em Portugal, temos um caminho ainda a percorrer, que é o da valorização. A nossa oferta tem de ser cada vez mais elevada e mais inovadora. O turismo não é só um dormitório para as pessoas dormirem e comerem”, assevera. No Algarve, o Vila Galé já está presente “de ponta a ponta”, diz, com uma oferta de nove hotéis. Por isso mesmo, só “um projeto muito especial” justificaria um novo investimento na região.

Em Portugal, o grupo tem em pipeline seis hotéis na Golegã, Penacova, Miranda do Douro, Oeiras, Lisboa e ilha Terceira. Já no Brasil a aposta passa por Alagoas (duas unidades), Maranhão (duas unidades), Santa Catarina e Minas Gerais.

“TAP é uma grande parceira no Brasil”

À TAP deixa elogios na operação transatlântica e aplaude o recente anúncio de novas rotas no Brasil. A companhia de bandeira irá voar para Curitiba, a partir de julho, e para São Luís do Maranhão em outubro - precisamente onde o Vila Galé está a concluir duas unidades.

A revelação da transportadora liderada por Luís Rodrigues levou o grupo hoteleiro a antecipar a abertura, inicialmente programada para dezembro, para a data da inauguração da ligação. “Será um desafio, acelerar a obra, mas gosto de desafios. Queremos receber o voo da TAP e fazer a festa no hotel”, explica.

Jorge Rebelo de Almeida sublinha a importância da companhia no negócio neste mercado e adianta estar “satisfeitíssimo” com o crescente investimento da empresa. “A TAP tem sido maravilhosa, tem sido uma parceira e temos uma relação muito boa. Tem valorizado imenso o turismo no Brasil e tem sido fulcral para aproximar os dois países”, conclui. A Vila Galé irá ainda desenvolver uma ação conjunta com a companhia em Curitiba para promover os seus hotéis.

*O DN viajou para Vilamoura a convite da Vila Galé

Jorge Rebelo de Almeida, presidente do grupo Vila Galé
Vila Galé fatura 321 milhões em 2025 apesar de Portugal não ter "o privilégio de ter um aeroporto em condições"
Diário de Notícias
www.dn.pt