Irão: “Não se esperam cortes de abastecimento de energia, mas Portugal vai apanhar por tabela com o aumento dos preços”
Rui Manuel Fonseca / Global Imagens

Irão: “Não se esperam cortes de abastecimento de energia, mas Portugal vai apanhar por tabela com o aumento dos preços”

A subida dos preços dos combustíveis e da energia será um dos primeiros efeitos do conflito no Irão a ser sentido nos bolsos dos portugueses. Especialistas defendem que impacto na economia nacional está dependente da duração da guerra e que é ainda extemporâneo fazer diagnósticos. Energias renováveis são um escudo para Portugal e turismo uma oportunidade.
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Ainda é cedo para prever quais serão os impactos que a economia portuguesa poderá sofrer no âmbito do conflito no Irão. Os estilhaços da ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel ao regime iraniano estão a gerar tensão mundial nos mercados internacionais, sobretudo devido à instabilidade no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido mundialmente.

O aumento dos preços da energia será, inevitavelmente, um dos primeiros efeitos a ser sentido nos bolsos dos consumidores. “Estamos com uma situação de grande instabilidade no banco mundial do petróleo e do gás. Portugal é um país que toma os preços do mercado mundial e há uma pressão sobre os preços do petróleo, do gás natural e dos derivados, com todo o nervosismo que isso causa, de impacto em cadeia sobre a inflação e o do que daí poderá derivar”, explica, ao DN, Nuno Ribeiro da Silva, especialista em energia.

O também antigo presidente da Endesa acredita que não está em causa um cenário de insuficiência das reservas estratégicas de abastecimento, quer de petróleo quer de matérias-primas, sendo o aumento da fatura a pagar a consequência mais imediata.

“Não é expectável que haja aspetos de corte físico, de não acesso às matérias-primas, ao petróleo e ao gás. Agora vamos apanhar por tabela a tendência alta dos preços. Os mercados abriram ontem com um aumento do petróleo de 13%, mas depois corrigiram um bocadinho para baixo, para 9%, o que dá a ideia de que não estamos num quadro crítico. Temos um quadro preocupante, mas não estamos num quadro crítico. Os cortes e esta desregulação, nomeadamente no petróleo, é mais preocupante para os países da Ásia, que é para onde se dirige sobretudo o petróleo que sai do Médio Oriente, do que para a Europa”, aponta.

Para o consultor, o tempo é o fator chave para aferir o nível das eventuais repercussões. “Tudo estará dependente da duração do conflito. Cada hora que passa, cada notícia que surge, cada drone dirigido à Arábia Saudita, configuram aspetos que só enervam o mercado. Se neste momento tivéssemos um cenário de que tudo isto acabava sem mais danos, o petróleo viria por aí abaixo, inclusivamente abaixo dos 70 dólares por barril. Contudo, à medida que se vai instalando uma situação de danos sobre infraestruturas e de falta de visibilidade sobre em que é que tudo isto vai acabar, transforma-se em combustível para alimentar a alta de preços”, atesta.

Também para Filipe Garcia, economista da Informação de Mercados Financeiros (IMF), a escalada dos preços da gasolina e do gasóleo é, inquestionavelmente, o reflexo mais evidente do que se poderá esperar nas próximas duas semanas.

“Apesar de Portugal não utilizar petróleo iraniano, se o preço do petróleo a nível global subir, nós também somos impactados e o mesmo acontece com os derivados - a gasolina e o diesel estavam hoje a subir cerca de 20%”, enquadra.

O economista salienta que não espera “grandes constrangimentos” a nível logístico para a economia portuguesa, uma vez que o petróleo e o gás que o país importa vem de outras geografias como a Nigéria ou os Estados Unidos. 

Já no que respeita à eletricidade, as principais consequências deverão ser sentidas mais pelas empresas do que pelos consumidores particulares. “A maioria dos clientes familiares têm contratos de mais longo prazo. Os aumentos de preço serão refletidos mais a nível industrial, nas entidades que não têm um tarifário fixado. Mas tudo isto irá depender de se a situação se vai manter ou não e durante quanto tempo”, adianta.

Renováveis são escudo para Portugal em contextos de crise internacional

A forte liderança de Portugal na produção de energias renováveis é sublinhada, pelos especialistas ouvidos pelo DN, como um escudo no contexto das crises internacionais.

“É um conforto e uma mitigação da nossa exposição. Nomeadamente na eletricidade também, com o recurso a mais fontes renováveis do sol, do vento, da água e de biomassas. A satisfação das nossas necessidades elétricas com recurso a essas fontes que estão cá no país é um fator de defesa da nossa exposição, porque passamos a necessitar menos, em algumas horas do dia ou do ano, de recorrer às centrais que queimam gás natural para produzir eletricidade. Quanto mais conforto tivermos de geração com base nos recursos endógenos e renováveis, menos teremos de nos expor à importação de gás natural para complementar a satisfação das necessidades em eletricidade do país”, elucida Nuno Ribeiro da Silva.

Filipe Garcia corrobora esta perspetiva e sublinha que, se Portugal tivesse um menor nível de produção de energia renovável, o impacto das variações do preço do gás natural seria mais expressivo.

“Neste momento, em Portugal, vamos começar a produzir um bocadinho mais, temos mais horas. O vento, neste momento, estará, em princípio, mais fraco do que estava há umas semanas atrás, mas vem aí também uma pequena tempestade, neste caso pequena, que pode ajudar. Do ponto de vista hídrico  temos alguma armazenagem ainda bastante boa. O facto de haver uma produção renovável maior ajuda a mitigar estes efeitos, isso é indiscutível”, afirma. 

Subida prolongada dos preços poderá afetar metas de crescimento da economia

As certezas, ao terceiro dia de conflito armado no Irão, são ainda poucas. Avaliar as implicações das consequências desta guerra nas perspetivas de crescimento na economia portuguesa é ainda prematuro.

“Há muitas peças em movimento no crescimento português. Devido às tempestades, tivemos o anúncio de um novo programa de estímulos, o que é indutor de crescimento, mas se houver uma subida do preço dos combustíveis que seja prolongada no tempo, a balança comercial irá sofrer e isso provoca uma descida do PIB. Tudo está dependente da duração do conflito”, diz Filipe Garcia.

“A questão não é o preço do gasóleo hoje nos mercados internacionais ter subido 20%, a questão é se se vai manter nesses níveis, se vai subir mais.  O que importa mesmo é saber quanto é que demora, porque se for rápido, os impactos não serão tão exatos”, acrescenta ainda.


O economista considera também extemporâneo antever os futuros efeitos na inflação e relembra o início da Guerra na Ucrânia, em 2022, altura em que os impactos nos preços foram substanciais.

“Houve um certo aproveitamento por parte de alguns produtores e de alguns agentes económicos que subiram mais os preços do que aquilo que foram as subidas que eles enfrentaram. Aquela invasão provocou uma subida da inflação. E, aqui, acho muito prematuro dizer que vamos para aí, mas os primeiros sinais são nesse sentido, porque, apesar de não ser com  a mesma dimensão, a primeira reação foi de uma subida muito significativa dos preços dos bens energéticos”, compara.

Turismo poderá ser oportunidade para Portugal

Apesar da incerteza no horizonte, há oportunidades à espreita que poderão beneficiar Portugal, desde logo no turismo. O economista da IMF acredita que o país pode afirmar-se como destino alternativo de férias para turistas que planeavam viajar para geografias mais próximas da zona de conflito.

“Haverá, certamente, menos vontade de alguns turistas, agora nesta fase em que se começam a marcar as férias de verão e da Páscoa, de irem para aquela região do globo. O Dubai e a Turquia, não sendo exatamente o centro de conflito, estão próximos, bem como outros países do Mediterrâneo, como o Chipre ou a Grécia. Portugal pode beneficiar com essa situação”, conclui Filipe Garcia.

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