Saída da Ryanair dos Açores ameaça turismo e obriga hotelaria a baixar preços
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Saída da Ryanair dos Açores ameaça turismo e obriga hotelaria a baixar preços

Fim da operação da companhia low cost na região está a impactar as reservas na hotelaria. Empresários alertam para a descida de preços no alojamento, avisam que o preço dos bilhetes de avião ficarão mais caros e pedem intervenção do Governo regional.
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É mais um rombo na atividade turística dos Açores. A escassez de ligações aéreas ao arquipélago tem sido a principal ameaça à atividade no destino que, perante o fim da operação da Ryanair, está em alerta.

A low cost deixou de voar para a região no passado dia 29 de março, decisão motivada, segundo a transportadora aérea, pelo aumento das taxas aeroportuárias. A companhia irlandesa liderada por Michael O’Leary bateu com a porta à região e as consequências já se fazem sentir nas reservas dos hotéis.

A poucos dias da Páscoa, os hoteleiros relatam taxas de ocupação inferiores às do ano passado, com uma subida do número de cancelamentos. “Vemos a saída da Ryanair com enorme preocupação, dado que a entrada desta companhia aérea levou a um forte incremento de turistas na região, o que foi fundamental para a melhoria da rendibilidade do setor turístico regional. Já sentimos um outlook negativo nas previsões de vendas para abril e maio”, explica, ao DV, Miguel Cymbron, diretor de marketing e vendas do grupo VIP Hotels.

O responsável explica que o turismo se irá ressentir, sobretudo nos meses de época baixa, e que será inevitável uma descida dos preços praticados nos estabelecimentos de alojamento turístico.

“Haverá sempre uma parte do negócio que se perderá. O alojamento que habitualmente dependia de low cost virá para o mercado com preços muito competitivos, no sentido de substituir os clientes perdidos, o que levará à diminuição de preços médios e, consequentemente, à perda de valor para a região”, assegura. Por outro lado, alerta, voar para os Açores ficará mais caro.

“A diminuição da concorrência nas rotas do continente para Ponta Delgada, com a consequente redução de disponibilidade de lugares, levará a preços de aviação mais elevados. A aviação não poderá voltar a ser o bottleneck do turismo açoriano”, defende.

Também a Vila Galé, que detém uma unidade em Ponta Delgada, assume esperar uma quebra na procura por via do corte das rotas da transportadora de baixo-custo.

“O destino irá sofrer uma natural redução dos fluxos e algum ajustamento nos mercados emissores. As nossas previsões apontam para uma queda na taxa de ocupação anual. Vamos agora redirecionar algumas ações e campanhas online para as regiões onde os voos se mantêm e excluir algumas”, diz o administrador do segundo maior grupo hoteleiro nacional, Gonçalo Rebelo de Almeida.

Em linha com os seus pares, a CEO do Canadiano Urban Nature Hotel traça o mesmo quadro, com uma quebra nas reservas para a quinzena da Páscoa. À saída da Ryanair soma-se ainda a atual conjuntura geopolítica, que já está a travar a procura de mercados-chave da região.

“Notamos muitos cancelamentos de última hora, algum abrandamento do mercado nacional e dos americanos. Já estamos a sentir quebras há alguns meses e, sobretudo com esta questão da guerra, os americanos estão mais prudentes”, justifica Andreia Pavão que, corrobora, que “a quebra dos preços será inevitável” na hotelaria e incontornável na aviação.

“A saída de uma companhia deste género vai ter muito impacto na dinâmica do preço. São muitos lugares oferecidos que não serão compensados pelas outras companhias que estão a operar as rotas domésticas. Vai ser mais difícil encontrar lugares disponíveis e os preços vão estar mais elevados. Essa é a consequência imediata”, frisa.

Hotelaria pede intervenção do Governo regional

Os hoteleiros ouvidos pelo DV defendem que, face à fragilidade no turismo da região, é imperativa a intervenção do Executivo regional. Para Gonçalo Rebelo de Almeida é essencial “manter o esforço na captação de novas rotas” e desenvolver eventos e conteúdos culturais e corporativos para o período de novembro a março, de forma a atenuar a sazonalidade.

O responsável do grupo VIP Hotels, Miguel Cymbron, não tem dúvidas de que deve haver um esforço para viabilizar a entrada de uma nova low cost nas rotas para Ponta Delgada. Andreia Pavão concorda e pede a criação de um instrumento legal de fundo de desenvolvimento de rotas, “até para evitar os problemas que têm existido nos apoios às companhias aéreas, que depois não são transparentes, ou não são legais”.

A empresária frisa ainda a necessidade de uma aposta mais estruturada na promoção do destino e alerta para a necessidade de qualificar a oferta. “Se queremos promover a oferta nos Açores durante todo o ano, é precisa uma aposta na qualificação. Temos infraestruturas que não estão operacionais, como o acesso ao ilhéu de Vila Franca, por exemplo”, alerta.

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