O presidente do operador do Mercado Ibérico de Eletricidade (Mibel) considera que a Europa deve investir mais em energias renováveis, sendo este setor decisivo para a garantia da sua autonomia energética. De acordo com Pedro Amaral Jorge, o contexto de instabilidade global atual, com a guerra no Irão, demonstra que “nós não podemos estar sujeitos àquilo que é a flutuação do preço e da escassez de combustíveis fósseis”.
O responsável pelo Mibel avalia que estes “choques energéticos” confirmam que é preciso “deixar de estar cartelizados pela OPEP, temos que deixar de estar dependentes de preços com fatores geopolíticos que nós não controlamos e, portanto, essa solução energética que nos tem sido oferecida nos últimos 90 anos vai ter que alterar radicalmente”.
A recordar que, atualmente, a eletricidade responde por 25% do consumo energético na Europa e que a meta até 2050 é aumentar esta percentagem para os 50%, Pedro Amaral Jorge afirma que “o caminho para a Europa vai passar, muito, pelo seu grau de independência energética estar associado à sua incorporação de renováveis na produção de eletricidade, ou de outros energéticos que permitam manter a soberania política e um controlo sobre os custos de produção e sobre a forma como o mercado precifica essa eletricidade”.
À frente do Mibel há pouco mais de um mês, Pedro Amaral Jorge foi, nos últimos oito anos, presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN). A conversa com o DN/Dinheiro Vivo ocorre durante a sua participação num encontro na sede do Conselho Global de Energia Eólica (GWEC), em Lisboa, que recebe integrantes da Coalizão Eólica Marinha do Brasil para dialogar sobre investimentos em parques eólicos offshore, que produzem energia gerada pelo vento com estruturas montadas em alto mar. Durante a reunião, Pedro Amaral Jorge destaca que “a matriz elétrica brasileira é praticamente renovável e Portugal, neste momento, incorpora cerca de 76% a 80% de energia renovável na sua produção de eletricidade”. Neste sentido, ressalta que “as nações que quiserem ter um papel na economia global e alguma coisa a dizer na sua soberania, quer política, quer energética, têm que tentar ser o mais independente possível”.
A associação brasileira, recém constituída, escolheu Portugal para a sua primeira agenda internacional por estarem os dois países “em momentos muito parecidos de regulação” da produção de energia eólica offshore, explica a presidente, Roberta Cox, com o Brasil ainda a tentar arrancar, com a aprovação, no início deste mês, do seu marco regulatório, e Portugal, por sua vez, com o projeto do WindFloat Atlantic, operacional desde 2020 a 18km da costa de Viana do Castelo. “Portugal já tem a expertise de ter o seu projeto flutuante, é um pioneirismo, uma tecnologia muito interessante. São dois países que estão a começar nas eólicas offshore, cada um com as suas características, cada um com seus avanços”, completa Roberta Cox. A coalizão brasileira levou um grupo de representantes do setor público, empresários e académicos a uma visita ao WindFloat Atlantic.
Este tipo de projeto tem sido protagonista de recentes decisões do Governo dos Estados Unidos no âmbito da sua produção energética. Com o presidente Donald Trump a considerar que a energia eólica “é para pessoas estúpidas”, conforme o seu discurso no Fórum de Davos no início do ano, sendo que vários contratos com empresas para produção em alto mar foram cancelados. A EDP Renováveis recuou em dois projetos, pelos quais já havia investido 171 milhões de euros. Vai receber o dinheiro de volta e investir novamente em outros projetos em solo norte-americano mais alinhados aos objetivos de Donald Trump.
Portugal tem o seu Plano de Afetação para as Energias Renováveis Offshore, que identificou as áreas do espaço marítimo nacional destinadas a estes projetos. A ambição é ter até 2030, no âmbito do Plano Nacional de Energia e Clima, 2 GW de energia gerados offshore. Atualmente, a capacidade do WindFloat Atlantic é de 25 MW.
Esta ambição foi um dos fatores a contribuir para que a sede europeia do Conselho Global de Energia Eólica fosse transferida da Bélgica para Portugal. “Achamos que Lisboa é um lugar muito aberto ao resto do mundo. Está a crescer rapidamente, economicamente. Portugal é um dos países que adotou energias renováveis mais cedo. Achamos que, por isso, era um bom lugar para a sede do GWEC”, afirma o CEO Ben Ben Backwell.