

A Alfândega do Porto, o maior centro de congressos da cidade, foi quinta-feira, 24 de setembro, pequena para receber as cerca de 15 mil pessoas que marcaram presença na 4ª edição da Happiness Camp, conferência dedicada ao mundo do trabalho e que, este ano, naturalmente teve em especial foco a Inteligência Artificial. Personalidades como Steven Bartlett, empresário e autor do podcast “The Diary of a CEO”, Melonie Parker, da Google, Camille Phillips, ex-Meta, encheram a sala de conferências e criaram filas à porta. O interesse dos participantes – de grande diversidade etária e profissional -, estendeu-se a sessões como a protagonizada por Miriah Steiger, responsável pela saúde e bem-estar psicológico no Tik Tok, e à conversa moderada por Pedro Abrunhosa com a jornalista de investigação Mariana Van Zeller. O orador surpresa foi o mediático empresário Richard Branson. O evento, em que a língua dominante foi o inglês, exigiu um investimento de meio milhão de euros.
O ambiente transpirava bom-humor desde o momento da abertura. António Pedro Pinto, fundador e CEO da Happiness Camp, admitia pouco depois ao Dinheiro Vivo que esta grande adesão era expectável. “É um evento gratuito, temos um cartaz apelativo e, por isso, acreditámos que seria bem-recebido pelo público”. A grande maioria dos participantes tinha nacionalidade portuguesa, mas no decorrer da conferência percebeu-se que atraiu muitos estrangeiros, de diferentes geografias. Não foi só o cartaz dos oradores que chamou estas milhares de pessoas. Como frisou António Pedro Pinto, a Happiness Camp estendeu-se por todo o espaço da Alfândega e com diferentes atividades. “Não é só assistir a palestras. Há muitas outras coisas para fazer, muitas experiências para se vivenciar”, disse. Houve ativações, masterclasses, instalações artísticas, sessões de autógrafos de autores nacionais e internacionais com obras sobre o trabalho, mas também momentos de relaxamento com massagens, jogos e networking no espaço aberto junto ao rio Douro. Para responder a tanto público, havia espaços da Alfândega (abertos e fechados) com ecrãs a transmitir em direto as conferências.
Segundo António Pedro Pinto, a gratuitidade de acesso à conferência “tem sido uma grande luta”. Como afirmou, “seria mais fácil cobrar uma entrada e financiar o evento dessa forma do que passar 80% do tempo à procura de patrocinadores. Mas eu tenho uma missão pessoal grande. Eu acho que toda a gente deve ter acesso ao mesmo nível de conhecimento, ao mesmo nível de oradores - os que estamos a ver aqui hoje já foram oradores nas maiores conferências do mundo -, e, para mim, não faz sentido estar a cobrar a um estudante ou a alguém que esteja desempregado ou a alguém que tenha um enquadramento socioeconómico vantajoso”. Até porque a “felicidade também é ter conhecimento acessível”. Na sua opinião, “as pessoas vão levar um cruzamento de backgrounds tão distintos que vão chegar a casa com perguntas, com pequenos nuggets, e esse é o objetivo da Happiness Camp”.
Na conferência sobre o mundo e o futuro do trabalho, não podia faltar ao debate a Inteligência Artificial (AI). António Pedro Pinto defende que a IA “tem capacidade para nos trazer muita felicidade, mas está nas mãos de quem a está a trabalhar”. Para o eurodeputado Bruno Gonçalves, a IA é “o maior desafio das nossas curtas vidas”. A intervenção de Bruno Gonçalves ficou pautada por muitas questões. “Somos deuses para as máquinas ou elas são deuses para nós?”, interrogou. Também enfatizou o quadro que enfrentamos. Um mundo em que os objetivos e trabalhos humanos são ultrapassados por agentes artificiais, “os media gerados por máquinas e o julgamento algorítmico autónomo correm o risco de fragmentar a perceção pública da verdade”, “os regimes autoritários se posicionam para aproveitar as capacidades preditivas da IA”, “os sistemas democráticos lutam para regular” a IA, e “os grandes conglomerados empresariais – da defesa à diplomacia – atuam como entidades que rivalizam ou excedem o poder dos Estados”. Defendeu também que um Estado moderno “não é aquele que impede novas ideias, mas sim aquele que as ajuda a florescer e canaliza-as produtivamente para o bem comum, a prosperidade humana e alavanca o conhecimento”, onde não existem direitos sem deveres, nem o oposto – sejam os agentes humanos ou artificiais”.
Num mundo do trabalho que se quer humano (com apoio das máquinas e da tecnologia), empático, estável, de confiança, de respeito e solidário – como sublinharam alguns oradores -, a Happiness Camp fechou as portas em festa, ao som de música e conversas, e o sol no horizonte.