CEO da Lufthansa, Carsten Spohr
CEO da Lufthansa, Carsten SpohrKirill KUDRYAVTSEV / AFP

Lufthansa diz que TAP é "encaixe perfeito", mas deixa aviso ao Governo. "Compra só avança com retorno para os nossos stakeholders"

CEO do grupo alemão reitera interesse na companhia portuguesa, mas alerta que negócio só se concretiza se for rentável para os acionistas. Carsten Spohr diz que hubs de Madrid e de Paris são ameaça a Portugal e quer abrir uma escola de pilotos para Portugal.
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O interesse da Lufthansa no processo de privatização da TAP continua firme, com o grupo a admitir que a transportadora de bandeira portuguesa é o “encaixe perfeito” na operação da alemã, sobretudo por via das rotas estratégicas transatlânticas.

Apesar do namoro assumido, o CEO da Lufthansa assegura que o negócio só verá a luz do dia se trouxer benefícios para os acionistas e deixa um aviso ao Executivo. “Estamos a falar com o Governo português, mas há um ponto a considerar: esta transação, mesmo que seja estrategicamente interessante, só avançará se também gerar retorno para os nossos stakeholders. E isso depende dos custos e do preço que terá de ser pago”, alertou esta sexta-feira, 6, Carsten Spohr. 

Durante a conferência de apresentação dos resultados anuais, que decorreu em Frankfurt, o responsável referiu que “em determinado momento será necessário analisar as componentes financeiras para além da própria transação”,  mas que ainda não “chegou essa fase”.

Para já, a Lufthansa prepara-se, a par dos seus concorrentes Air France-KLM e IAG, para entregar à Parpública a proposta não vinculativa para a aquisição de uma fatia de 44,9% do capital da TAP, até ao próximo dia 2 de abril.

“Queremos manter este processo em curso porque a TAP seria um encaixe perfeito para nós. Seria uma adição importante para o mercado brasileiro e para a nossa presença na América Latina. Demonstrámos que sabemos preservar a identidade própria dos hubs e das marcas, ao mesmo tempo que exploramos as sinergias do grupo Lufthansa”, explicou o presidente executivo.

Carsten Spohr não tem dúvidas de que o grupo alemão está melhor posicionado face aos seus concorrentes que, considera, representam uma maior ameaça para o hub na capital portuguesa.

“Basta olhar para onde a Lufthansa tem os seus hubs e percebe-se quais seriam as posições únicas que Portugal poderia ter para nós. Os nossos concorrentes já são fortes no Atlântico Sul: alguns têm um hub em Madrid, outros em Paris, que estão muito mais próximos de Portugal. Isso significa que a ameaça para um hub em Portugal e em Lisboa seria muito maior, o que acaba por ser mais um argumento a favor do grupo Lufthansa”, defendeu.

Questionado quanto à possibilidade de a Comissão Europeia vir a aprovar uma eventual aquisição da participação na TAP, afiança que “ainda é cedo” para prognósticos, mas reforça que "a questão da concorrência não é tão relevante para a Lufthansa como poderá ser para os outros interessados".

Recorde-se que Governo aprovou em julho do ano passado o diploma que enquadra o processo de privatização da TAP , definindo a venda de uma participação minoritária do capital de 49,9%. Da fatia a ser alienada, 44,9% ficará nas mãos de um investidor privado e 5% do capital destina-se aos trabalhadores. 

Depois de o Executivo ter dado luz verde, a 19 de dezembro de 2025, às propostas dos três candidatos à compra da TAP, após validar o cumprimento dos requisitos para passarem à segunda fase do processo, a Parpública convidou, no início do ano, os grupos a apresentarem uma proposta não vinculativa que terá de ser entregue até ao início do próximo mês.

O processo terá a duração de 90 dias, aos quais acresce um período de mais 30 dias para a avaliação por parte da empresa responsável pela gestão das participações do Estado que irá, posteriormente, elaborar um novo relatório com a apreciação da documentação recebida.

O objetivo do Governo é ter o processo de venda concluído até ao verão.

Lufthansa quer abrir escola de pilotos em Portugal e negoceia com Força Aérea

Enquanto os trâmites da privatização decorrem, a Lufthansa continua a colocar Portugal na lista de prioridades no capítulo do investimento. O grupo alemão quer abrir no país uma escola de formação de pilotos e está já a travar conversas com a Força Aérea portuguesa nesse sentido.

“Portugal pode tornar-se um parceiro estratégico muito relevante na aviação, até porque já estamos a construir uma instalação da Lufthansa Technik no país e estamos também a avaliar o local para uma escola de pilotos que nos encontramos a discutir em conjunto com a Força Aérea. Estamos a ver se esta escola poderá ficar em Portugal. São projetos entusiasmantes que demonstram a relevância estratégica de Portugal e iremos prosseguir nesse caminho”, afiançou.

A Lufthansa está atualmente a preparar a abertura de uma fábrica de reparação de peças de motores e componentes de aviões em Santa Maria da Feira, no distrito de Aveiro, a Lufthansa Technik Portugal.

A unidade industrial deverá começar a operar no próximo ano e representa um investimento de perto de 300 milhões de euros.

Lufthansa atinge receita recorde, mas conflito no Médio Oriente é ameaça

A Lufthansa reportou esta sexta-feira um resultado líquido de 1,3 mil milhões de euros, o que se traduz num recuo de 3% face ao período homólogo. As receitas subiram 5%, atingindo um recorde de 39,6 mil milhões de euros.

“No ano passado conseguimos aumentar significativamente o lucro operacional do grupo e alcançámos a maior receita da nossa história. Os nossos resultados demonstram a resiliência e a estabilidade do grupo”, afirmou o CEO.

O número de passageiros transportados também aumentou, tendo atingido os 135 milhões (+4%). Já o resultado operacional atingiu os dois mil milhões de euros.

"Este aumento dos resultados foi alcançado num ambiente extremamente desafiante. A situação no Médio Oriente e outras tensões geopolíticas, uma fraqueza temporária da procura no terceiro trimestre, especialmente no Atlântico Norte e na Europa , e os atrasos contínuos na entrega de novas aeronaves exigiram um “elevado grau de flexibilidade por parte de todas as companhias aéreas”, justifica o grupo.

Para este ano, a Lufthansa perspetiva um novo aumento das receitas e uma melhoria "significativa dos resultados", bem como um incremento adicional da margem operacional, além da expansão de 4% da capacidade e da renovação contínua da frota.

Apesar das perspetivas otimistas, o grupo alemão alerta para o atual quadro geopolítico incerto. "Os desenvolvimentos no Médio Oriente e as suas consequências para a economia global aumentam a incerteza nas previsões de médio e longo prazo. Perturbações nas cadeias de abastecimento no Estreito de Ormuz estão a aumentar a volatilidade nos mercados petrolíferos", frisa.

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